Arte e ciência estão de acordo lá onde embasam que o começo de existência é fundamental para a nossa vida psíquica. Ou seja, para quem fomos, somos e seremos. Se, mais adiante, as lacunas iniciais podem ser resgatadas, há de ser feito novamente por um outro, e a reencenação de… de… de que?
De começos, justamente. Por isso, convém estudá-los, conhecê-los e, sobretudo, cuidá-los. Vem muito, senão completamente, do cuidado dos começos a qualidade de uma continuidade suficiente e mesmo, talvez, de um final digno.
É interessante que grandes estudiosos dos começos, no campo da psicologia, foram deixados na mão pela teoria que conheciam profundamente e os acompanhava desde sempre. Daniel Stern, por exemplo, ao descrever o que se passa entre a mãe e o bebê, abandona a psicologia do desenvolvimento e utiliza a imagem de uma dança para erigir seus conceitos de “estar com” ou harmonização afetiva, decisivos para o fomento de uma boa base emocional. O que se passa ali não pode ser abarcado por uma noção, mas sim por um ritmo. Dançante, como Stern compreendeu profundamente.
Já Bernard Golse precisou deixar a psicanálise um tanto de lado para se valer das imagens musicais. Utilizou a do maestro e da orquestra para dar conta do que se passa entre o bebê e a mãe, valendo-se das mãos de um diante do olhar do outro, e vice-versa. Ele percebeu que ali só a arte daria conta de uma descrição sensível e verdadeira do processo.
Eu jamais me equipararia a esses dois grandes mestres, mas precisei fazer algo parecido, valendo-me de minha experiência de poeta. Porque sou um poeta que teve a sorte de observar mães e bebês e perceber que a poesia também pode ali dar conta do que a metapsicologia não consegue. E considero a poesia ainda mais afeita aos começos do que a dança ou a música.
Porque a poesia vive do ritmo, assim como as trocas entre o bebê e a mãe. Ritmo e trocas são eventos intersubjetivos que fazem a subjetividade de quem se é. É poesia.
A poesia também vive dos sons bem mais do que do sentido das palavras, assim como o banho de prosódia é o que mais alimenta as interações precoces e fundantes. Mais do que o sentido, a melodia.
Somos frutos de banhos de prosódia, tal qual o fazem poemas – escritos – e mães, essas verdadeiras poetas na carne da vida, sem precisar de papel ou página.
E tem mais: fazer poesia é lançar um novo olhar para o mundo, tal qual as mães propõem para os seus rebentos e sabemos (Lacan, Winnicott) o quanto somos também frutos desse olhar. Se triste, tristes. Se maravilhado, maravilhados.
Aí é que está! O objetivo final (e inicial) de um poema é oferecer um punhado de beleza para um mundo tantas vezes feio em sua realidade, e sabemos a importância que isso tem no começo de nossas vidas. Preciso agora dar um exemplo e claro que não chamarei os cientistas Stern, Golse ou qualquer outro. A palavra ao poeta:
“No interior de cada criança existirá um ser que não foi ainda cooptado pela sociedade de consumo. É esse pequeno ser que, de repente, num passeio com o pai, se interessa por uma formiga que no chão transporta uma folha maior do que ela. Essa imagem há de ficar no espírito da criancinha. A formiguinha vista um dia fará parte de sua mitologia pessoal e poderá ser o poema daquela pessoa, que nunca escreverá versos.”[1]
O poeta aqui merece o Prêmio Nobel da Ciência e, tivesse poder para isso, eu o indicaria. Ele compreendeu que mãe e filho poderão nunca se tornar poetas, mas, sem a poesia, nenhum dos dois jamais poderia ser quem é.
[1] Armindo Trevisan, Entre as colinas do ontem e as montanhas invisíveis do amanhã, Casa Verde, 2025.
Todos os textos de Celso Gutfreind estão AQUI.
Foto da Capa: Gerada por IA.

