No dia 14 de junho, fui ao lançamento do livro O escuro do nosso tempo – Ensaios: psicanálise e cultura de Lucia Serrano Pereira, Robson de Freitas Pereira e Enéas de Souza (Editora Escuta, 2025), membros da Associação Psicanalítica de Porto Alegre/APPOA. “Uma reflexão sensível sobre ética, política, linguagem, tempo, desejo e movimento”, escreveu o psicanalista Norton Cezar Dal Follo da Rosa Jr.
Desde sua criação, a APPOA organiza vários seminários, entre eles, O Escuro do Nosso Tempo, que começou em 2014, com convidados em alguns encontros, ampliando e somando vozes. Portanto, o livro é o resultado de uma experiência compartilhada há muitos anos e revela a paixão e a criativa inquietude dos autores que se abrem para refletir sobre o escuro do tempo que vivemos e os desafios que enfrentamos cotidianamente. Passa pelos estudos e leituras, pela política, pela pandemia, pelas enchentes, pelos discursos totalitários distantes do humano, pela arte e pela cultura que nos dão identidade e aliviam as tensões ao jogar luzes na escuridão.
Os três ensaios do livro apontam para a necessidade de abrirmos frestas para a incompletude. Somos seres em falta, o que nos faz andar em busca da diversidade de saberes. E volto ao texto de Norton: “Mesmo reconhecendo a insuficiência e a parcialidade dos saberes, eles não recuam desse desafio; pelo contrário, ampliam a sua complexidade propondo uma interlocução da psicanálise com a filosofia, a literatura, a arte, o cinema, a antropologia, o teatro e a música. Diante da riqueza dos campos de saber em discussão, faz-se indispensável embarcar multiplicidades.”
Edson Luiz André de Sousa, também psicanalista, escreve na orelha que o livro é uma obra/fresta, mas também uma obra/festa porque celebra a alegria de uma amizade entre os autores. E é! Seguindo com Edson, “um deserto não se atravessa sozinho, e assim Lúcia, Robson e Enéas nos convidam a uma leitura que abra alguma faísca de pensamento e que traga um pouco de luz nos percursos que ainda teremos que inventar”.
Mesmo em tempos difíceis, há sempre uma luz apontando um caminho
– Lucia Pereira, em O escuro do nosso tempo: passagens e limiares, situa a dimensão do enigma a partir de um olhar que traz inúmeras referências literárias, uma luz preciosa para a leitura dos ruídos de uma determinada época. Para ela, só a expressão “O escuro do nosso tempo já é um enigma”. E nas primeiras linhas, enlaça o leitor com esta questão: “O que é o escuro do nosso tempo?” A interrogação traz uma posição analítica, reconhecendo que cada um de nós tem algo a dizer pelo que já viveu. Pelo que somos, pelo lugar que ocupamos, pelas nossas ambições, conquistas e frustrações internas e externas, pelos nossos limites, pelo que cultivamos e pelas fronteiras que atravessamos.
– Robson Pereira, em O desejo nos fragmentos: Ensaio para inscrever as referências, celebra as parcerias e o diálogo necessário para a travessia. E pergunta: Quais são as referências que importam hoje? “Aquelas que nos sustentam e possibilitam enfrentar o mal-estar”. Entrelaça o sujeito com o social, o político, a poesia, a música e os momentos de inquietude, como a nossa percepção da chuva nos dias atuais – “a chuva que bate no telhado à noite, hoje está longe de embalar um sono reparador. É muito mais prenúncio de nova tragédia, risco de desabamentos”. Assim, abre e amplia o diálogo com outros campos do saber. Abre frestas para a entrada de luzes e aponta para a riqueza da diversidade, no sentido de libertar a linguagem e estimular a convivência com o outro, tão necessária!
– Enéas de Souza, em No escuro do nosso tempo: O trágico e a política, nos convida a refletir sobre o trágico nos dias de hoje, resgatando a potência de um conceito que, segundo ele, se vulgarizou na atualidade. As perguntas são instigantes. O que nos traz o escuro? Onde encontrar a luz? Quais os caminhos possíveis para seguir? Sua análise profunda faz referências ao que vivemos no campo político, ancorada na peça Hamlet, de Shakespeare. Como pensar a política, a lógica do poder e sua tirania? Para ele, “a ética da política é não ter ética, pois o que comanda a política e o poder não é a ética. É a vitória”.
O barco inspirador da capa do livro, que nos transporta nesta travessia ousada e inquietante, é uma criação do artista visual, professor e pesquisador Eduardo Vieira da Cunha.
O livro propõe uma travessia pelos escuros do tempo que vivemos, por águas às vezes turbulentas, valorizando o que nos ampara nesta trajetória – os saberes compartilhados, as trocas, a arte, as amizades e o olhar para o outro.
Todos os textos de Lelei Teixeira estão AQUI.
Foto da Capa: Ilustração da Capa do Livro

