Escuto mulheres e seus pavores. O medo atroz da solidão, os desafios da maternidade, o enfado com o patriarcado e o pânico com a cultura do estupro. Escuto as enormes diferenças na lida ou na vivência de tudo isso quando a raça é um dos componentes da dor. Afinal de contas, na relação entre gênero e raça – entre outras categorias que dinamizam a interseccionalidade, como as deficiências – os pesos e as medidas das violências variam.
É evidente que me escuto também, mesmo que seja para me separar da situação, como corresponde no exercício clínico. Contudo, nós, psicanalistas mulheres, somos “escutadeiras” e, ao mesmo tempo, um enorme aparelho de ressonância. Aqui me corrijo, acredito que qualquer analista competente o é. Amplificamos o som, a dor, para dinamizar a nossa escuta. Não inventei isso, não. Minha formação lacaniana me ensinou, não foram as vozes da minha cabeça. Uma formação que é infinita porque não se vê plena e que implica horas-bunda, horas de escuta e debate com pares e ímpares.
Aliás, acho até bonitinho que Lacan esteja na moda e que tantos jovens analistas rapidamente se identifiquem e o ecoem por aí, tipo, de orelhada. Contudo, o proveito só vem com leitura atenta e referências, coisa que o Chat GPT não pode dar. E, para agarrar o espírito da coisa, é preciso sentar, ler e tomar contato com a língua afiada do cabra Lacan quando dizia:
“É preciso que haja alguma coisa no significante que ressoe. (…) [Psicanalistas/filósofos ingleses] não imaginam que as pulsões são, no corpo, o eco do fato de que há um dizer. Esse dizer, para que ressoe, para que consoe (…) é preciso que o corpo lhe seja sensível. É um fato que ele o é. Porque o corpo tem alguns orifícios, dos quais o mais importante é o ouvido, porque ele não pode se tapar, se cerrar, se fechar. É por esse viés que, no corpo, responde o que chamei de voz.” (1)
Outras mil mulheres, inclusive analistas, também o disseram. Às vezes, com mais poesia. Mas o que importa aqui é recuperar a noção de que um/a analista é também um corpo.
Costumo dizer que escutamos com todo o corpo. Às vezes, fazemos dissonância e isso também é parte do périplo em jogo na análise. Quero crer muito na aplicação destas noções, que ao cabo são técnicas, na esperança de que meus colegas analistas homens possam escutar cada vez mais mulheres para além dos diagnósticos estruturais comumente aplicados, quais sejam, histeria, loucura histérica e melancolia. Tampouco estou dizendo que abandonemos totalmente estas categorias, mas que entendamos que não deveria ser necessário ter uma teta e uma vagina para reconhecer um abuso, um estupro e sua devastação psíquica não somente na sujeita em questão, mas na sociedade como um todo.
Dia desses, vi mais um vídeo desses que mostram os turistas na Europa tocando as tetas das mulheres esculpidas há sabe-se lá quanto tempo. O nítido desgaste diferenciado na região dos seios das imagens esculpidas demonstra a massividade numérica do ato reiterado. Depois, vinham vídeos de mulheres visitando as mesmas estátuas em atitudes de dar suporte, de segurar a mão e abraçar, em um gesto de solidariedade à estátua vítima da cultura do estupro.
Pode-se pensar, levianamente, que são apenas tetas de bronze, mas sabemos que essa vontade de domínio, posta em jogo como brincadeira entre homens, endossa e escala para atitudes diárias de dominação – essa que sempre começa discursiva em uma ponta da sociedade e termina em violência física na outra.
(1) Lacan, Jacques. O Seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2007, p. 18.
O que você achou desse texto? Gostou? Então, você pode comentar ou apoiar financeiramente meu trabalho com a Apoia.se. Além de reconhecimento, seu apoio melhora minhas condições de sustentar este e outros projetos de escrita. Clique no link abaixo. Obrigada.

Todos os textos de Priscilla Machado de Souza estão AQUI.
Foto da Capa: Vênus de Milo - Louvre.fr

