Em uma era onde cada notificação é um tiro de largada e o rolar infinito das telas parece ser a única forma de vida, eu me recordo da convivência com um pequeno mestre zen que jamais soube o que era pressa.
Seu nome era Hugo, uma tartaruga. Convencionou-se que era macho — não por sexismo, mas pela escolha do nome. Para a nossa família, ele era, portanto, um “tartarugo”.
Foi salvo de um atropelamento iminente, numa operação arriscada, em meio a engarrafamento, numa volta do litoral. Era para ter sido um acolhimento temporário, mas acabou ficando, até ser devolvido a uma paisagem segura, mais condizente com a sua natureza.
Hugo era a materialização da calma, o contraponto perfeito à vida agitada. Ele carregava consigo a filosofia que só anos depois eu leria nas palavras de Byung-Chul Han, autor de obras como A Sociedade do Cansaço e Vida Contemplativa: Elogio da Inatividade. O laureado filósofo propõe uma forma de rebelião contra a sociedade atual que começa por permanecer no próprio lar.
Para Hugo, o casco era o único lugar onde ele conseguia se ouvir, e era de dentro daquele refúgio que vinha sua força. Percebi que a resistência mais lúcida não precisava de gritos, mas da sabedoria de parar e se retrair para o único espaço onde se é verdadeiramente soberano: o próprio lar.
Hugo, a antítese viva da “sociedade do desempenho”. Ele não tinha metas trimestrais, sempre me pareceu que não sentia culpa por não estar “produzindo” nem demonstrava qualquer preocupação em otimizar seu tempo. O movimento dele era sempre um ato de plena atenção. Se Hugo decidia ir da bacia de cimento que se fazia de lago até a pedra que era a sua praia, iniciava-se uma jornada épica, medida em centímetros por hora. Não havia ansiedade pela chegada, mas tão somente a contemplação do caminho. Ele era a prova cabal de que a lentidão não é falha, mas uma declaração formal: um “não” silencioso à histeria da pressa.
Eu o observava, fascinado, enquanto, já à época, me afogava em rolos de obrigações e tarefas. Ele, ali, quieto por horas, no que poderia se chamar de “modo de economia de energia”, o que Byung-Chul Han chamaria de vida contemplativa.
Hugo não temia o vazio. Para ele, as “horas mortas” que tanto abominamos eram, na verdade, plena autonomia. Não havia testemunhas digitais de seu descanso; ele não precisava de um story para provar que estava “curtindo a vida”. Nem almejava likes. Ele, simplesmente, existia.
O casco, aquele exoesqueleto que ele carregava, era a sua versão perfeita da “hogarterapia”. Essa terapia do lar, definida como a criação de um lar saudável, equilibrado e feliz, que proporcione uma vida mais plena e com sentido. Era seu templo, seu bastião de liberdade. Em qualquer ameaça — um barulho repentino, uma sombra mais ousada —, Hugo se retraía para a sombra protetora. Ali dentro, ele estava seguro, inatingível, completamente dono de seu silêncio.
Hoje, Hugo não está mais aqui, mas a lição que ele me deixou é inestimável. Procuro aprender que o lar, a minha casa, não é diferente daquele casco. Ele precisa ser o meu refúgio de regeneração e paz, o lugar onde o silêncio é sem culpa. Onde posso praticar a revolução das pequenas coisas: beber meu café sem checar o celular, dedicar tempo ao cotidiano sem a pressão de transformá-lo em post inspiracional e, principalmente, dar-me o direito de brincar, de ser ineficiente e de apenas ser.
A resistência, afinal, começa na porta de casa. Ela reside na calma que eu consigo proteger de todo o ruído. Se o mundo insiste em me tratar como uma máquina, eu insisto em me comportar como a minha tartaruga: lento, atento e com o meu lar como fortaleza inexpugnável.
“Minha casa é meu castelo.” A expressão secular do jurista, escritor e político inglês Edward Coke, de quem vem a expressão, ganha mais uma conotação.
Não é tão simples, nem é uma fuga covarde. É mais do que sabedoria, é instinto de sobrevivência. Continuarei tentando, devagar, talvez eu consiga chegar lá.
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Foto da Capa: Gerada por IA

