A temperatura aquém dos vinte graus constituía um final de tarde gélido para os padrões do agreste pernambucano nos elevados adjacentes à Serra das Russas. Sendo a pretensão passar o feriadão junino, levávamos o que comer e o que beber necessários para o supérfluo daqueles dias. Nosso rumo era uma casinha rural, sem televisão e muito menos internet, mas com uma estante preservando antigas edições de Amados, Machados e outros. Conhecemos bem o caminho: depois de sair da zona urbana, deixando asfalto e calçamentos, enverga-se curvas enladeiradas e caminha-se por entremontes até chegar ao acesso à residência destinada: um pequeno e íngreme declive, descido diversas vezes, inclusive em tempos chuvosos.
Havia certa ansiedade em concluir o trajeto, pois fazia tempos que não passávamos uns dias naquela morada. E, em relação à ladeira da chegada, na verdade, fazia mais de um ano que não a descíamos.
Os dias de aguaceiro se sucediam na área, enlameando a rampa, cujo final dá numa estreita passagem ladeada por valas. Tracionado nas quatro rodas, nosso veículo inspirava segurança: pneus grandes e largos em modelo para asfalto e trilha. Assim, alcançando o trecho final do percurso, confiante na experiência adquirida tempos atrás, iniciamos o descenso. Conforme reza a prudência (e o manual do condutor), mantive engatada a primeira marcha e a tração integral, tendo a intenção de reduzir o deslocamento dos quase dois mil quilos de metal que nos empacotava.
Não obstante, no exato momento em que as rodas traseiras passam do ponto de inflexão entre o plano e o fosso, todo o volume composto por ferro, aço e gente inicia um progressivo deslize: o barro empastelara os pneus, uniformizando as protuberâncias que propiciariam alguma resistência e fixação na escarpa escorregadia. Ao contato com a argila grudenta, os borrachudos, com suas raias profundas distribuídas por suas larguras peculiares, quase que instantaneamente, se massificam em rechonchudos e pegajosos círculos de lama.
Desenvolvendo uma velocidade muito acima de minhas expectativas (e das margens de segurança), tentei reduzir a declinação do utilitário acionando, levemente, os freios: sem efeito… O conjunto metálico continuava avançando em rapidez. Desistindo da frenagem (e de qualquer pisada no acelerador), jogo toda minha atenção (e tensão) no controle do volante, pois, contanto que se mantivesse (mesmo precariamente) na trilha, a aceleração com a qual se transpassasse o apertado trecho margeado por fendas não seria o maior dos problemas.
Ainda no meio da descida, numa situação que tinha tornado impossível qualquer tentativa de retorno em marcha ré, o automóvel, em autonomia, desliza chão abaixo. A angulação oblíqua faz sacos, malas e fardos embolarem até esbarrarem no encosto de nossos bancos. A intensificação do precipitar das nuvens e a consequente diminuição da iluminação vespertina aumentam as incertezas sobre se o que estava à minha frente seria caminho ou fissura. Assim, em meio à dúvida, evitando estar em direta trajetória para uma cava, tento um leve toque no guidão. Porém, o oblíquo da rampa e o liso do piso fazem a tonelada em movimento derrapar para o lado contrário ao requerido.
Sendo insistir com o freio a opção proibida, continuou manejando o volante na tentativa de minimizar, ao máximo, os danos pressentidos. A viatura patina e resvala à direita, colocando-se frente a frente com uma estaca (de concreto) que compunha a fileira da cerca que, no iniciar da senda, postava-se ao nosso lado. E, direcionando-se por vontade própria, o sólido motorizado cursa direto para o aramado. A pancada da grade protetora rompe pedaços de um moirão, expondo seus vergalhões como que numa fratura exposta. Entretanto, a bordoada não foi suficiente para deter nosso transporte: continuei torcendo a condução na esperança de não despencar por completo vala abaixo. Na continuação, o jipe atinge em cheio outra estaca: para-choque e proteção despedaçam-na, deixando uma tríade entortada de varetas de ferro despontadas de um toco restante de cimento e granito.
Contudo, na sequência desse impacto, o 4X4 imbica em direção ao plano imediatamente superior, voltando, rapidamente, à trilha da qual não deveria ter saído…
Alcançando o destino, tendo antes recebido as vigorosas admoestações de minha companheira a favor de tudo que seja ao contrário do vivenciado, paramos em frente à casa e desembarcamos para constar as marcas do acontecido: o anteparo frontal condecorava-se com mais meia dúzia de machucões, o cercado desfalcava-se de duas boas traves.
O condutor, por sua vez, somava mais dois preceitos à sua meso moralia (nem magna nem mínima, respectivamente, nem aristotelicamente crédula que seus princípios conduzam ao bem-supremo, nem adornianamente incrédula que eles possam vir a ter alguma validade universal) que são: se se deixa de trilhá-lo, até aquele que fora o mais usual dos caminhos, pode apresentar perigos inesperados. E, ao ter que descer uma ladeira enlameada, mesmo com uma motorização potente, mais vale a simplicidade de velhos biscoitões recauchutados do que originais all-terrain chiques e caros…
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Foto da Capa: Arquivo do Autor.

