Nesta sexta-feira, 4 de abril, estou publicando a minha coluna semanal na plataforma SLER e participando de um evento da Constructo para o qual tive a enorme honra de ser convidado.
As minhas colunas são publicadas sempre às sextas. E resolvi unir ambas as atividades nessa coincidência de datas, fazendo aquilo que era praxe falar nos anos 1970 em situações assim: unir o útil ao agradável.
O fato é que senti um saudável desconforto com o tema e o contexto, porque não sou nem psicanalista nem historiador, e o desafio inquieta, mas é bom.
Sou orgulhosamente jornalista e procuro sempre falar sobre assuntos de que domino a partir de pesquisas profundas e específicas no conteúdo.
Nesta participação, aqui e agora, claro que o assunto é sempre presente e vivo, e há sim, um aspecto muito apropriado pro tipo de atividade que desempenho: a memória e a essencial justiça com o passado para um presente mais cristalino e um futuro melhor.
Também voltando aos clichês consagrados nos anos 1970 da minha adolescência, tenho procurado, em livros escritos por um autor jornalista, que é o que sou, pôr alguns pontos nos seus devidos “is”.
Neste caso do filme “Ainda estou aqui”, vou juntar a minha atividade de jornalista autor de livros que brotam da inquietação com outra característica minha que se torna muito poderosa diante do contexto ao qual estamos nos referindo e ao ambiente em que o evento ocorre.
Sou uma pessoa nascida em 1964, ano em que os Beatles ganhavam a América com “A hard days night” e em que, no Brasil, iniciávamos uma pesada noite, com longas e muito sinuosas trevas na estrada que nos traz até aqui.
E é curioso isso. Quando falo que nasci em 1964 e não que tenho 60 anos, me sinto muito jovem por fazer parte da minha geração. Estou dizendo a mesma coisa de forma diferente, e essa maneira diferente de dizer a mesma coisa a modifica em simbolismos. E, indo numa linha adequada ao nosso evento, que tem a ver com a psicanálise, esse paradoxo tem um fundamento muito emocional e íntimo.
Quem nasceu em 1964 ou é da minha geração viveu uma infância e uma adolescência muito oprimidas. Quando eu tinha quatro anos, houve o Maio de 1968 na Europa e, em 13 de dezembro desse mesmo ano, o AI-5 no Brasil. Ou seja, o mundo se fechou por aqui numa repressão absurda, a mesma repressão que levou ao assassinato do nosso querido Rubens Paiva, um homem que desperta tanta empatia, um homem de classe média comum e corrente que pagou com a vida tão somente pela sua lucidez.
Se os integrantes da Academia fossem brasileiros na faixa dos 60 anos, “Ainda estou aqui” teria recebido muito mais prêmios que o, em si, já espetacular galardão por ser o melhor filme estrangeiro. Vi o filme chorando do início ao fim. E não deixa de ser um peculiar lugar de fala contar pra vocês que uma pessoa como eu certamente se sentiu impactada de forma muito singular. Eu voltei no tempo e sofri vendo a Coca-Cola servindo inutilmente de bronzeador, o jogo de Totó, os fusquinhas, toda a estética recuperada de forma perfeita e, em especial, a arrogância e a frieza invasiva dos agentes da repressão impunes na sua tocaia infame. Como aquele olhar blasé, completamente robotizado, desumanizado diante do sofrimento alheio, me incomodou!
O filme é um túnel do tempo. Fez eu me lembrar como é sofrida a adolescência no contexto de uma ditadura. Fez eu pensar que Rubens poderia ter sido o meu pai.
Confesso que, vendo ele exercendo a paternidade de forma tão querida e presente, percebi muitas semelhanças com o meu pai, um homem de classe média, com hábitos e práticas muito semelhantes. A minha família era muito parecida com a família Paiva, até no detalhe dos parquês no apartamento e do vinil.
Eu me lembrei do pai pedindo pra eu não falar a palavra “comunismo” na rua, do disco do Geraldo Vandré que ganhei de aniversário e simplesmente sumiu, de mim na adolescência, cursando Jornalismo na UFRGS, cabelos compridos, indo pra rua protestar contra a ditadura e, sim, uma vez levando cacetada de brigadiano nas costas pra soltar a faixa que segurava.
Tudo muito igual. Como foram duros aqueles tempos!
Por isso que costumo brincar: a minha geração foi hippie com delay.
Quando veio a abertura restrita de 1979, com a volta do Betinho (o “Irmão do Henfil”), com o Brizola discursando, com o Partido dos Trabalhadores sendo fundado, aquilo foi um jorro libertário.
Puxamos fumo por várias encarnações de orgulhosos maconheiros que caminhávamos aqui mesmo nos bares do Bom-Fim e queríamos um mundo livre, outra sensibilidade, a loucura do Raulito, a musicalidade do Gil, os poemas do Chico e do Caetano, o Clube da Esquina e, claro, sempre, muito Beatles, até porque “A hard days night”, na verdade, nada tinha a ver com a nossa realidade aqui ao sul do Equador.
E agora vou falar de algo que me engasgou.
No último dia 24, a Argentina marcou os 49 anos da sua ditadura especialmente violenta. E eu ouvi coisas que me fizeram mal.
O perverso, cínico e desumano presidente Javier Milei procurou reescrever a história, pondo em igualdade de condições as críticas a repressores sanguinários e aos idealistas que buscavam um mundo melhor, com menos exploração, com mais justiça e amor. O sujeito passou todo o dia 24 tentando igualar o inigualável. Fez pronunciamentos sublinhando esse disparate.
Por ter voltado ao sofrimento da minha adolescência com o essencial filme de que nos ocupamos aqui, fiquei nauseado ouvindo o Milei. Deu muita raiva.
E aqui entro com o meu lado jornalista que escreve livros procurando pôr os pontos nos seus devidos “is”.
O que esse sujeito fez é inadmissível, é um acinte, uma agressão aos familiares de pessoas como o Rubens Paiva, que sofreram tanto só por quererem um mundo mais justo e livre (livre mesmo, e não essa falsa liberdade asquerosa, injusta e hipócrita que andam falando por aí no aspecto econômico, uma liberdade fake, uma liberdade pra explorar o semelhante e violentar o meio ambiente sem restrições, sem regulações, sem vergonha).
Aproveito, aliás, pra homenagear a minha queridíssima amiga Suzana Lisboa.
Bah, Su, como sei que essas coisas mexem contigo na tua justa saga pra gritar bem alto que o Eurico também está aqui entre nós.
Enfim, aqui está por inteiro um jornalista que ama a sua profissão por vê-la cada vez mais essencial, uma ferramenta pra valorizarmos os fatos como são da forma mais objetiva possível e a verdade mais próxima da real.
E também está aqui um eterno jovem de 60 anos que viveu tudo aquilo e considera um desrespeito inadmissível confundir vítimas com vitimários.
Um mínimo de empatia é suficiente pra vermos como isso provoca sofrimento em gente que, como diz o título do filme, ainda está aqui.
Enfim, essa é a minha contribuição, como profissional e ser humano, neste evento do qual tenho a imensa honra de participar.
Perdão por me expressar pela leitura, mas, neste caso, excepcionalmente, achei que seria a melhor forma de dar o meu recado de forma clara e completa.
Ah, e pra encerrar, vou repetir a frase do procurador argentino Julio César Strassera ao finalizar o seu pronunciamento no julgamento das juntas militares em 1985, já sob o governo democrático de Raúl Alfonsín e repetindo um bordão próprio do alívio e da liberdade: “Nunca mais!”
…
E shabat shalom!
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Foto da Capa: Reprodução