Com o barulho que vem sendo feito na atual temporada de premiações cinematográficas em torno de produções como Uma batalha após a outra, de Paul Thomas Anderson; de O agente secreto com seu número inédito de indicações ao Oscar para um filme brasileiro; do recordista de indicações Pecadores ou dos dramas de impacto Hamnet e Valor Sentimental, um dos melhores filmes da temporada não parece estar ganhando a atenção e o afeto que deveria – e duvido que isso mude nas próximas semanas.
Sonhos de Trem, dirigido por Clint Bentley e estrelado por Joel Edgerton e Felicity Jones, é um filme visualmente acachapante (mérito do brasileiro Adolpho Veloso, indicado ao Oscar, ao Bafta e vencedor do Critics Choice Awards) sobre a vida comum de um lenhador no começo do século XX. Eu havia visto o trailer de passagem na grade da Netflix, mas deixei passar como se deixa passar uma pá de filmes naquele carrossel infernal. Uns dias depois, quando Sonhos de Trem já havia recebido algumas indicações para premiações importantes, meu irmão me recomendou o filme entusiasticamente. Perguntei se ele havia gostado, ele me respondeu que não, mas tinha certeza de que eu gostaria porque “não acontece nada” o filme inteiro.
Meu irmão ainda se considera logrado por mim porque, há uns bons anos, quando estreou nos cinemas Zama, filme no qual Lucrecia Martel adapta um dos meus romances preferidos, o livro de mesmo nome do escritor argentino Antônio di Benedetto (sobre quem já escrevi neste ensaio aqui), escrevi uma resenha crítica muito positiva na Zero Hora e ele foi convencido por esse texto específico a ver o filme – e detestou, outra vez porque basicamente “não acontece nada”.
Meu irmão me recomendou Sonhos de Trem pelo mesmíssimo motivo – e, mostrando que ele estava mais ou menos certo, eu vi o filme e fiquei encantado por ele. Não cheguei a dar muita atenção à discrepância de opiniões entre nós porque, apesar de ser um jovem brilhante, ele também sabe, quando quer, ser um filisteu como a maioria dos jovens. Só que aconteceu uma coisa engraçada logo depois disso. Um famoso colunista de grande reputação no Rio Grande do Sul escreveu também sobre o filme e, embora tenha declarado apreço pela obra, disse algo muito parecido, expressando a ideia de que nada parece acontecer durante boa parte da produção.
Eu entendo que filmes como Zama ou Sonhos de Trem sejam chamados de “lentos”, “contemplativos”, “parados”, “sutis”, “sem pressa”, adjetivos que já encapsulam por si só uma espécie de julgamento sobre o filme, positivo ou negativo. Mas dizer que “nada acontece” em um filme como Sonhos de Trem me parece profundamente equivocado – e aí fiquei pensando, o que realmente precisa acontecer em um filme para que as pessoas que acham que não acontece nada comecem a achar que aconteceu alguma coisa.
Sonhos de Trem
Sonhos de Trem, por exemplo, dando alguns spoilers de um filme que vocês aí ainda não se motivaram a ver, é a história de Robert Grainer. Ele chega ao estado americano de Idaho como uma criança errante e órfã, abandona a escola e passa a trabalhar na extração de madeira. Vive sem distrações ou propósito até que, certo dia, é abordado na saída da Igreja pela jovem Gladys – ambos se apaixonam, iniciam um relacionamento, se casam, constroem uma cabana à margem de um rio, têm uma filha, Kate. O trabalho de Robert nas empreitadas de extração de lenha e construção civil o leva a viajar para pontos cada vez mais distantes por tempos cada vez mais longos, enquanto Gladys cria a filha e cuida da casa. No seu local de trabalho, Robert, silencioso e reservado, ainda assim tem um bom relacionamento com os colegas de trabalho e conhece figuras que o marcam, como o velho Arn (vivido por William H. Macy), o especialista em explosivos e uma espécie de encarnação da memória proletária coletiva – à noite, ao pé do fogo, Robert, sozinho ou com os demais, ouve Arn contar suas histórias e fazer algumas observações interessantes, como o tipo de mácula que se forma na alma de um homem quando sua vida e sua profissão são dedicadas a matar árvores milenares – algumas que estavam ali até antes dos homens.
Essa fratura espiritual simbólica entre homem e natureza só chega a uma resolução na morte. Trabalhadores que morrem em acidentes de trabalho são enterrados no próprio local, ao pé de uma árvore, e suas botas são pregadas no tronco e deixadas ali como uma improvisada lápide sem nome. Na primeira cena do filme, aliás, vemos um par dessas botas, pregadas há muito tempo, já parcialmente engolidas pelo tronco da árvore em sua expansão.
O trabalho é perigoso. Robert vê uma série de colegas serem mortos em acidentes. Um dia, cai um galho sobre o velho Arn e o mata. Em outro momento, um pistoleiro chega ao acampamento e mata a tiros um dos homens que trabalhava com Robert, por vingança por um assassinato do passado. Na construção da grande Ferrovia Internacional Spokane, o protagonista vê um bando de trabalhadores brancos jogar da ponte um lenhador chinês com quem Robert estava trabalhando momentos antes, serrando o mesmo tronco. Sem saber os motivos do que está acontecendo, Robert chega a tentar segurar o chinês pelas pernas a pedido dos agressores, mas é chutado e se afasta. A visão desse chinês morto por razões indefinidas em um linchamento do qual ele, por reflexo impensado, quase participou, vai assombrar os sonhos de Robert durante o resto de sua vida adulta.
Incomodado com os períodos cada vez maiores longe da família, Robert decide pegar um último serviço e usar o dinheiro para que ele e a esposa possam montar uma fazenda e erguer uma serraria. Quando está voltando desse último trabalho, percebe já no trem, à distância, que um grande incêndio está consumindo a região em que vive. O fogo atinge sua cabana e ele perde Gladys e Kate. Devastado, passa anos dormindo no terreno onde antes ficava sua cabana destruída – os corpos de ambas nunca foram encontrados, então ele se apega à ilusão de que elas de algum modo conseguiram refúgio em algum lugar seguro e devem voltar. Ele é impulsionado a reagir e retomar sua vida por seu amigo do armazém (talvez o dono, mas a narrativa não deixa isso muito claro), o indígena Ignatius Jack (Nathaniel Arcand). Juntos, reconstroem a cabana, Robert pega alguns serviços menores na cidade e finalmente tenta voltar ao trabalho de lenhador – mas anos se passaram, e Robert não encontra um lugar confortável na nova configuração do antigo ofício, no qual agora se usam motosserras e os mais jovens têm um desdém agressivo e indiferente por toda a vida vegetal que destroem em sua passagem.
Recorte de vida
Bom, o que eu resumi nos parágrafos anteriores comprime talvez dois terços do filme, um pouco menos. O que me retorna à pergunta lá do início: tendo acontecido tanta coisa, o que mais precisaria acontecer para que “parecesse” que algo aconteceu?
Na crítica artística, principalmente aquela dedicada a formas narrativas de arte, como o romance, o teatro, a literatura e o cinema, é comum o uso do termo inglês Slice of Life (“fatia de vida” ou “recorte de vida”, como preferem alguns) para definir a típica obra em que “nada acontece” – a definição do conceito no Dicionário Cambridge de língua inglesa sustenta que “um filme, uma obra literária ou uma peça de teatro pode ser definido como slice of life se descrever ou mostrar os detalhes comuns da vida real”. São obras nas quais se privilegia a descrição e a apresentação de eventos sucessivos sem um fio condutor narrativo, muitas vezes arbitrários, na vida de um personagem, frequentemente sem desenvolvimento de enredo ou conflito, e muitas vezes com um final aberto.
Segundo o guia American Literature from the 1850s to 1945, editado por Andrew Augustym para a Britannica, a mesma editora da famosa enciclopédia, a técnica do slice of life se tornou recorrente na literatura naturalista: “Na literatura, [o naturalismo] ampliou a tradição do realismo, visando uma representação ainda mais fiel e imparcial da realidade, um verdadeiro ‘recorte da vida’, apresentado sem julgamento moral” (página 71).
Embora seja mais usada em inglês, a origem da expressão, até onde se sabe, é o termo francês tranche de vie, cunhado pelo dramaturgo Jean Julien (1854-1919) em seu livro de 1892 Le Théâtre Vivant – sendo tranche um vocábulo que significa “fatia” ou “recorte”, mas também pode ser usado para “naco”, “pedaço” e até “parcela”, no sentido do carnê e do crediário mesmo. Julien, que escrevia peças para o diretor André Antoine (1858-1943), fundador do Théâtre Libre, também é apontado como o criador do conceito da plateia como uma “quarta parede” do cenário montado no proscênio, um termo que costuma ser mais associado a Brecht justamente porque o dramaturgo alemão fazia questão de quebrar essa “parede” conceitual em seus textos e encenações. Mas, doutor, divago.
A fatia e o todo
Já li aqui e ali slice of life ser usada para descrever o filme Sonhos de Trem, mas não penso que se aplica perfeitamente. O filme (que é baseado num livro de mesmo nome, de Denis Johnson, sobre o qual não estou falando neste texto porque não li) enfileira cenas que poderiam ser elas próprias definidas como um certo tipo de “slice of life”, mas seu conjunto, ou seja, a totalidade do filme, transcende essa definição. Para começar, a história abarca 80 anos da vida de seu personagem – mostra-o em diversas fases da vida, as cenas se interconectam com propósito e há sim uma linha condutora, ainda que demarcada pela conexão explícita, mas sutil, entre episódios na vida de Robert Grainer – os eventos não são aleatórios, tudo é selecionado de modo preciso para que a narrativa progrida – o que talvez falte e, curiosamente, esteja sendo apontado como “falta de acontecimentos” seja qualquer conclusão ou resolução bombástica. Não dá nem para dizer que não tem tiro no filme, porque tem – só não tem mesmo explosão e luta de poderzinho, que dominaram o cinema americano na última década.
Em um certo sentido, é possível ver uma certa conexão entre Sonhos de Trem e outro drama de época que vem concentrando atenções nesta temporada, Hamnet, de Chloe Zhao, com Paul Mescal e Jessie Buckley vivendo respectivamente William Shakespeare e sua mulher, Agnes, no filme (cujo nome era Anne Hathaway, sim, o mesmo da atriz contemporânea). Também uma história de época, também adaptada de um romance, também uma narrativa sobre perda e luto e os modos como o protagonista se vê impelido a lidar com eles. Ambos, também, focados na parte ou no todo no luto de um personagem masculino, a forma silenciosa e confusa e cheia de arestas como um pai tem que lidar com a perda. Ambos, aliás, podem ser acusados de filmes em que “nada acontece” no sentido de uma narrativa frenética.
O insight original desse paralelo não é meu, foi partilhado comigo pelo meu amigo Marcelo Gonzatto, o melhor repórter de minha geração (aliás, um dos únicos que sobraram da nossa geração ainda fazendo algo que preste em redações do RS). O que eu agrego à comparação é que, embora sim, haja uma possível aproximação a ser feita, as duas obras partem de uma perspectiva bastante diversa.
Hamnet narra como o casal Shakespeare se conhece, casa, tem três crianças e, mais tarde, vem a ser abalado pela morte do único filho homem, Hamnet, levado pela peste com uns 10 anos de idade (esse é um dos poucos pontos realmente confirmados da biografia de Shakespeare presentes no filme). É uma obra animada por uma perspectiva otimista – o que talvez explique o desconforto que vi algumas pessoas compartilharem com a cena final, na qual um gesto coletivo e de alta carga emocional leva a personagem de Jessie Buckley, Agnes, mãe do menino falecido, a finalmente entender em sua plenitude o poder daquilo que seu marido distante faz. Para muitos, esse foi um momento de choro e catarse, enquanto outros já o apontaram como uma cena no limite da apelação manipulativa.
Agnes é mostrada no filme como uma espécie de feiticeira que se comunica com o saber ancestral da natureza e os segredos das plantas e das ervas. Nessa cena final, ao ser levada pelo irmão para ver no palco a peça Hamlet, escrita alguns anos depois, que Shakespeare batizou com o nome do filho morto, ela finalmente reconhece no trabalho literário de seu marido uma espécie diferente, mas também efetiva, de magia – é aí que reside a perspectiva otimista de que falei. Essa “magia” shakespeariana, a arte, não apenas “liberta” simbolicamente o espírito de Hamnet, o filho morto, como também dá um novo e dolorido sentido à perda, em uma obra que, sabemos nós, os espectadores, atravessará os séculos.
Sonhos de Trem me parece se inclinar para a conclusão radicalmente oposta – não necessariamente pessimista, talvez quase niilista, mas na verdade com uma certa perspectiva Nietzscheana do niilismo – que, no fim das contas, é mais anti-niilista do que qualquer outra coisa. Robert vive uma vida que, desde o início, é dura. Sem família, sem riquezas, dependendo apenas da força do próprio trabalho, vai aos poucos construindo uma vida que, apesar de seu caráter modesto, o satisfaz. O trabalho o afasta da família por longos períodos, e quando ele tenta reverter essa situação, um “golpe do destino”, digamos, o faz perder tudo. Seu luto não inspira grande arte, mas uma apatia paralisante que leva anos para ser vencida. Sua recuperação não é bem uma recuperação, antes uma longa e demorada aceitação – vive mais uns quantos anos, e certo dia morre, depois de ter visto o mundo de cima em um voo de avião. Sua passagem pela Terra não perdurará pelas eras, como a peça de Shakespeare – pelo contrário, o próprio filme mostra em um “flashforward” que o projeto mais ambicioso do qual Robert participou, a construção da ponte para passagem da ferrovia de Spokane, menos de 50 anos depois se tornaria obsoleto pela construção de outra ponte próxima, de concreto e aço, e não de madeira, como a que ele ajudou a erguer.
Talvez seja aí que resida a comparação de Sonhos de Trem com um “recorte de vida” – o fato de que é o retrato de uma vida não muito diversa da que levaram até hoje 90% das pessoas que passaram pelo planeta: nascer, viver, pagar a existência com o suor do próprio trabalho, criar uma família, perdê-la, seguir sobrevivendo ao luto, desaparecer deixando poucos registros, ser esquecido. E aqui se justifica também a monumental fotografia. Uma vida comum, com as mesmas tragédias de todo mundo, narrada com uma beleza lírica e suntuosa – a reafirmação da beleza essencial escondida no banal, em que nada é heroico ou, ao contrário de Hamnet, extraordinário (já que este se sustenta no talento literário do autor de Hamlet), mas ainda assim, belo.
Talvez minha impressão de que o termo “fatia de vida” não se aplica perfeitamente é que, ao pensar em um recorte, penso mais em quadros e tableaux de abrangência mais restrita, como o próprio termo “slice” dá a entender. Um recorte, não o todo, ou não o mosaico de um todo formado por tantos recortes, como vejo Sonhos de Trem.
Nesse sentido, o filme não é necessariamente uma “fatia”, mas um verdadeiro “bolo em camadas” de uma vida.
E, longe de ser um filme “em que nada acontece”, me parece exatamente o contrário, Sonhos de Trem é o tipo de narrativa no qual o que de fato acontece é a própria vida.
Todos os textos de Carlos André Moreira estão AQUI.
Foto da Capa: Divulgação

