O título do presente texto traduz aproximadamente o capítulo de livro que escrevi para a obra Sustainable Futures for Higher Education: The Making of Knowledge Makers (Springer, 2018), capítulo intitulado The constitutive crisis of universities: born to be for few, challenged to be for all. O contexto imediato que me fez voltar a esse capítulo foi a guerra aberta que se estabeleceu entre a Universidade de Harvard, nos EUA, e o establishment governamental lamentável liderado por Donald Trump. Nesse sentido, o subtítulo adicional que a contemporaneidade sugere seria algo na linha “… e desafiadas a manter luta perene contra a barbárie”. Porque, no fundo, é disso que se trata. Universidades dignas desse nome, desde que movimentos incipientes em claustros europeus medievais começaram a oferecer o terreno fértil para a mudança de um “crer para ver”, rumo a um “ver para crer”, rumo ao nascimento da ciência moderna galileica, tais instituições tiveram desde o início a missão de estabelecer terreno para embate de ideias, para a substituição do tacape pelo argumento, da “doxa” (opinião, perspectiva) cristalizada numa ortodoxia, pelo acervo de dados, na base de teorias, algumas das quais extremamente explosivas, como a origem das espécies fruto da seleção natural (para além dos desígnios de um demiurgo). As universidades, historicamente, têm-se constituído num estorvo constante, com professores e formandos desse grupo sendo caçados pelos autoritarismos da vez, e seus livros queimados em orgias “purificadoras”. Ora, queimar um livro, para além do limite máximo da metáfora (o livro e o autor “queimados”, ou em termos atuais, “cancelados”), configura um passo perigoso de retorno à barbárie. Ao tempo em que tinha razão quem tinha o tacape maior. Em que mandava quem podia, e obedecia quem tinha juízo. As bases do que chamamos, em termos gerais, de “Civilização Ocidental” repousam sobre uma ressignificação histórica das heresias em termos de ideias como quaisquer outras, destinadas ao calor do debate, e não mais à fogueira dos ímpios. Dos demoníacos. Dos insensatos.
É claro, para quem tem um mínimo de informação acerca dos caminhos das universidades, como instituições mundo afora, que o mote central acima sempre foi um lema, um princípio-chave, algo sempre em construção e sujeito às intempéries do desenrolar da história, o que explica o tanto de títulos de doutores honoris causa atribuídos a personagens lamentáveis, ou perfeitamente medíocres, cuja “honorabilidade” não vai além do acúmulo de poder, o qual a universidade não pode simplesmente ignorar, pois dele depende umbilicalmente para sua sobrevida. Nesse ponto, voltamos ao cerne do capítulo que inspirou esse texto, e que tem relação com os dilemas e contradições da instituição universitária mundo afora. Naquele tempo medieval a que aludimos mais acima, o tempo que viu prosperar grupos, no mais das vezes eclesiásticos, dos quais a inspiradora e trágica epopeia de Abelardo e sua discípula e depois amante Heloisa de Argenteuil é ilustrativa, tal tempo e contexto surgem com o intuito de abrir o mundo do pensamento, da erudição, do acesso aos textos (primeiramente manuscritos, depois impressos) a TODOS que tivessem, como condição de partida, o desejo real de aprender, e depois, uma contribuição reconhecível para debater. Independentemente de filiação à nobreza monárquica, ao clero enquadrado por Roma, à burguesia nascente nos primeiros aglomerados urbanos, nas franjas dos castelos senhoriais. Isto posto, sempre houve filtros ao engajamento de acólitos, não fosse o detalhe não propriamente banal do domínio de uma ferramenta linguageira de trabalho, o latim (donde o surgimento do Quartier Latin, nos arredores de Notre-Dame de Paris).
A pretensa liberdade de formulação de ideias, naquele período inicial, precisou conviver, por muito tempo, com a necessidade de um “imprimatur” (licença para imprimir) eclesiástico, sob pena de inserção das obras de contraventores insubmissos a um “index librorum prohibitorum” (Index de livros banidos/proibidos pela Santa Sé) – ferramenta de controle de ideias que atravessou a Idade Média e chegou às franjas da contemporaneidade – Freud, Marx e Darwin que o digam…). Então “universidade para todos”, em termos de liberdade de pensamento, idem… Não fora essa dolorosa contradição no próprio nascedouro da instituição, ela se viu, na modernidade e pós-modernidade, confrontada ao desafio de, nascida para um grupo restrito que lutava contra uma nomenklatura gestora do pensar, abrir-se “para todos”, rever a métrica meritocrática que sempre fez parte de sua alma mater, e se aliar a lutas político-sociais como aquelas no âmago dos sistemas de cotas, mundo afora. Tal postura fez seu caminho em muitos países ocidentais, incluído o Brasil, mas não sem, aqui e ali, espasmos do tipo “cotas sim, mas como exceção, e com data para terminar”. A universidade precisa, efetivamente, lidar com o paradoxo de ser para poucos e para muitos, ao mesmo tempo. E aqui, meu depoimento de alguém que passou inclusive pela gestão acadêmico-universitária em instituição pública brasileira, meu depoimento, ao frigir dos ovos, é que se trata de um debate que vai e volta, um terreno em que convivem dados com qualidades as mais variadas, mas um contexto em que o debate tem persistido acadêmico – mesmo sabendo-se da existência de Assessorias de Segurança e Informação (as famigeradas ASI) ligadas diretamente aos gabinetes dos reitores de várias universidades brasileiras no pós-golpe de 1964. Apesar das origens históricas clericais, os acadêmicos nunca foram santos. E nem serão jamais.
Somos, nas universidades mundo afora, um grupo heterogêneo, problemático, desafiador, simultaneamente forte e frágil, permeável ao que há de melhor e pior na sociedade circunjacente, mas ainda e sempre aberto ao debate. Ao embate de ideias. À resistência ao alinhamento de pensamento via abdução ou sucção de cérebros por Tamanduá redivivo Trumpiano – com empréstimo, aqui, do personagem inesquecível do inesquecível Henfil. O mesmo Henfil que advertiu que “mortos-vivos do golpismo terão cérebros sugados e serão enterrados sob sete palmos de desprezo”. A universidade sabe disso, mesmo aquelas mais conservadoras, como Harvard. Pois, parafraseando outro herói dos tempos de chumbo das ditaduras que vão e vêm, o poeta Mário Quintana, as hordas trumpistas e assemelhados passarão, enquanto que a universidade, passarinho.
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“Omnibus sapientia, unicuique excellentia” – “O saber para todos, a excelência para cada um”
Dístico sobre o portal principal da Sorbonne, em Paris.
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