Observei a bergamota no sol de inverno. É quase uma tradição gaúcha tão forte como o chimarrão e remete à lembrança de coisas boas. Fruta, comida, sentimentos em enlace. A comida tem esse lado afetivo quase espontâneo, seja de receitas A ou B, seja de um ingrediente que faz um chá maravilhoso para alguma coisa. Talvez não seja ao acaso, pode ser que, no fundo, todos tenham a noção da importância do alimento como crucial para a vida. E, indo além, quando se insere na terapia integrativa ou na nutrição funcional, o alimento está como base para entender a pessoa como um todo, assim como são bases os relacionamentos, o sono, a atividade física, o pensamento, o contato com a natureza e a espiritualidade. Todos esses trazem uma informação que é como uma instrução para conversar com os átomos do corpo, para trabalhar no metabolismo das células e, por fim, responder no todo com a genética, com os hábitos, com os antecedentes, acionando ou adormecendo os gatilhos do nosso DNA para se manter saúde ou não. É impactante esse pensar, já que o mundo de hoje não tem tempo, todos têm pressa, prezam o imediato, são movidos pelo efêmero, como nos fala Bauman. Na verdade, quem olha com atenção para o alimento no prato? Quem questiona os nutrientes que este contém? Quem sabe o que ele provocará no corpo? Quem mastiga com calma todo o alimento ingerido? O fato é que quando se senta à mesa frente a um prato de comida, o habitual das pessoas é terminar a refeição sem perceber, que dirá ter tempo para sentar com calma e perceber todo o processo. Será que há o momento de alguma consciência, com a promessa de calma e paciência para a próxima refeição? Para pôr o garfo ao lado do prato, contar as mastigadas e entender o que aquele ato significa para o corpo, para a saúde ou para a doença? A real é que os pensamentos estão sempre a mil, articulando tudo que ainda precisa ser feito no trabalho, na casa, com os filhos, com as horas que correm, com os compromissos e, lá se vai o momento atual, a refeição. É uma parte importante das nossas vidas aquele momento de refeição? Comecei a me testar, buscar foco na refeição. Não é fácil! Então esmiucei os estudos e me deparei com o conceito de Mindful Eating. Vi sua origem no mindfulness que desponta da meditação advinda dos princípios budistas e, atualmente, usada nas ciências ocidentais. É uma forma do indivíduo se relacionar com o que acontece no presente, estando atento ao momento, com foco intencional e consciente, sem julgamentos de cada espaço vivido. É o olhar no aqui e agora e seus detalhes, é o prestar atenção. Um treinamento mental para o momento de forma clara para tomar decisões conscientes e tranquilas. Se diz sem julgamentos porque busca a consciência do atual e a aceitação sobre o vivido no intuito de buscar evolução. Tipo, a partir daí, redirecionamentos através da clareza observada nua e crua.
O mindful eating, lógico, parece cair como uma luva nos momentos atuais e nos tantos direcionamentos da alimentação, da saúde, da doença, do bem-estar. Continuei com o experimento. Fui da bergamota (observei cada pedaço de casca retirada, os aromas, o gosto de cada gomo com olhos fechados e abertos) ao espaço alimentar convencional. Usei o café da manhã para análises. Entendi esse momento como o mais promissor, já que a dinâmica dessa refeição permite um pouco mais das ligações com o alimento e suas consequências. Talvez pela certa calmaria do alvorecer que prenuncia a correria. É verdade que precisei de tempo para ter tempo. E na sequência de todos os dias não foi diferente, preciso me concentrar para as observações, a interação com o alimento e as suas percepções. Percebi que faz a diferença, experimente! E, ao entender esse novo caminho e aplicar as técnicas para viver o momento presente, observando o interno e externo, sem críticas ou preconceitos, vi direcionamentos da nutrição para uma prática profunda e então, talvez, essencial, que envolve também uma postura quase meditativa frente a uma refeição. Não é fácil, leva tempo, mas vale.
Li que o assunto não é tão recente quanto o contemplativo. Em escritos de Antonaccio e Figueiredo, no final dos anos 1970, há análises de cientistas do ocidente com interesse pelos efeitos da meditação na saúde. O destaque foi para um professor de medicina chamado Kabat-Zinn, que passou a ensinar técnicas inspiradas no zen-budismo para o controle do estresse e a redução das dores crônicas. Foi assim que surgiu o Programa de Redução de Estresse baseado em Mindfulness, do inglês Mindfulness-Based Stress Reduction (MBSR), e é dele de onde derivam vários outros programas de mindfulness, que foi traduzido para o português como simplesmente a tal ‘atenção plena’. Esses autores não foram os únicos a se deter nesses conceitos. Demarzo e Campayo defendem que a atenção plena se associa à promoção da saúde por permitir o desenvolvimento de habilidades individuais que podem propiciar a tomada de decisões favoráveis à qualidade de vida. Segundo eles, assim como o conceito de promoção da saúde e autocuidado, a prática de mindfulness relaciona-se com o desenvolvimento da autonomia e do empoderamento individual sobre seu corpo, mente e sua alimentação.
Então, o mindful eating está inserido como uma ferramenta de nutrição comportamental. Porque se baseia no fato de que a alimentação vai além da compreensão única de ingesta de alimentos, se insere no que é denominado como ‘atenção plena’ no momento do ato alimentar. Uma percepção meio óbvia, mas se alastra para caminhos profundos. É um estar consciente, perceptivo e participativo a respeito do alimento, do consumir, do deglutir, do petiscar e mais além, ou seja, da percepção do prazer oferecido pelo que se come. O fato é simples: quantas vezes nos deparamos com o real aspecto do ‘como, no que e no porquê’ se está consumindo algo em uma refeição? Da mesma forma, qual a magnitude do entendimento ou a tentativa desse nas causas e consequências que essas atitudes alimentares podem provocar em cada um de nós através da maneira como esse alimento é ingerido? Me parece que é nesse sentido que a nutrição passa por reformulações e se dirige para âmbitos além do biológico, que, a grosso modo, ingressa nos delineamentos comportamentais da relação de como cada pessoa encara o alimento e a maneira como esse é ingerido. Parece que tudo gira em torno do saber se alimentar, o que está sendo ingerido e como esse processo acontece. Pesquisadoras como Barbosa, Penaforte e Silva publicaram em 2020 algumas diretrizes no foco alimentar, no prestar atenção no presente e a tudo que surgir interna ou externamente, sem se prender a julgamentos (ou seja, com aceitação) e sua relação com a comida. Elas dizem que esse processo pode favorecer escolhas alimentares mais conscientes e minimizar o comer excessivo ou ainda, em relação àquele momento guiado por fatores emocionais, ambientais e outros. Enfatizam ainda que o mindful eating direciona as pessoas para que façam as escolhas alimentares de forma atenta, onde toda a experiência da alimentação seja percebida pelos sentidos, sensações físicas e emocionais nos detalhes do antes, durante e depois que se come algo. É complexo, mas pensar nessa abordagem não tão inovadora pode refletir na saúde das pessoas, simplesmente pelo fato de ouvir e respeitar o organismo, e entender que mindful eating é uma forma de equilíbrio na alimentação. Penso que nossos antepassados já praticavam isso, onde o tempo era mais lento, mais calmo, mais intenso de percepções.
São direcionamentos que deslocam os valores mais rígidos da nutrição em favor do aspecto comportamental. Numa visão que se expande para além de ser um processo absolutamente biológico, de sobrevivência, de necessidade, onde a saúde completa é alimento, corpo, mente e comportamento. A nutrição comportamental assim se enquadra em questões culturais, sociais, emocionais intrinsecamente relacionadas com o biológico e acaba por influenciar os hábitos alimentares e de consumo. Tudo gira em torno do foco, que se interconecta na relação de conceitos para o mais saudável no processo da alimentação, já que envolve as emoções e hábitos ‘preocupados’ com o que se consome e como esse processo acontece, ou seja, o processo do Mindful Eating. Ou ainda, ter em mente que o ato de comer com atenção plena é uma atividade em que cada um de nós detém sua atenção e foco no presente momento da refeição, seus ingredientes, seus cheiros, seus gostos, suas texturas, como também, no contexto que envolve aquele alimento e a saúde, abrindo uma nova prática distante do consumo automático de uma refeição. É a bergamota nua e crua focada na construção da sua casca, das fibras, dos óleos essenciais, das cores, dos aromas exalados no ato em que a casca é partida, do sabor, da quantidade de suco, da presença das sementes e do prazer que isso denota e significa (pode ir para uma viagem à infância…).
Uma realidade descortinada com importância para esse novo caminho da nutrição, a comportamental, que pode estar bem além do nosso olhar. Com esses meus novos pensamentos, observei alguns dados estatísticos não tão atuais da Organização Mundial da Saúde (OMS), que apontam em 2011, o percentual de que 20% dos adolescentes terão algum problema de saúde mental dentro de alguns anos, e, pelos apanhados da World Health Organization da mesma época, 17% dos jovens poderão apresentar depressão num futuro próximo ou na vida adulta. Como conectar hoje? Bom, se pensarmos na alimentação de ‘fast food’ predominante dos jovens, da intensa atividade desses com a tecnologia e sua quantidade de tempo em frente a celulares e computadores, pode-se ter uma explicação vinculada ao mindful eating, ou seja, esses nossos adolescentes passam os dias focados nas mídias, trancados em seus quartos, todos sempre com pressa para postar, para se conectar e pouco ou nenhum tempo para preparar alguma comida, que dirá se alimentar sentados à mesa. Tudo e qualquer coisa é deglutido, engolido e devorado sem nem saber de onde veio, ou ainda, que seja qualquer coisa que o delivery trouxer. Mesmo sendo dados de 2011, eles são relevantes porque essa saúde mental dos adolescentes analisados naquela época (e, convenhamos, hoje está agravada a relação com internet e alimentação) direciona uma probabilidade de que o momento atual esteja vivendo esse aumento da depressão previsto para acontecer na idade adulta daqueles jovens. Instigada, busquei sincronia em relatos no Journal of Adolescent Health, em artigo de Keenan-Miller, Ham-men, & Brennan, onde expressavam o aumento da taxa de doenças relacionadas àqueles dados para 40% dentro de dois anos, chegando a 70% em 5 anos. São dados impactantes para a sociedade. Talvez o grande desafio atual seja encontrar formas de frear e reverter essa tendência. Como fazer? O que fazer? Onde iniciar? A resposta talvez esteja nas famílias e na escola, trabalhando desde cedo nesses espaços com focos voltados ao desenvolvimento pessoal aliado também com a alimentação comportamental, onde a ferramenta Mindful eating se enquadra e pode servir para ajudar a reverter esse prognóstico. É quase como incorporar um programa diferente de redução de estresse que cuida também da alimentação como parte do currículo escolar e familiar, onde melhora a autoestima, concentração e, quem sabe, problemas de mau comportamento dos alunos e futuros adultos. Ou ainda, voltar aos modos e maneiras à mesa do passado.
É uma possibilidade que a tal atividade do mindful eating pode ajudar a entender melhor a relação que temos com a comida, os sentimentos que vivenciamos quando comemos, o nosso posicionamento na saúde geral e, assim, ajudar pessoas a cultivar uma vida mais saudável através do alimento ingerido com foco e consciência. Estaria aqui também a chave para a solução de problemas nas salas de aula? Com falta de atenção, desinteresse, agressividades..? Seria uma janela bem-vinda para tantos desencontros da vida atual? Me parece que essa atividade prática e reflexiva do Mindful eating se torna uma ferramenta promissora na Nutrição (na Psicologia? Na Educação?), na medida em que o indivíduo entende sua posição frente ao alimento e a consequente diretriz de saúde? Respostas que o tempo dirá e, apesar de desafiador pelo tempo que exige frente a essa sociedade tão corrida, o focar na refeição sem distrações e pressa para perceber seus sabores, cheiros, consistências e sua importância como alimento tem seu lado muito promissor. Parece ser uma ferramenta importante no mundo atual, uma vez que o praticante se torna um observador da sua experiência em relação à comida, à saúde, ao tempo e a si mesmo. Na prática, pode ser um grande aliado aos problemas metabólicos gerados pela má alimentação em todos os seus contextos, já que a refeição se torna um ato consciente como um todo.
Denise Preussler dos Santos é jornalista (Unisinos), com mais de 180 artigos publicados em jornais do interior. Tem publicações na Revista Teias, Labrys, Revistas Eletrônicas Puc, Revista de Educação, Linguagem e Literatura-UEG Inhumas. É mestra em Educação (Ulbra) e terapeuta integrativa. Atualmente, cursa Nutrição (Uniasselvi).
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Foto da Capa: Gerada por IA.

