Os coaches babacas contemporâneos, com o perdão do pleonasmo, figuras abjetas que não precisaram trabalhar na vida e ganham dinheiro oferecendo soluções psicológicas ilusórias para quem estiver disposto a pagar por elas, popularizaram o dito calhorda de que se “você trabalhar com o que gosta, nunca precisará trabalhar na vida”. Na prática, sabemos, o fenômeno costuma seguir o caminho inverso: “trabalhe com o que você gosta e, em um intervalo surpreendentemente curto, você já não gosta daquilo”.
Foi o que aconteceu comigo e o futebol.
No ano 2000, quando eu me encontrava ali nos anos finais da casa dos 20, me tornei repórter esportivo em uma equipe gerenciada um pouco à distância pelo David Coimbra. Digo “à distância” porque David, nessa época, já vinha se tornando um nome famoso e popular na crônica esportiva devido a seus textos que misturavam alguma malemolência própria com uma bagagem de leitura da qual ele pegava coisas emprestadas sem pudor. Então, a gerência miúda do cotidiano da editoria recaía sobre seu subeditor, Mauro Toralles, o Boró. O que hoje lembro com diversão, mas que na época era um pouco angustiante, é que Boró era um jornalista com uma experiência inestimável e uma das pessoas mais generosas e respeitadas da redação, mas demonstrava uma abissal confusão nas minudências do microgerenciamento. Imerso em seu mundo particular, vivia confundindo as equipes nas escalas de fim de semana, que eram de sua responsabilidade. Quando você, percebendo a confusão na última hora, o abordava para dizer que não tinha como trabalhar naquele fim de semana porque já havia trabalhado no último e deveria estar de folga neste, a primeira reação do Boró era coçar a barba com um olhar pensativo (não era bem um coçar, estava mais para o gesto repetitivo de agarrar toda a barba do queixo com o punho direito fechado e puxá-la para baixo). Depois, ele virava e perguntava se não havia como tu trocar com alguém. Às vezes sim, outras vezes a gente o lembrava de que, bem, aquela era meio que a função dele. Como sabíamos que Boró não fazia por mal, tudo acabava se resolvendo, mas a aproximação do fim de semana sempre era meio tensa.
Setorista
Comecei como setorista do Inter – em um período tumultuado, como já contei de passagem aqui. Entrei no início de outubro e, menos de um mês depois, Jarbas Lima, nome que havia sido meio que o aval político que levara à presidência do clube o grupo do Fernando Miranda, anunciou sua renúncia – ele já havia se afastado um mês e pouco antes devido a complicações da hipertensão. Caiu para mim a função de acompanhar a coisa toda, setorista com menos de 30 dias à frente do clube, sem fontes consolidadas.
Essa ainda era a época de uma grande fascinação com aquele mundo do esporte que eu desenvolvi ainda na infância – como a maioria dos caras no Brasil, imagino. Hoje eu acrescentaria que o número dos fascinados pelo tema só aumentou, porque da minha infância nos anos 1970 para agora cresceu também o número de meninas que gostam de acompanhar o esporte desde cedo e não são desencorajadas pelos pais por aquilo ser “coisa de guri”, como muito se fazia na minha época.
Parte dessa minha fascinação atingia o ápice em dias de Grenal ou às vésperas do clássico. Eu morava perto do jornal e voltava a pé, e nessa caminhada de véspera passeava pelas ruas da cidade, captando o crescimento em doses iguais de uma certa tensão e de uma eletricidade expectante que pairava no ar. Às vésperas do clássico, as bandeiras dos dois clubes saíam das paredes internas ou dos armários e passavam a tremular nas janelas e nas sacadas. Camisetas de diferentes épocas começavam a circular pelas ruas, formando uma espécie de grande museu a céu aberto do futebol local. As do Inter, na época, ainda patrocinadas pela Aplub, mas cheguei a pegar como setorista o momento em que a gestão Miranda lançou talvez o modelo mais lindo em 20 anos, em um tom mais carregado, quase violáceo, de vermelho, e zerado de qualquer patrocínio pela incapacidade que aquela gestão em particular teve em fechar um contrato de patrocínio nos seus primeiros tempos. As muitas variações tricolores das camisetas gremistas produzidas na época pela Kappa, da azul-celeste imitando o uniforme uruguaio (para mim completamente sem graça, mas, sei por ouvir amigos gremistas, uma das preferidas dos torcedores lá do outro lado) àquela com patrocínio do Astra da Chevrolet e que distribuía o símbolo da Kappa em branco de cima a baixo pelas listras pretas verticais.
Meus últimos tempos como setorista do assunto ainda viram o Banrisul começar a patrocinar os dois clubes – com direito a uma breve polêmica insuflada por colunistas do setor, artificial como quase todas: afinal, como o logo todo azul do Banrisul vai para a camiseta vermelha do Inter? A resposta foi muito simples, numa variação em branco. Aqui, contudo, talvez eu reconheça que o questionamento da época poderia ser válido, já que a Claro, por exemplo, patrocinando o Santos naqueles mesmos anos, não adaptou a própria marca nos mesmos termos e o imaculado uniforme todo branco que já fora de Pelé exibia naquele período um disco vermelho horrendo que descaracterizava a coisa toda.
Eu era jovem, andava numa fase muito triste e era dado a devaneios sonhadores. Então a mudança de campo de atuação para uma das minhas paixões da vida toda pareceu ser uma injeção de ânimo, perspectivas e adrenalina. O futebol, uma das paixões mais presentes na cultura nacional, era uma janela para a mentalidade pública, de certo modo. Eu acreditava nisso e ainda acredito. Mas talvez fosse ingênuo em ser otimista demais quanto às implicações disso.
Rotina
Passei três anos no esporte, eu gostava muito dos colegas de área, mas pulei fora quando fui convidado para fazer outra coisa, porque a atividade profissional de um repórter setorista naquela época era exatamente o contrário de muitas partidas clássicas: meio chata e repetitiva. Basicamente, fosse pela manhã na véspera de jogo, fosse à tarde nos dias de semana comuns, você ia e assistia ao treino. O que funcionou como uma boa escola de estratégia e preparação.
Você também ligava ou abordava dirigentes e jogadores em busca de informações sobre possíveis prospecções de mercado. E, mais frequentemente do que se gostaria de admitir, sendo o esporte uma das poucas áreas naquela época em que havia concorrência de igual para igual em todos os veículos, você corria atrás de alguma coisa lançada por outro repórter em algum programa de rádio em alguma emissora. E quer saber da mais engraçada? Na maioria das vezes, a informação não chegava nem a ser barrigada (quando um repórter é levado, por afobação, mas de boa-fé, a acreditar em uma dica que se revelava vazia ou enganosa). Mas sabíamos de uns dois ou três casos em que uns e outros inventavam as notícias mais bombásticas. Como qualquer fake news contemporânea, essas informações ganhavam tração de modo natural. Depois que um repórter divulgava o “furo”, outros corriam para repetir, e qualquer negativa dos dirigentes ou empresários só turbinava a coisa toda porque “o clube não está revelando detalhes nesta fase de negociação”. Imagino que hoje, com o escrutínio violento e em tempo real do público online e das redes sociais, esse hábito em particular tenha caído no ostracismo.
Os dias de jogo eram emocionantes pela presença da torcida, mas o restante se tornou cansativo muito cedo. Eu poderia ainda tentar argumentar que a fase do Inter em campo era péssima na época, mas saí justamente quando o futebol do time começava a melhorar, na gestão Carvalho. Eu não via muitas perspectivas em um campo em que a atividade diária de repórter era repetitiva e os postos de destaque eram, bem, de colunistas, caras que opinavam sem conhecer a realidade do clube de dentro, em um tipo de texto pouco exigente, seja para o leitor, seja para quem escreve. E, naquela época, já havia uma exceção ao quadro em plena atividade, o professor Ruy, mas o panorama da época encorajava menos influências do Professor e mais imitadores – às vezes literais imitadores – do “iconoclasta de estimação da casa”, Paulo Sant’Anna. O Professor, ele sim um verdadeiro iconoclasta ao se recusar ao fácil papel histriônico do tudólogo que Sant’Anna encarnava com sua megalomania de opereta que ainda parece fascinar tantos…
O campo e a rua
Mas duas coisas aconteceram durante meu tempo como setorista que permaneceram depois que deixei a reportagem esportiva. Eu percebi ali o quanto me interessar por futebol como torcedor meio que me fazia mal. Sempre fui colorado, mas – e isso é um banho de água fria aí na galerinha contemporânea que gosta de ver conspiração em tudo – era muito fácil afastar completamente do horizonte o fato de que você torcia pelo time em campo, mesmo que o jogo fosse um Grenal. Você assumia ali na cabine de imprensa ou na beira do gramado uma postura profissional e analítica que o distanciava das paixões intensas do torcedor que ebuliam quando você não estava trabalhando. É um relato pessoal meu, mas me lembro de conversar isso com vários colegas da época, mesmo de outros veículos – muitos deles ainda em atividade, então não vou “tirar ninguém do armário” em suas preferências clubísticas – e todos partilharam impressões similares. Ser torcedor era mais difícil do que ser repórter cobrindo o jogo do seu time. Você silenciava a paixão e passava a olhar tudo com um véu de distanciamento, porque você não estava ali para ver, estava para relatar (função precípua do repórter, demarcada mesmo na palavra que define a profissão). Depois que deixei o setor, ver jogo foi ficando mais difícil – mesmo que depois daquilo o Inter tenha vivido seus voos mais altos. E não, naquela época não tínhamos a atual aberração provocada pelas redes sociais do “repórter-torcedor” – mesmo Sant’Anna, a única exceção, era colunista sem experiência prática do jornalismo no clube e falava o que lhe dava na cabeça. Não era um jornalista cavando o noticiário cotidiano. Ver hoje alguns caras que trabalharam comigo naquela mesma época dando chiliques teatralizados em transmissões de jogos me faz compreender por completo o que a gurizada mais nova chama de “cringe”.
A segunda coisa foi se revelando com o tempo: apesar do meu envolvimento profissional e pessoal com a matéria, demorei a perceber que o futebol provoca uma dinâmica dos afetos que poderia ser chamada de tóxica tanto no sentido que se usa hoje, mais metafórico, quanto no sentido químico mesmo, o de que se você ficar muito exposto, talvez passe mal ou seja envenenado. A paixão que move o futebol é a dos afetos – no próprio sentido mais direto da palavra, o daquilo que nos “afeta” a personalidade, a psique e o humor.
Não à toa, aqueles anos próximos aos que eu iniciei na reportagem esportiva foram os que viram a escala da rivalidade general, muito elogiada como uma das mais acirradas do Brasil, a patamares criminosos de agressividade. Brigas com resultados fatais, bombas caseiras jogadas contra ônibus, banheiros químicos e depredações em estádios, muita violência na rua.
Em um fenômeno paralelo, o que parece um tanto absurdo, olhado de longe, hoje em dia, é que, naquela época, era muito comum o discurso de que “se o povo se preocupasse com a política como se preocupa com o futebol, este seria um país melhor”. O que irônico é que essa mesma dinâmica irracional e passional do futebol foi transplantada de modo integral para a política com a ascensão da extrema-direita e de seus métodos truculentos. O que se chama hoje meio vagamente de “polarização” não passa de um interesse político que se expressa nos mesmos termos da rivalidade esportiva: adesão passional inconteste, negação absoluta do outro com perspectiva, se possível, de humilhação completa como substituto para aniquilação física. E, às vezes, choques violentos em que essa aniquilação passa a ser o objetivo.
Alguns dirão que ainda há na política e no futebol pessoas que tentam cultivar o bom-senso e a rivalidade saudável, e, embora ache que a política precise disso desesperadamente, sei que no futebol isso é discurso vazio. Os piores gremistas que conheço (e que, às vezes, são algumas das melhores pessoas que conheço) são os hipócritas que se fazem de sensatos, grenalizam sub-repticiamente qualquer papo sobre futebol e depois dizem que você é que grenaliza a questão, apontando o problema. Na rivalidade esportiva, não tem espaço pra isentão. Prefiro muito mais o mais escroto dos gremistas agitando bandeira e dizendo “chora mais” do que alguns metidos a teóricos da razão que tentam revestir suas cornetas de sofisticação sensata. Não dá para baixar a guarda com gremista; é tudo um bando de arrombado – mesmo aqueles que você sabe que são pessoas acima de qualquer crítica em qualquer outro campo da vida. Aliás, se alguém disser que é uma visão unilateral, está certíssimo. É a minha visão como torcedor do Inter. Se algum gremista disser o mesmo de qualquer colorado, eu é que não vou tentar mudar a cabeça de ninguém apelando para uma suposta injustiça da “generalização” – eu juro que pensei em criar aqui um trocadilho com Grenal e Generalização, mas o resultado foi grotesco, então deixo para lá.
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No final de semana passado, assisti ao Grenal pela primeira vez em muitos anos – por insistência de um dos meus irmãos, que estava de visita e queria ver a partida, e ainda é jovem e é uma pessoa mais otimista e menos sombria do que eu, então, sim, Roberto, vamos lá ver o jogo, foi minha resposta. Mas em casa. Sequer cogitei ir ao estádio. Também não estava no clima ou na onda de me misturar às pessoas nas calçadas e nos bares. Algo que antes me parecia, naquelas caminhadas dos meus 20 anos, uma espécie de celebração laica, linda e colorida, hoje, nos meus 50 anos cansados, me parece um encontro de mundos prontos a colidir de modo violento e não harmônico.
O jogo, bem, todo mundo viu o jogo, ou não, porque às vezes me parece que, assim como ocorre na política hoje em dia, em que cada campo político vê duas realidades diversas a partir do mesmo fato, no futebol cada torcida sempre viu um jogo diferente da outra. Para mim, o Inter não venceria e não reverteria a vantagem obtida pelo Grêmio no primeiro jogo, nem mesmo se o juiz e o VAR tivessem se mostrado neutros – algo que não aconteceu. Logo, sim, o Inter jogou mal, perderia de qualquer maneira, mas não deixou de ser roubado. Se você está devendo a conta de luz e tem apenas uma nota de dez, você não iria conseguir pagar a conta de qualquer modo, e nem por isso vai deixar de ser um assalto se alguém tirar essa nota de você na mão grande.
Mas, claro, esse é o jogo que eu vi – e que é irreconciliável com o que foi visto por outra pessoa.
Talvez a ideia do futebol como metáfora do mundo, que permeia vários ensaios que já se debruçaram sobre o gênero – nunca tenha sido tão acurada.
Todos os textos de Carlos André Moreira estão AQUI.
Foto na Capa: Lucas Uebel / Grêmio Oficial

