Até o fim da semana passada, minha ideia para esta coluna era fazer uma análise ampla e o mais imparcial possível dos resultados da COP 30. Mas fomos bombardeados por tantas “avaliações” nos últimos dias que o tema, por ora, parece saturado. Além disso, a COP nem terminou de fato: pontos cruciais, como o famoso mapa para abandonar os combustíveis fósseis, ficaram pendentes. O presidente da conferência, embaixador André Corrêa do Lago, prometeu não deixar o assunto morrer e tentar levá-lo à próxima COP, na Turquia – um país autoritário que, embora não seja grande produtor de petróleo, tem aliados que são. Boa sorte ao nosso embaixador!
Além disso, as tendências que destaquei na coluna anterior se confirmaram: membros brasileiros da organização, representantes do governo e boa parte da mídia brasileira celebraram como se estivéssemos diante de conquistas históricas. Já outros setores – mesmo sem viés ideológico – foram bem mais críticos, classificando as conquistas como, no mínimo, modestas. Voltarei a esse debate em breve, porque a questão não é só o que foi alcançado em Belém, mas também o próprio formato dessas conferências.
Hoje, porém, quero falar de um tema que causou certo alvoroço antes da COP 30 e depois caiu no esquecimento: um memorando de Bill Gates, intitulado Three Tough Truths About Climate (“Três Verdades Difíceis sobre o Clima”, em tradução livre), com o nada modesto subtítulo: “o que eu quero que todos os participantes da COP 30 saibam”. O texto, ao contrário do que Gates esperava, foi recebido com entusiasmo pelos negacionistas climáticos e com frieza – até indignação – pelos ativistas.
O memorando de Bill Gates
O documento aborda vários pontos e suas proposições estão basicamente corretas. O problema está em como Gates começa:
1. A mudança climática “não levará à extinção da humanidade”;
2. É preciso mudar o foco de reduzir temperaturas globais para melhorar saúde e prosperidade humanas;
3. A “visão apocalíptica” do clima desvia recursos de iniciativas mais eficazes.
Donald Trump (como tantos outros) interpretou isso como uma confissão de erro e correu para dizer, em sua plataforma Truth Social, que Gates estava validando sua narrativa de que a mudança climática é uma “farsa”. Trump escreveu:
Eu (NÓS!) acabei de vencer a Guerra contra a Farsa da Mudança Climática. Bill Gates finalmente admitiu que estava completamente ERRADO. Foi preciso coragem para isso, e por isso todos somos gratos. MAGA!!!” (1)
Claro, é uma distorção deliberada. O que Gates quis dizer é que os investimentos em mitigação e adaptação devem priorizar o bem-estar humano. Em um mundo em que milhões ainda passam fome e carecem de cuidados básicos, não faz sentido, por exemplo, financiar carros elétricos para a classe média africana enquanto se cortam recursos para vacinas (2) – um movimento que já está sendo documentado.
Em essência, Bill Gates propõe uma mudança de rota: colocar a qualidade de vida no centro das discussões climáticas, indo além da simples redução de emissões. Para ele, o segredo está em investir de forma inteligente, guiado por dados, para potencializar o impacto dos recursos — especialmente entre os mais vulneráveis. Essa perspectiva se alinha à visão do governo brasileiro e de diversos países em desenvolvimento. Voltarei a explorar esse tema futuramente, mas, nesse momento, acho importante explicar por que a frase inicial de Gates pode ser interpretada sob outros ângulos.
Uma afirmação temerária
A afirmação de que “a mudança climática não levará à extinção da humanidade” parece, a princípio, reconfortante. No entanto — e me parece que ninguém (nem ele mesmo) notou isso —, abre espaço para um raciocínio sombrio. Somos 8 bilhões de pessoas no mundo. Se 1 bilhão perecer até o fim do século, a humanidade não vai se extinguir. Se forem 2 bilhões, ou mesmo 3 bilhões, ainda assim resistiremos.
E se o horror for extremo? Imagine 90% da população dizimada. Restariam 800 milhões de pessoas – ainda suficientes para manter a civilização.
Ou seja: provavelmente não haverá extinção. Mas a que preço?
Os bunkers dos super-ricos
Há os que não querem entrar nessa estatística. Diante da crise ambiental – e somando riscos como guerra nuclear, colapsos cibernéticos, novas pandemias e IAs fora de controle – os super-ricos estão se protegendo. Cada vez mais bilionários, especialmente do setor de tecnologia, constroem complexos fortificados e bunkers subterrâneos de luxo. Nada de abrigos cinzentos: são fortalezas autossuficientes, projetadas para garantir não só sobrevivência, mas conforto e ostentação diante de qualquer catástrofe.
Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn, diz que ter um “seguro apocalipse” virou padrão no Vale do Silício, com a Nova Zelândia como destino preferido pelo isolamento geográfico.
O exemplo mais emblemático é o complexo de Mark Zuckerberg, CEO da Meta, que não é na Nova Zelândia, mas na ilha de Kauai, no Havaí. Avaliado em mais de US$ 270 milhões, incluindo 1.400 acres de terreno, o projeto – chamado Koolau Ranch – é envolto em sigilo, com trabalhadores submetidos a rígidos acordos de confidencialidade.
Esses bunkers revelam uma mentalidade de “desacoplamento” da elite global: antecipar crises e investir fortunas para se isolar delas com segurança e luxo. Preparar-se para o apocalipse — em grande parte causado por essas próprias elites — virou símbolo de status.
Não sei se Gates já construiu o seu bunker. Mas o fato é que nós – você, eu e todos à nossa volta – ficaremos aqui, enfrentando enchentes, tornados e ondas de calor. Mesmo que a humanidade não seja extinta.
Referências:
(1) Original em inglês: "I (WE!) just won the War on the Climate Change Hoax. Bill Gates has finally admitted that he was completely WRONG on the issue. It took courage to do so, and for that we are all grateful. MAGA!!!"
(2) Veja bem, eu (nem o Bill Gates) não estou dizendo que a eletrificação da frota de veículos não é importante. Ela é fundamental para a transição energética. O que ocorre é que, com os atuais custos, principalmente se retirarmos os subsídios aos combustíveis fósseis, carros elétricos e eletricidade limpa são plenamente competitivos e não precisam de tratamento especial.
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Foto da Capa: Image Resizer

