
Podemos entender a noção de território para além da ideia de espaço geograficamente determinado. Por conseguinte, ele também pode ser pensado enquanto o espaço, o ambiente, no qual se dá algum tipo próprio de vivência.
Quando ficamos presos à concepção de território apenas como uma localização terrena, podemos deixar de estar mais atentos aos outros tipos de relações que os sujeitos estabelecem em sua vida social, a outros modos de ligação que os fazem pertencer a espaços que não estão delimitados por uma fronteira material. Neste sentido, um morador de qualquer parte do Brasil, e do planeta, tem a possibilidade de estar vivenciando modos de estar no mundo que não correspondem às injunções provocadas pela realidade material que o circunda.
O advento (e vertiginoso desenvolvimento) da tecnologia digital ampliou significativamente as possibilidades de que o território não seja apenas o lugar no qual o indivíduo posiciona seu corpo. Temos, então, que ter em conta que a constituição dos sujeitos se dá no conjunto dos modos e lugares de suas respectivas experiências e que não se dão exclusivamente em ambientes terreamente demarcados. Portanto, somando-se às instituições tradicionais ou milenares, como a religião e a educação, parte do território que se habita atualmente não tem fronteira física: redes sociais, plataformas digitais de comunicação e de entretenimento são também lugares de grande poder formador de saberes, identidade e pertencimento.
A gama de ambientes tecnológicos são espaços historicamente recentes; ainda não se tem clareza de seus impactos nos processos de educação, de formação política, de constituição ética das pessoas e mesmo no que seja o ético entre as pessoas. Ainda somos surpreendidos por como esses espaços virtuais afetam práticas antes exclusivas, por exemplo, de templos e de salas de aula. Isto é, nos surpreende seu recente poder em fidelizar credos e legitimar compreensões.
Na contemporaneidade, a formação política, o engendramento da visão de mundo da pessoa, passa, necessariamente, por experiências nos lugares imateriais. Por conseguinte, os tradicionais vetores de engajamento e legitimação política também se reconfiguram: aumento de renda, melhoria da realidade econômica, ampliação das políticas sociais, agora, concorrem com robustas práticas imateriais na formação das consciências dos habitantes de um país ou estado.
Assim, o resultado das eleições de domingo passado, em que resultou como mais votado um projeto político que já vem deixando um histórico de retrocessos, manifesta a necessidade de reposicionar táticas e estratégias para a proposição e defesa de diretrizes progressistas no âmbito de novos territórios de exercícios incorpóreos.