A educação pela pedra. A pedra de toque. Ciranda de pedra. A pedra do reino. A jangada de pedra. Pedra no céu. Não são poucos os livros que trazem, no título, a palavra pedra. Nem os poemas. Eu poderia, com facilidade, listar umas dezenas. “De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho a pedra, vejo pedra mesmo”, escreveu Adélia Prado. Eu sou louca de pedra pela Adélia. O Bagagem está entre os meus livros favoritos. Tão perfeito que nem parece que é uma obra de estreia. E tão perfeito que entrou no mercado recomendado pelo Carlos Drummond de Andrade.
Soa um pouco estranho eu dizer recomendado. Mas foi isso o que aconteceu. Não é de hoje que os homens dizem o que é e o que não é bom, certo, aceitável etc. e também quem somos nós, as mulheres, e o quanto valem ou não valem os nossos trabalhos, as nossas ideias e os nossos corpos. Na década de setenta, época do lançamento do Bagagem, nem se fala. Protegidos pela ditadura militar, gente não como a gente, com as mãos cheias de pedras para atirar sobre as nossas cabeças, não faltava. Faltavam mais Drummonds. Seguem faltando poetas e homens. Pedras seguem sobrando.
“Joga a pedra na Geni, joga bosta na Geni, ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir, ela dá pra qualquer um, maldita Geni”, me veio agora à mente. Eu cantava essa música quando menina. Meus pais tinham o disco Ópera do Malandro. Na verdade, a mãe. Os discos do Chico Buarque sempre pertenceram a ela, com sua sensibilidade sempre pronta para decifrar o que sussurrava o Brasil e com a sua boca sempre pronta para recitar Drummond. Escuta, minha filha: “no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho”. Com que intenção, se é que havia uma, ele me dizia. Completamente ciente, hoje, respondo: de me advertir que no meio do caminho há, sempre houve, uma sociedade patriarcal.
513 parlamentares compõem a nossa Câmara dos Deputados: 422 cadeiras ocupadas por homens, 91 por mulheres.
Em 37 são os ministros que compõem o governo Lula: 26 homens e 11 mulheres.
Em 124 edições do Prêmio Nobel de Literatura, 18 mulheres o receberam.
Em 80 anos do Globo de Ouro, 3 mulheres levaram o prêmio de Melhor Direção.
1470 mulheres foram assassinadas no Brasil em 2025.
1470 é o número de casos de feminicídio no Brasil em 2025. 4 mulheres assassinadas por dia.
Quantos homens foram mortos por mulheres em 2025 ou em qualquer outro ano? Não encontrei informações e estatísticas. E isso diz muito sobre mulheres, homens e pedras.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

