Às vezes, olho os meus filhos, os maiores tesouros que a vida me deu, e penso com um orgulho que transborda da minha alma: eles são, cada um do seu jeito, mas com a mesma identidade ética e moral, aquilo que eu e muitos da minha geração quisemos ser. São seres livres, solidários, descontaminados da maldade, do cinismo e da mesquinhez humana, desprovidos de preconceitos, generosos, que simplesmente não registram a menor admissibilidade, por exemplo, de alguém ser classificado ou depreciado por características como origem étnica, cor da pele, gênero ou orientação sexual.
Esse exercício é automático e diário. Não por acaso, vejo ambos e vou correndo nas suas direções, propositalmente desengonçado pra provocar risos, me engato neles com beijos e abraços grudentos. Isso ocorre a qualquer hora, não só nas conquistas cotidianas da vida e gols do Grêmio. E ainda brinco. “Me levem junto onde vocês forem, porque estou sempre com saudade de vocês.” Juro que é assim. Amor puro, verdadeiro, incondicional. Grudento! O Pedro e a Paula são tudo.
Mas outro dia resolvi pensar no sentido oposto. Me vi como filho de duas pessoas incríveis, cada uma do seu jeito, mas com a mesma identidade ética e moral. Meu pai foi um homem do comércio, dedicado, generoso, divertido, prático e muito sábio. Tinha uma energia que me espantava, ajudava muito os outros, era solícito, assumia broncas alheias e as resolvia sem pedir nada em troca. Minha mãe é uma artista, como a minha filha. Arquiteta urbanista e doutora em História da Arte, passou aos filhos valores que vão muito além dos desejos materiais e da ganância comezinha. Cada um do seu jeito, mas uma equipe.
Costumo ocupar este espaço com assuntos factuais. Hoje, resolvi me dar o luxo de divagar sobre a formação que tivemos. Falo sobre a minha, mas sempre com a pretensão de partir do íntimo pro amplo. Da aldeia pro universo, como ensinava Tolstoi. Pensei em como vejo os meus filhos seguindo o caminho que a minha geração idealizou, mas não praticou em sua plenitude, porque eram outros tempos, bem mais difíceis pra tanto amor.
Meus pais têm 14 anos de diferença. Minha mãe é a irmã mais velha de cinco, e o meu pai, o mais novo de oito. Entre os meus tios paternos e maternos, portanto, há um hiato geracional. Mais: o meu pai vem de uma família kasher, que aportou no Bom Fim direto do shtetl. A família da minha mãe veio quando estourou o nazismo e tem hábitos muito mais ilustrados, intelectuais. Meus tios são profissionais liberais de destaque e tocam instrumentos musicais.
E essa disparidade cronológica não foi ruim, até porque, como eu disse antes, o meu pai era um sábio. Vou me deter nele a partir de agora porque estou há tempo querendo escrever sobre isso. Meu pai está no ano do seu centenário. Faria cem anos em 23 de abril do ano que vem. Casaram-se ele com 32 e ela com 18. E ela era inquieta, artista, jovem, descobrindo a vida. Ele foi companheiro, amigo e, de certa forma, pai dela. Vi como a incentivou a estudar, sonhar e se aperfeiçoar. Vi como, quando fizeram 25 anos de casados (bodas de prata), ele apareceu com um piano Fritz Dobbet na ampla sala da nossa casa e a fez chorar.
Eu vi o meu pai.
Meu pai também era um cara capaz de correr desengonçado até os filhos, enchê-los de beijos e abraços e manifestar mil vezes o seu amor. Também beijava e abraçava em conquistas da vida cotidiana e nos gols do Grêmio. E ia além. Passava códigos. Foi tão forte isso, que hoje, diante de situações desafiadoras, o ouço dizendo “Leozinho, não dá bola, não dá dimensão maior pra isso”, “Leozinho, não te importa tanto com esse imbecil, tu não te casará com ele”, e por aí vai.
E, pensando no que vi, me dei conta do que não percebi e hoje tenho com clareza. Meu pai tinha sonhos. Era muito comunicativo. Amava Geografia. Meu filho traz muito disso. Guardava recortes de jornais sobre fatos marcantes da História. Seu sonho era ter estudado Direito e sido diplomata, mas meu avô morreu quando ele era pré-adolescente, e ganhar a vida se tornou uma imposição dos tristes e dramáticos fatos. O Hershel teve que aprender a se virar.
Meu pai foi juiz classista, em tese representando os empregadores, porque era presidente do Sindilojas (hoje, o auditório do Sindilojas, no icônico edifício Santa Cruz, na Rua da Praia, leva o nome dele. É o Auditório Henrique Gerchmann). E os “vogais” tinham a má fama, às vezes injusta, de serem decorativos. Tinha um que dormia durante as audiências e provocava diversão aos estagiários e jovens advogados, que ficavam do lado de fora da sala de audiências dando risada. Só que, com o Seu Henrique, os juízes togados até abandonavam a sala e iam tomar um café, deixando ele fazer os acordos entre as partes da reclamátória. Frequentemente, o pai conseguia acordos improváveis aos risos e falando sobre futebol. Ele adorava uma flauta sadia, sem ranços, leves como tem de ser.
Vejo o meu pai, me vejo e volto a vê-lo em mim. Estudei Jornalismo na UFRGS e em seguida resolvi fazer Direito, na PUC porque na UFRGS só se podia cursar uma faculdade. Motivos pra ter estudado Direito: eu quis fazer algo que me aperfeiçoasse como jornalista (a profissão dos meus sonhos ainda hoje) e achava lindo o vasto conteúdo das ciências jurídicas e sociais. Mas também porque eu sabia que aquilo deixava o meu pai feliz, era uma continuidade.
Curiosidade: o Sindilojas é um sindicato patronal em termos. Manja aquele padeiro da esquina, aquele sapateiro do meio da quadra, o mercadinho, a fruteira, o açougue, o brechó e a tabacaria? São associados do Sindilojas e lutam pra sobreviver. A seu jeito, trabalhadores. Aprendi muito acompanhando o pai nas negociações, com uma visão muito posta no social e no justo. Sempre fui mais de esquerda que ele, mas, desprovido de dogmas que sou, hoje entendo como éramos próximos.
Meu pai também participava muito da coletividade judaica. A sinagoga Centro Israelita, o Club Campestre, ele sempre estava presente nesses espaços. Sempre muito zeloso pelo nosso povo. Tinha um enorme amor por Israel, nosso lar étnico, que visitou algumas vezes com a minha mãe. Tinha na alma a amargura de uma família perseguida pelos pogroms na diáspora. Ah, e ele não era só um gremista. Era conselheiro atuante. Um dos seus maiores amigos da vida era o Tio Hermínio Bittencourt, que empresta o nome ao Museu do Grêmio (Memorial Hermínio Bittencourt). Eram inseparáveis.
Pois reúna tudo isso e me diga: sou jornalista com formação também em Direito (tenho até OAB), trajetória em grandes redações e livros sobre a diversidade no futebol, a História do Grêmio, trabalhos informativos, em linguagem jornalística, que rompem preconceitos e elucidam fatos importantes muito mal contados, que, por exemplo, resgatam a Coligay e foram a base pra uma série e um filme romanceados. Também escrevi, no mesmo tom, livros sobre os judeus (“A cronologia do Alef Bet”, que combate frontalmente as diferentes e infinitas modalidades de antissemitismo, e “Uma estrela no Pampa”, uma espécie de biografia da coletividade judaica).
Repenso com muito orgulho nessa trajetória que vai além das limitações físicas das redações de Zero Hora e Folha de S. Paulo, os jornais onde mais trabalhei. E vejo o meu pai, me vejo e o vejo em mim. E dou um sorriso com saudade. Juro que uma lágrima corre pelo meu rosto no instante em que escrevo isto.
A sensação é de conforto e de paz interior.
Acho que ele se veria em mim.
Argentina
Faz uma semana, mas lá vai: a vitória surpreendente de Javier Milei nas eleições parlamentares nacionais argentinas tem uma explicação principal. É a psicologia. Há menos de dois meses, os candidatos do Milei tinham ficado 14 pontos atrás dos adversários peronistas na província de Buenos Aires (40% do eleitorado nacional). Agora, ficaram um ponto à frente na mesmíssima província. Uma virada de 15 pontos em seis semanas sem motivo aparente. E, nesse meio tempo, foram só más notícias. O governo se envolveu em casos de corrupção terríveis, a economia viveu uma instabilidade preocupante e até o cabeça de chapa governista precisou renunciar por ter vínculo com um narcotraficante da pesada, sendo mantido o seu rostinho na cédula apesar da troca de candidato.
Qualquer analista diria (e disse) que a diferença se ampliaria e que seria o começo do fim do governo Milei. Mas foi todo o contrário. Uns explicaram às secas que o motivo foi a ajuda de Trump (socorro de US$ 20 bilhões) e a chantagem trumpiana de que só Milei receberia a mufunfa. Mas o argentino é zeloso do seu nacionalismo, ama com razão o San Martín, o Belgrano, o Maradona, o Messi, o Charly, o Darin, o mate, o doce de leite, o Gardel, o Palito Ortega e até o atrapalhado Franco Colapinto. A tradição e a lógica diriam que o argentino veria a ajuda como intervenção acintosa, compra de eleição etc.
Só que o argentino claramente cansou. Cansou do peronismo, em especial na vertente kirchnerista. Cansou das instabilidades econômicas que tanto o castigaram, seja por arte e graça peronista, radical ou macrista. Cansou de viver numa montanha russa alucinante. Viu aqueles 14 pontos de vantagem na eleição bonairense e se apavorou com as incertezas, com a inflação desenfreada. Correu pras urnas querendo inverter a tendência. Quis um pouco de ordem e previsibilidade.
E Milei, por mais que o critiquemos, lhe dá isso, é a ortodoxia de costeletas, pose roqueira e economês mastigado. E Trump também ofereceu isso, como um airbag em caso de colisão. E a eleição foi decidida pelo cansaço, pela psicologia de uma nação que quer paz e a estabilidade de no dia seguinte ir ao banco e saber que o seu dinheirinho está lá.
Algum juízo de valor da minha parte nessa análise? Zero. Seria até o contrário. Vejo a reforma trabalhista que o Milei propõe e me apavoro. Mais um pouco e é escravidão, com carga de 12 horas e salários pagos em tíquetes refeição (é sério isso). Acho um horror também a motosserra cortando dinheiro de aposentados e deficientes.
Mas fazer o quê?
Não brigo com os fatos, e eles têm uma explicação, duela a quien duela.
Shabat shalom!
Todos os textos de Léo Gerchmann AQUI.
Foto: Freepik

