
Em 6 de setembro, Martha Medeiros publicou no Jornal O Globo o texto “Não voto por mim, mas por quem ainda precisa”. Reconhece os privilégios de sua trajetória (estudos pagos, intercâmbio, plano de saúde, uma vida sem violência) e conclui que votar em quem defende seus interesses seria uma indecência, já que seus interesses foram atendidos desde o nascimento. Isso desloca da pergunta “o que eu ganho com isso?” para “o que acontece com quem não teve as mesmas oportunidades que eu?”.
Foi essa provocação que me levou a olhar os números da pesquisa Quaest, divulgada em 28 de setembro, que, além dos percentuais de cada candidato, apresentava o perfil dos eleitores. Achei interessante analisar “quem vota em quem?”
Regiões do país
Lula liderava com folga no Nordeste e aparecia à frente no Norte. Flávio, por sua vez, liderava no Sul e no Centro-Oeste. O Sudeste apresentava um cenário muito mais equilibrado. Quando saíram os resultados, percebeu-se que aquela pequena diferença em favor de Lula se inverteu; foi Flávio quem passou 2% à frente. Porém, esses números não alteraram significativamente a fotografia revelada na pesquisa de 28 de setembro, que segmentou os eleitores por renda, escolaridade, religião, cor, gênero e idade.
Renda e escolaridade
É aqui que aparece um dos padrões mais nítidos da pesquisa. Entre os eleitores com renda familiar de até 2 salários mínimos, Lula tinha 52%, contra 23% de Flávio, uma diferença de 29 pontos percentuais. Na faixa de 2 a 5 salários-mínimos, havia empate (Flávio 36%, Lula 35%). Acima de 5 salários-mínimos, Flávio vencia por 12 pontos. Na escolaridade, aparecia desempenho semelhante. Lula liderava entre aqueles com ensino fundamental por 16 pontos, enquanto Flávio passava à frente entre os que tinham ensino médio e ensino superior, por 8 e 12 pontos, respectivamente. Aqui é preciso ter cautela; escolaridade não determina consciência social, solidariedade ou posição política. Uma pessoa com diploma universitário pode defender políticas redistributivas; outra, com pouca escolaridade, pode defender a redução do papel do Estado. Não existe uma relação automática entre educação formal e visão de mundo. Portanto, renda, escolaridade e região se misturam, e é difícil dizer qual pesa mais.
Religião e cor
A divisão religiosa é simétrica: Lula vencia entre católicos por 19 pontos e Flávio entre evangélicos pelos mesmos 19. Na cor, Flávio tinha vantagem mínima entre brancos (2 pontos), enquanto Lula vencia entre pardos (10) e pretos (13). Seria tentador concluir que o Sul vota mais em Flávio porque possui maior proporção de população branca e maior escolaridade, enquanto o Norte e Nordeste votam mais em Lula porque possuem maior presença de pardos e pretos e menores níveis de escolaridade. Mas seria uma conclusão apressada. Essas variáveis não são “caixas” independentes. Elas se sobrepõem e se combinam com renda, região, história política, estrutura econômica, religião e outras características sociais. A pesquisa mostrava onde estavam as diferenças, não necessariamente explicava por que elas existiam.
Gênero e idade
A diferença entre homens e mulheres chamava a atenção. Lula tinha 40% entre as mulheres, contra 29% de Flávio, uma vantagem de 11 pontos, enquanto entre homens Flávio lidera por 2 pontos. O gênero também é uma dimensão política. Homens e mulheres não formam grupos politicamente homogêneos, mas vivem a sociedade de maneira diferente. Possuem percepções distintas sobre políticas sociais, saúde, educação, violência de gênero, direitos das mulheres e adesão à pauta de costumes mais conservadora. São hipóteses, e a pesquisa não as comprova. Já a idade quase não separa o eleitorado: Lula liderava em todas as faixas. Ou seja, não se confirmava a hipótese de que o voto de direita predomina entre os mais velhos e o de esquerda entre os mais jovens.
O que disseram as urnas?
Quando a apuração fechou, podemos ver que a Quaest, e a maioria das pesquisas, erraram por darem Lula pouco à frente de Flávio. Os “estados pêndulos” (Minas, São Paulo e Rio de Janeiro) foram decisivos para essa virada. A direita, sob o comando do PL de Bolsonaro, ganhou com larga vantagem nos governos estaduais e nas eleições para o Senado e Câmara Federal.
Chegamos à questão que considero mais preocupante: o Brasil aparece entre os países mais desiguais do mundo. Segundo o World Inequality Lab, os 10% mais ricos concentram 59,1% da renda e os 50% mais pobres ficam com 9,3%. Já o Global Wealth Report 2025, do UBS, também coloca o Brasil no extremo superior da desigualdade patrimonial entre os países analisados: o coeficiente de Gini da riqueza brasileira foi estimado em 0,82 em 2024, empatado com o da Rússia e acima dos demais países da amostra. Poderíamos concluir que os eleitores da direita não se importam com isso, ou acreditam que as propostas de Flávio de maior liberdade econômica, menos impostos e menos Estado reduzirão a desigualdade.
Espero que, no segundo turno, possamos focar mais no debate das propostas dos candidatos e deixar de lado as brigas do STJ, a Nossa Senhora Aparecida e outros temas que predominaram no primeiro turno. Cada um tem o direito de votar de acordo com os seus próprios interesses. É aqui que voltamos com a Martha Medeiros: “se meus privilégios já estão garantidos, seria indecente votar apenas para preservá-los”. Mas quantos de nós fazemos isso? É fácil dizer que desejamos um país menos desigual, o difícil é concordar em financiar políticas públicas das quais não seremos beneficiados. Talvez esse seja o verdadeiro teste do voto. Quando votamos, conseguimos pensar em alguém que não seja nós mesmos?
Referência:
– O Globo – Não voto por mim, mas por quem ainda precisa. Martha Medeiros.
– O Globo – Brasil lidera em número de milionários na América Latina, mas é o país mais desigual.
– Poder 360 – Brasil é 5º país mais desigual do mundo, diz estudo de Piketty.
Todos os textos de Luis Felipe Nascimento estão AQUI.