Definitivamente, “não somos ilhas”. Somos, sim, o resultado de um coletivo de muitas misturas – das nossas origens, do que sentimos e vivemos, passando pelo nascimento, infância, adolescência, juventude, maturidade. Os relacionamentos, os enfrentamentos, as alegrias, as dores, o sucesso, ou não, de uma trajetória pessoal, social e profissional. Trajetória cheia de passagens, decisões, desistências, renúncias, pontos de interrogação, perguntas, respostas e silêncios. Portanto, somos seres complexos que vivem em uma sociedade complexa. Não podemos ser reduzidos a um único pensamento. A consciência da nossa humanidade e da cultura que nos dá raízes é necessária para que a nossa caminhada não seja só pessoal, mas coletiva e solidária. Para o filósofo francês Edgar Morin, um dos mais respeitados pensadores do nosso tempo, devemos fazer a nós mesmos três perguntas: “Quem somos nós? Para onde vamos? De onde viemos?”
O princípio da incerteza e a busca de respostas podem romper com o determinismo e criar um universo de possibilidades nesta nossa caminhada. O conhecimento produz dúvidas e inquietações necessárias para romper as barreiras que nos cercam. Há um limite entre a dor e o prazer, o saber e o não saber. Só uma mente arrogante acha que sabe tudo. É impossível o domínio total. A democracia, por exemplo, possibilita e encoraja o conflito de ideias, mas exige respeito pelo outro. Os momentos prosaicos e os momentos poéticos da vida precisam de equilíbrio. O prosaico é o prático, o necessário, que pode se tornar repetitivo. O poético traz o amor e a liberdade, que não podemos perder.
A poesia e a criação libertam. São maneiras de não nos adequarmos à vida como ela é.
A criatividade é um desafio diário. É provocar pequenas suspensões e alterar a ordem, se necessário, abrindo espaços e possibilitando o sonhar e o imaginar outros mundos. O ato criativo coloca em cena uma utopia e possibilita a caminhada no contrafluxo. Ato corajoso, generoso e lúcido, o andar contra a corrente pode apontar outras esquinas, outras encruzilhadas, caminhos inusitados e libertadores. E pode nos tirar da burocracia, de formas de controle desse nosso tempo tão gasto pelo cartão-ponto. Esta maquinaria toda, que impõe o consumo de uma infinidade de coisas desnecessárias, com as quais não sabemos o que fazer, acaba nos escravizando.
Só um olhar libertador para a nossa cultura, para a arte que nos representa de tantas maneiras, pode nos tirar desta prisão, às vezes invisível, que sufoca e enquadra. “Há tanta esquina esquisita / Tanta nuança de paredes”, escreveu o poeta Mario Quintana. Então, vamos sair das nossas ilhas, dobrar esquinas, desvendar caminhos, coletividades e abraçar o diverso que nos constitui.
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