
Escrevo este texto na sexta-feira passada e, portanto, sem saber o resultado das eleições. Se meu voto não se concretizar, Flavio Bolsonaro é o presidente do Brasil. Caso contrário, é Lula. Em qualquer dos casos, o resumo dessa disputa só encontro no título de uma obra de Ece Temelkuan, Como perder um país (Temas e Debates, 2019). Nele, a autora descreve sete passos pelos quais líderes populistas de direita e extrema direita corroem a democracia. Gosto do capítulo terceiro, “eliminar a vergonha”, em que Temelkuan afirma que, nestes tempos neoliberais, a imoralidade “está na moda”: o que antes desencadeava indignação pública passa a ser exibido, relativizado ou premiado. Ganhando ou perdendo, se tamanha parcela da população decide votar em Flávio Bolsonaro, é porque ela aderiu a esta máxima, o que é triste para a democracia e para a sociedade.
Penso que isso é efeito, nos termos de Dany-Robert Dufour, do fato de que o neoliberalismo produziu uma desregulação simbólica que transformou a perversão, a negação do limite e a negação do outro em modo de laço social. Não é essa a melhor definição do funcionamento do Bolsonarismo? Que foi essa campanha presidencial que colocou candidatos tão moralmente diversos como Lula e Flávio Bolsonaro no mesmo nível? Às vésperas da eleição, já podiam-se ver sintomas dessa “desvergonha organizada” de Flávio Bolsonaro, que nada abalaram seu eleitor, chegando até a garotas de programa e relógios Rolex. Se mesmo assim, a sua indicação e seu desempenho eleitoral na eleição chegaram ao patamar que chegaram, isso só pode ser considerado um fenômeno estrutural, e teimo dizer que, mesmo com todos os problemas do governo Lula, de sua preferência de evitar conflitos, e como diz Luis Felipe Miguel, “de sua aposta em soluções mágicas que seriam capazes de beneficiar os pobres sem atingir os interesses dos ricos”, sugerir que o projeto defendido por Flávio Bolsonaro é seu antídoto é não entender nada, absolutamente nada, do que está em jogo.
“Isso não pode acontecer aqui”
O livro de Temelkuran nasce de uma frase que ela ouviu em vários países: “isso não pode acontecer aqui”, a mesma frase que vem à minha mente quando penso na possibilidade de eleição de Flávio Bolsonaro. A autora, jornalista turca, viu o AKP, o Adalet ve Kalkınma Partisi, ou Partido da Justiça e Desenvolvimento, o partido político governante da Turquia liderado por Recep Tayyip Erdoğan, transformar uma democracia imperfeita em regime personalista. Ela escreve para quem ainda acredita na imunidade da democracia, e seu método é o do padrão: cada país tem suas condições, mas o roteiro da extrema direita para a derrubada da democracia se repete. Ela o enumera: de um “movimento” dirigido ao “povo real” que promete dignidade, passa-se à infantilização da linguagem política; desta, passa-se à desativação da vergonha e, após, ao esvaziamento dos tribunais e Legislativo. Isso cria condições para a criação do “cidadão próprio”, a substituição da ação pelo riso e, por fim, as condições para muitos concluírem que “este não é o meu país”.
Não é exatamente assim que se desenvolveu a trajetória de Flávio Bolsonaro? Do escândalo das “rachadinhas” à sua candidatura, seu movimento dirigido ao “cidadão de bem”, o equivalente ao “povo real” de que fala Temelkuran, e depois à infantilização do debate político por meio de memes e narrativas pueris nas redes sociais, não é também o caminho das extremas direitas que ele está seguindo? O ponto de virada deu-se na desativação da vergonha, quando evidências financeiras flagrantes e a prisão de Fabrício Queiroz foram cinicamente tratadas como perseguição, momento em que uma ofensiva da extrema direita abriu caminho para a crise dos tribunais por meio de manobras que desfiguraram investigações. Esse cenário moldou o “cidadão próprio”, a militância imersa na pós-verdade que passou a normalizar desmandos éticos, enquanto o restante da sociedade, anestesiada, substituiu a indignação e a ação concreta pelo riso de deboche diante de tanto absurdo.
Eu não tenho dúvidas: se Flávio Bolsonaro for eleito, significa que estou testemunhando a possibilidade da sua completa impunidade e temo pelo destino do país, o uso do aparato público para fins privados. Se Lula for eleito, o trabalho não será menor, já que as eleições prometem um Congresso ainda mais conservador do que o que temos hoje. Se caminharmos para um segundo turno, ainda teremos uma chance de que o pior não aconteça com nossa democracia, mas, se chegamos até aqui assim, de qualquer forma, minha conclusão é, na linha de Temelkuran, de que “este não é mais o meu país”. O sintoma é que, eu e D., minha esposa, seriamente discutimos opções para sair do Brasil se Flávio Bolsonaro for eleito. Somos aposentados e cidadãos críticos desse possível governo que promete ser autoritário e fascista. Não consigo imaginar a cena de Flavio Bolsonaro libertando o pai, Jair Bolsonaro, condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos pela tentativa de golpe de 2022 e inelegível, como promete o filho aspirante a presidente. Vimos pesquisas desde setembro que indicam uma disputa apertada, com segundo turno próximo do empate técnico em vários institutos. É um confronto entre centro-esquerda e extrema direita, mas, como no livro, o que está em jogo vai além do programa: trata-se de saber que limites valem para quem disputa e exerce o poder.
Dos sete passos da autora, me concentro no terceiro porque é o mais negligenciado pela análise política convencional e pela própria esquerda, que tende a discutir pesquisas, alianças e economia e a tratar a moralidade pública como cenário ou pano de fundo. Sempre avisei meus dois ou três leitores de esquerda da importância de ler Dufour e diversos outros autores contemporâneos para saber lidar com a dinâmica da subjetividade contemporânea. Alertei em meu O paradigma estético (Clube dos Autores, 2021) que a recusa da discussão sobre a natureza da pós-modernidade nos anos 90 custaria caro à esquerda, exatamente como está ocorrendo nestas eleições. Agora, frente à eleição que acabou de acontecer, seja lá qual foi o vencedor, que eu ainda não sei enquanto escrevo estas linhas, é preciso não apenas constatar que a vergonha na política se enfraqueceu, mas perguntar: por que ela se enfraqueceu?
A lente de Temelkuran
Retomo o argumento de Temelkuran para analisar o caso Bolsonaro. Para ela, o primeiro elemento da caminhada da extrema direita é o que ela denomina criação do “povo real”, que, na versão da extrema direita brasileira, equivale ao “cidadão de bem”, sua forma de se declarar acima dos partidos e redefinir quem pertence à nação. Faço parte dos críticos e acadêmicos que são parte da “elite opressiva” do bolsonarismo, já que nele é o discurso anticiência que predomina. A avó professora da autora, que passou fome alfabetizando crianças rurais, ouve que faz parte da elite: a cena resume o mecanismo. Digo isso, pois penso no discurso neoliberal e nas plataformas que se espalharam no país: elas querem também fazer pensar que o eleitor de Flávio Bolsonaro, o entregador de pizza, o taxista, é um empreendedor e, por isso, parte da elite. Mas ele não é; sua origem é a mesma de Lula. Mas eles o renegam.
Segundo, a causa vaga. O conteúdo do movimento analisado por Temelkuram muda conforme a conveniência. Ela vê o inimigo de ontem virar aliado, e o aliado, terrorista, e os seus seguidores acompanham sem pensar. As lideranças de extrema direita agem pela conveniência. O que se mantém é a lealdade do seu eleitor ao líder, baseada na fronteira do “nós” contra “eles”. Olho e vejo a candidatura de outro expoente da extrema direita, Ronaldo Zulke, que hoje se define como defensor da mulher, mas que ainda ontem zombava delas no plenário, em programas de televisão; ele se diz defensor do Estado, mas que até ontem votava na privatização das instituições públicas. No mundo paralelo da extrema direita, tudo é conveniência.
Terceiro, compreender sem agir. A autora critica a “pseudocompreensão”: a esperança de que o caos gere despertar, de que o esforço infindável de conscientizar ou o uso do humor como refúgio da crítica seja eficaz junto ao eleitor de extrema direita. Sua conclusão é dura: sem ação política, essa lógica da compreensão popular se degrada na troca de reações emocionais. É nisso que aposta Flávio Bolsonaro: de que apenas a manipulação da emoção funcione para seus eleitores levá-lo à Presidência. Eles, apesar do caos, das explicações da esquerda, do uso do humor como fez Fábio Porchat, não compreendem o que ele significa como projeto de país. Se ele se eleger, a pseudocompreensão já faz parte do eleitorado brasileiro, e a reação emocional é sua lógica; se não, ainda há esperança nos cidadãos que são capazes de diferenciar projetos e perfis políticos.
Como a vergonha é eliminada
O capítulo três de Como perder um país parte de cenas do presente da autora. Ela descreve um jovem do AKP defendendo que a Terra é plana, trolls acusando um sobrevivente de tiroteio escolar de ser ator, e recua para uma genealogia perguntando: como isso foi possível? Ela enumera alguns elementos. O primeiro é que vivemos na chamada pós-verdade, ou império das fake news, que é antiga, já que mentiras existem desde que existem narradores. Agora, a novidade é que os poderosos passaram a experimentar o que os fracos sempre conheceram, e a pergunta perplexa “como podem dizer isso” já não faz mais sentido. Flávio Bolsonaro disse que não conhecia Vorcaro e foi desmentido. Ele mentiu, mas isso parece que pouco afetou seu eleitor. O que se perdeu foi menos a verdade do que o consenso moral que fazia da mentira um motivo de vexame.
O segundo são o que a autora chama de “ilhas de realidade”. Para Temelkuran, a transmissão televisiva da Guerra do Golfo, em 1991, inaugurou um regime em que o sofrimento alheio virou espetáculo, distante o bastante para não exigir resposta. A “vergonha vicária”, a que sentimos pelo que outros sofrem ou fazem, deixa de ser um reflexo compartilhado. A autora lembra da geração que foi repreendida com as crianças famintas da Etiópia à mesa; a seguinte vê o corpo de uma criança afogada na praia e se pergunta se deve publicar a foto, já achando que nada mudará. Esse ponto foi objeto de inúmeros vídeos da esquerda, que mostram como funciona a relação do bolsonarismo com o sofrimento. Neles emergem as imagens de Jair Bolsonaro rindo das vítimas da Covid. O bolsonarismo não se importa com o Outro. Isso também foi esquecido como motivo de vexame.
O terceiro é a desvergonha como capital. A autora cita programas como o reality show The Simple Life, que ensinou a rir da pobreza alheia (“that’s hot”), e o The Apprentice, que transformou a frieza do “você está demitido” em virtude. Ela cita que, anos depois, Donald Trump joga rolos de papel-toalha a desabrigados de um furacão, e Melania Trump, a primeira-dama americana, visita crianças migrantes com um casaco estampado com a frase “I really don’t care. Do U?”. O gesto não é mais escandaloso: é uma marca, e a plateia aprendeu a consumi-lo. Essas ações não são comparáveis às ações de Flávio Bolsonaro, que, em um vídeo, utilizou o deboche para ironizar as demandas de comunidades indígenas, referindo-se aos pedidos dessas comunidades com um “Wi-Fi, índio quer… [Internet]? Em 2021, enquanto o país enfrentava o colapso de oxigênio e recordes de mortes, Flávio Bolsonaro endossou discursos que ridicularizavam o isolamento social e as medidas de proteção. Isso também é desvergonha a serviço do capital, ou estou errado?
Onde mora a moralidade?
Há ainda alguns outros aspectos destacados por Temekulan, como a moralidade sem casa. Ela diz que, desde os anos 1980, a pergunta sobre como ser uma boa pessoa foi empurrada para a religião e a consciência individual. A consequência é que a esfera pública ficou sem uma moralidade secular capaz de dizer “isto é um crime moral”. Quem protesta hesita: “talvez eu não devesse ter vergonha, não é?”. Sem norma comum, os líderes lançam declarações chocantes, como criminalizar o adultério, proibir o aborto ou mudar uma lei esquecida para desviar a atenção para outra coisa, enquanto exércitos de trolls aterrorizam o espaço de comunicação. O ciclo “ato chocante, reação aturdida” consome a energia da sociedade. Não foi o caso da promessa teocrática de Flávio Bolsonaro de que “o Brasil é do Senhor Jesus”, dita em palanques religiosos, promessa de rompimento com a barreira constitucional do Estado laico se fosse eleito, o que reacendeu os boatos sobre o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida?
No final, tanto na abordagem de Temekulan de seu país como na minha modesta opinião sobre as eleições no Brasil, sempre se trata de um neoliberalismo sem história, que usa o populismo de extrema direita como uma espécie de prótese da história que falta ao neoliberalismo: oferece uma causa, um vilão claro e um sentido, onde o sistema dominante oferece apenas o lucro e a frase “o mundo é assim”. Quando Temekulan diz isso, lembro na mesma hora das leituras de Dufour.
Da desregulação simbólica à cidade perversa
Gosto muito do filósofo e psicanalista francês Dufour. Pouco conhecido da esquerda, ele desenvolve uma crítica ao capitalismo desde os anos 2000, em livros como A arte de reduzir as cabeças (Cia de Freud, 2005), O divino mercado (Cia de Freud, 2009) e A cidade perversa (Civilização Brasileira, 2013). Mais tarde, em obras como Le El delírio occidental (MRA Ediciones, 2015) e Baise ton prochain (Éditions Actes Sud, 2019), ele desenvolve uma ideia que entendo se relaciona com a análise de Temelkuran. Para Dufour, na linha de Zizek, toda sociedade humana se organiza em torno de um terceiro simbólico (a Lei, o Nome-do-Pai, a tradição, Deus, a Razão, a Nação), que limita o desejo de cada um e permite a existência do laço social. Na modernidade, “grandes relatos” cumpriam essa função de legitimação, mas seu enfraquecimento, descrito por Lyotard, em seu clássico O pós-moderno (José Olímpio, 1986), deixaria um vazio. Nele, Dufour vê o mercado assumir traços de divindade: ele descreve o “divino mercado”, o título de sua obra, como a instância que não pede fé em nada além de si mesma e que promete regular tudo sem que ninguém precise justificar nada.
Dufour retoma A fábula das abelhas, de Bernard Mandeville (“vícios privados, benefícios públicos”), para sustentar que o pensamento liberal moderno conquistou legitimidade ao afirmar que a soma de egoísmos, ambições e transgressões individuais produz o bem comum. Mas, se o vício é motor de prosperidade, a vergonha torna-se obstáculo, e a moral clássica, que pedia contenção, passa a ser vista como freio ao crescimento. Não se trata de acusar todo liberalismo de imoralidade, mas de observar como uma versão dele deslegitima o limite como tal.
Não é exatamente esta a atuação de Flávio Bolsonaro? Suas ações ilustram a ideia de que a soma de ambições e transgressões individuais justificaria o bem comum ao fundir o pragmatismo político com a pauta econômica ultraliberal. Ao defender o enriquecimento pessoal e seu próprio salto patrimonial sob a justificativa de ser “empresário e advogado”, ele legitima a busca pelo lucro privado como motor de prosperidade social. Essa mesma lógica fundamenta sua plataforma do “Tesouraço” para as eleições de 2026, apostando na redução do Estado para que o livre mercado e os interesses particulares coordenem a eficiência do país. No campo político, o enfrentamento aberto a decisões do Judiciário e a barganha explícita de sua candidatura à presidência em troca da anistia familiar são apresentados não como desvios morais, mas como manobras estratégicas legítimas para alcançar a estabilidade e a liberdade institucional coletiva.
Nesse sentido, Dufour descreve a passagem de uma economia psíquica baseada na repressão (o sujeito neurótico, dividido entre desejo e proibição, sentindo culpa e vergonha) para outra baseada na desmentida: o sujeito sabe da regra, mas age como se ela não valesse para ele, exatamente como também defende Zizek. Em termos clínicos, essa é a lógica perversa, na qual o outro tende a ser tratado como objeto de uso e a diferença de gerações, de sexos e de posição é negada. O argumento decisivo é que, para Dufour, a perversão deixa de ser apenas uma estrutura individual e se torna um modo do laço social, incentivado por publicidade, consumo e uma cultura da satisfação imediata: a “cidade perversa”. Nesse sentido, penso por isso que podemos chamar a forma política de Flávio Bolsonaro como expressão da política perversa.
O neossujeito
Para Dufour, o indivíduo formado nessas condições seria um “neossujeito“: flexível, autoempreendedor, desvinculado de filiações, que se vê como produto e não como herdeiro, e que tende a tratar os demais como concorrentes ou recursos. Dufour lembra, ao falar da “redução das cabeças”, como a mídia comercial tratou a atenção humana como mercadoria a ser vendida a anunciantes: uma sociedade que vende a disponibilidade mental de seus cidadãos dificilmente lhes pede reserva moral. Estamos no campo da guerra de todos contra todos. Daí o título de uma de suas obras, Baise ton prochain (algo como “use o teu próximo”), que sintetiza a inversão: o mandamento clássico de amar o próximo dá lugar ao imperativo de tirar o máximo proveito dele.
Sei que tenho de interpretar a ideia com cuidado, ainda que seja uma tese sobre a ética implícita de um sistema e não sobre a conduta de cada pessoa, mas defendo que ela se aplica a Flávio Bolsonaro. Seu utilitarismo radical manifesta-se na instrumentalização de sua própria base de apoiadores, cujo engajamento ideológico é convertido em ativo para impulsionar negócios privados e investimentos familiares. Na arena política, Flávio Bolsonaro usa dessa lógica que mercantiliza as instituições públicas, como demonstrado na declaração do senador de que “tem um preço para desistir” da corrida presidencial, reduzindo as aspirações de seus eleitores a uma mera moeda de troca por interesses e anistias particulares. Por fim, as suspeitas de apropriação de salários de assessores e, como disse, a defesa de sua plataforma econômica do “Tesouraço” coroa essa doutrina, transformando a máquina pública e as relações de trabalho em ferramentas de extração de vantagem individual, onde a consequência é o desmonte do amparo social, que forçará os cidadãos a uma competição feroz de mercado. Talvez seja isto que tenha faltado à esquerda: sair da perspectiva sociológica de esquerda da análise das lutas de classes para pensar na perspectiva psicanalista de esquerda: estamos numa espécie de antessala da clínica do capitalismo, só que nós não somos os loucos, mas estamos enlouquecendo por sua causa.
Uma convergência política
Ainda que partam de pontos diferentes, Temelkuran do jornalismo e Dufour da psicanálise, o ponto é que vivemos sob o capitalismo num momento em que a moralidade é exilada, o simbólico é desregulado e o mercado é o novo senhor absoluto. Fim da vergonha, da compaixão e do consenso sobre o intolerável. Ver isso exposto pela maioria dos candidatos destas eleições só pode ser o indicador de que estamos perdendo o nosso país. Ambos os autores concordam que o limite, a culpa e a diferença devem ser valorizados para que o outro não seja tratado como coisa, mas, se os candidatos à presidência, em sua maioria, já agem assim, eles mostram que estão apenas reproduzindo a lógica do neoliberalismo.
Entendo; esta convergência é importante, ainda que cada autor parta de um lugar diferente. Se a imoralidade está na moda, não é o líder chocante que influencia seus eleitores; ele apenas colhe o que o sistema planta. Bolsonaro não contaminou, não adoeceu a sociedade, como sugeri em meu ensaio da semana passada; ela já estava doente, exatamente como afirma Vicent Gaulejac em sua obra Capitalismo Paradoxal (Hucitec, 2024). Essa estrutura é paradoxante: ao mesmo tempo em que a retórica bolsonarista exalta uma promessa de liberdade e autonomia individual no mercado, o desmonte das redes de proteção estatal embutido em sua proposta (corte de custos etc.) empurra a população vulnerável ao esgotamento e a uma competição feroz por recursos. Esse duplo movimento transfere a responsabilidade do bem-estar social para o indivíduo, convertendo a precarização sistêmica em uma falsa métrica de performance meritocrática e legitimando a busca egoísta pelo lucro acima da dignidade do próximo.
A desvergonha como técnica de poder
Adoecida por meio de várias estratégias, a sociedade vê a produção da desvergonha como uma técnica de poder. Quando negar o fato, o limite ou o outro não custa mais reputação, a mentira deixa de ser falha e passa a ser instrumento: o seguidor a aceita justamente por ver nela sinal de força. Quando o sistema capitalista é valorizado em termos paradoxais, a busca da dignidade é abandonada. Em termos dufourianos, é a desmentida elevada a estilo político e econômico. Ser de extrema direita pode ser moda para parcela da população que tem necessidade de compartilhar algo, e, como Temelkuran nota, o material humilhante contra os oprimidos hoje é produzido pelo público, e voluntariamente. Dufour ofereceria outra explicação, como Zizek: não é preciso que o Estado ordene o desprezo quando a cultura o distribui como entretenimento.
Nossa política recente é desvergonhada. Há vários exemplos disso que todos já conhecem, e a maioria é protagonizada pela família Bolsonaro. Vamos relembrar. O primeiro é o episódio envolvendo a família na produção do filme Dark Horse, que representa a fronteira entre pedir e dever. Até as pedras da Rua dos Andradas sabem que a cinebiografia de Jair Bolsonaro virou caso político quando o Intercept Brasil divulgou os áudios indicando que sua produção recebeu dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Flávio Bolsonaro, que primeiro negou envolvimento com o banqueiro, passou a admitir, diz que o procurou para pedir recursos, mas depois negou vantagem indevida. Agora está sendo investigado num inquérito da Polícia Federal sobre possíveis crimes de lavagem e corrupção. Entendo que mais importante do que a culpa a ser apurada é a gramática da resposta: negar, corrigir quando surge a prova, reenquadrar o relator como perseguidor. É a desvergonha generalizada: sei do fato, mas o fato não me obriga a assumi-lo.
Respeito entre a extrema direita
O segundo episódio foi quando Eduardo Bolsonaro quis usar a política externa americana como alavanca. Condenado por ter atuado junto ao governo Trump em favor de sanções contra autoridades brasileiras durante o julgamento do pai, chegou a levar a Abin a produzir um relatório reservado alertando para risco de interferência americana. Essa imoralidade se revela na rede de “líderes imorais que se respeitam” entre si, de Trump a Erdogan, e que substituem em seus gestos o compromisso com a soberania de cada povo. Para a família Bolsonaro, o próprio país é um ativo a ser posto em risco por vantagem, corrupção, e aqui a nação é usada como Outro, como objeto. Isso não revira o seu estômago? O meu sim. Esse episódio não aconteceria se as deepfakes não tivessem normalizado o falso e a extrema direita, já apontei, foi exitosa no uso da inteligência artificial para favorecer ou prejudicar candidaturas. O tribunal mandou remover, em 24 horas, um vídeo de Flávio que, com IA, ligava o filho de Lula a desvios do INSS. Lula tem sido o principal alvo. Neste mundo, a “verdade é apenas uma alternativa”, o problema não se resolve com verificação de fatos, porque a mentira já não constrange e “desce ao nível da rua”.
Outro exemplo de desvergonha foi a defesa de Flávio da anistia “ampla, geral, irrestrita e imediata” aos condenados do 8 de janeiro, quando disse que, se o Congresso não a aprovar, recorrerá a indultos. Disse pretender indicar ao STF ministros “contrários ao aborto e às drogas”, e “patriotas”. Em 7 de setembro, na Paulista, disse pedir a Deus para subir a rampa do Planalto com o pai, condenado. O que interessa ao indulto e anistia em análise é o enquadramento: quando o resultado de um processo julgado é tratado como injustiça a ser desfeita pela vontade do vencedor, sem reconhecer o dever de responder pelo ato, aproxima-se do que Temelkuran descreve no passo 4, onde vê o direito como obstáculo ao “povo real” e que, por isso, deve ser superado. Nos termos de Dufour, Flávio Bolsonaro protagoniza o que o psicanalista chama de recusa do terceiro: o julgamento é a instância que diz “não” ao desejo, e a proposta de Flávio é abolir o “não”. Isto também é perversão.
O fato de que, no início de setembro, um relatório da Polícia Federal no caso Master tornou públicas mensagens entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, provocou um desgaste grande não só na candidatura Lula, mas no próprio STF. Temelkuran nota que, quando as instituições se tornam “tigres de papel”, o povo aprende que o palácio está vazio. Quer dizer, o esvaziamento das instituições pode vir de fora, pelo ataque, ou de dentro, pela conduta dos seus integrantes. Um Judiciário que resistiu ao golpe, e que por isso é alvo legítimo de defesa, é o mesmo cujos integrantes se posicionam a favor de Flávio Bolsonaro, mas que agora precisam prestar contas disso.
Limites da analogia
Sei que há diferenças, contudo. O Brasil ainda tem imprensa livre e plural, eleições auditadas, alternância do poder recente e um Judiciário que, contra pressões enormes, julgou e condenou um ex-presidente. A Turquia de Temelkuran perdeu esses freios ao longo de uma década de governo do mesmo partido. A autora defende o “respeito” ao eleitor real, ainda que seja crítica de como o conceito é instrumentalizado. Eu defendo o respeito à democracia e às instituições: sei que ele ocorrerá no governo Lula, mas tenho dúvidas em um eventual governo Bolsonaro. Espero estar errado.
O ponto é que o pensamento de Temelkuran e a sociologia psicanalítica de Dufour se completam. A primeira mostra o sintoma: nesta eleição, a vergonha pública foi desativada, e o escândalo perdeu seu poder de sanção. Entendo que o que vimos foi um longo processo de desregulação simbólica em que o limite passou a ser visto como entrave, e o vício, como motor. A checagem de fatos, a indignação e o sarcasmo têm rendimento decrescente: eles apelam a um constrangimento que já não opera como antes.
Lula não foi imoral; Flávio Bolsonaro, sim. Se compreender sem agir é uma forma de desistir, para a autora, agir, neste contexto, significa coisas comuns: votar informado, fiscalizar a urna, exigir transparência das instituições, sustentar imprensa independente, recusar a cumplicidade com o próprio lado quando erra. É isso que tento aqui. Dufour talvez fosse mais pessimista ainda sobre a possibilidade de reconstituir, por vontade política, um terceiro simbólico. Temelkuran é mais otimista e aposta em uma moralidade secular reconstruída coletivamente, a que chama de “beleza política”. Depois destas eleições, talvez a vergonha não volte por decreto, mas pode ser recriada por hábito, quando cidadãos e instituições voltarem a dizer, em público e sem medo, que certas coisas não se fazem. Como na pintura de Jean Béraud, “Depois do Malfeito” (1885-1890), que ilustra este ensaio: o país e seus cidadãos, como na imagem da mulher que sente o peso de um erro social, podem chorar copiosamente. Nesse momento, se fizermos escolhas erradas, nos tornaremos um país à beira de um colapso emocional profundo. Mas escrevo antes dos resultados. E então, qual foi?