Vou falar de um ambiente que frequento com encanto desde a infância e sobre o qual, veja só, escrevi, de forma apaixonada e racional, oito livros de que me orgulho demais, mas, paradoxalmente, um ambiente que me captura só porque é viciante e desperta o poderoso misto de paixão com pertencimento, a lúdica “bola de meia, bola de gude”. Na real, é um meio que às vezes desprezo e do qual até busco emocionalmente alguma distância sanitária. Refiro-me ao futebol. Cara, o futebol é um contexto no qual as pessoas sofrem e se entregam com a alma, mas também é onde a leviandade e a frivolidade se instalam com alguma naturalidade. O nosso pior e o nosso melhor estão ali. O cara te ofende e depois diz “é só um jogo”, sabendo que te atingiu numa identidade sagrada de menino sem limites etários e que aquilo “não é só um jogo”, como também se diz e com razão (e emoção). No futebol, o sujeito é sádico, espezinha até os amigos, ri do sofrimento alheio mesmo que adore o desditoso, atribui ao outro, recreativamente, desqualificações que chegam a ser caluniosas e faz isso munido de teorias e imaginários que sabe ou tenta ignorar serem comprovavelmente fajutos, nega quase que a própria existência do adversário, tripudia a dor alheia, ainda que entre os aficionados do outro lado haja alguns dos seus afetos. Isso sem falar nos julgamentos apressados e definitivos sobre seres humanos tratados com leviandade desumana, inclusive entre os seus, nas lacrações e numa incrível tendência a opinar, mesmo que sem a informação necessária (e isso ocorre frequentemente, porque há bastidores do espetáculo que precisam ser preservados e jamais vêm à tona). No futebol, pratica-se a ação pusilânime de negar ou tentar apagar o outro, imputando-lhe defeitos exclusivos e, às vezes, fazendo isso até literalmente, com o arremesso de uma pedra ou algo assim, aquilo que chamamos, na vida civilizada, de agressão ou até tentativa de homicídio. Despertam-se a generosidade coletiva, o companheirismo e a solidariedade, mas também um egoísmo, um cinismo e uma violência que o cara comete por se achar genuinamente autorizado.
Sou um tipo estranho, que vive apaixonadamente o futebol, mas, de certa forma, o rejeita e é rejeitado por ser como é, por refletir o que reflete.
Quem me conhece desde sempre sabe que dificilmente toco flauta. Ou melhor, até toco flauta, mas quando ela é o que tem de ser: uma galhofa, uma zoação consentida e apropriada ao momento e à circunstância. Como tem chato no futebol (mas quem se importa?)! Debocho quando sei que o meu interlocutor vai entender que aquilo é brincadeira e, sendo assim, é capaz de rir junto. Sou um tipo que se orgulha do inédito mundial conquistado pelo time do coração em 1983, mas que tem plena consciência da importância histórica do inédito brasileiro que o rival conquistou em 1975, quando era outro torneio, com outro nome e organizado por outra entidade, assim como foi o meu mundial. E penso: “Por que não posso me orgulhar do meu e valorizar o do outro? Por que não posso até mesmo acolher no meu íntimo a conquista histórica do outro, que pra mim também foi importante porque abriu caminhos? Por que não posso admirar ícones de outra camiseta?” Onde está escrito que pra sustentar a minha (enorme) paixão, eu preciso desconstruir o rival e odiá-lo? A minha paixão é frágil e não se sustenta? Quem foi que disse que o futebol é a exceção em que me permito ter prazer ao ver uma pessoa que amo sofrer?
Onde aprendemos a ser tão miúdos, cínicos e cruéis?
Vou jogar confetes em mim mesmo: desde a infância sou um tipo empático. E me orgulho muito disso, faz parte da minha formação e do meu temperamento, o que não necessariamente me traz benefícios (veja texto que escrevi na semana passada sobre o centauro). Só que, bem, não se engane. Não sou bonzinho com todo mundo.
Minha maldade é seletiva, mas existe. Tem umas figuras que gosto de ver sofrer por seus méritos, confesso.
Mas, enfim, futebol é um ambiente em que o inteligente fica burro e o bom fica sádico.
O futebol é algo que amo e, por vezes, no íntimo, rejeito. Até parece aquele título da obra do grande escritor Marcos Aguines: “O atroz encanto de ser argentino”,
Sim, estou falando de um encanto atroz: o do futebol.
Vou ser muito honesto, como adoro ser, porque acho que a vida fica melhor quando é verdadeira: quando o Grêmio vai mal, fico triste, durmo com dificuldade, acordo no dia seguinte com sabor azedo, me arrasto com aquilo me incomodando a semana inteira. É foda! Sou um fanático no sentido literal de fã. E por que raios vou desejar isso a um amigo?
Será que sou tão inocente (jamais “ingênuo”!), que penso estar falando algumas obviedades muito básicas, mas que serei pouco compreendido pela maioria dos leitores?
No futebol, o fanático cego diz algo porque veste uma camiseta e diria o exato oposto caso vestisse a camiseta de outra cor. Pra mim isso tem nome: desonestidade intelectual.
…
Enfim, me propus a escrever aqui sobre futebol e acabei vomitando o fel de um cara que até já sofreu algumas incompreensões porque ousou entrar nesse meio com a cara limpa, pensando, escrevendo livros que simplesmente tentam trazer fatos elucidativos, na acepção mais básica do que é a reportagem: a apuração de verdades irrefutáveis e certificáveis, mas que eventualmente derrubam mitos e dogmas que não podem ser descanonizados.
Como ouvi certa vez: “o bom senso custa caro”.
Adoro essa frase!
Mas a sua constatação tem o poder de transformar mel em fel.
Ou de misturar ambos num sentimento ambivalente.
Adorei uma vez em que o saudoso Cacalo, lá no início da década de 1990, quando eu começava no jornalismo, em meio a um encontro da imprensa esportiva com seus diversos imbecis, olhou pra mim e disse: “O Léo é um guri com a cara limpa.” Eu gostei daquilo, mas hoje entendo melhor a dimensão do elogio. Também te amo, Cacalo! Saiba disso onde tu estiver.
…
Mas escrevi tudo isso aí em cima porque quero falar de outras coisas que me incomodam no futebol, além da facilidade com que as pessoas se agridem, se desrespeitam, se ofendem, se negam e se desqualificam, às vezes de forma até criminosa.
Uma é a política interna miúda dos clubes, com suas dezenas de incompreensíveis movimentos políticos (o querido mecenas Marcelo Marques viveu essa nojeira e, com razão, tratou de ficar fora e acima dela), e outra é a sua banalização.
E, sobre banalização, vou me ater à Copa Sul-Americana, a respeito da qual tenho péssimo conceito desde que surgiu.
A desclassificação recente do Internacional desnudou o escandaloso descritério desse torneio que premia o demérito, algo que repito insistentemente há décadas. Certamente os colorados, se pudessem voltar no tempo, ironicamente escolheriam o fracasso de se desclassificar prematuramente na Libertadores, na fase de grupos, porque só assim enfrentariam o América de Cali (que jogou contra o Bahia, desclassificado pelo Inter) em vez do Flamengo e talvez estivessem vivos numa competição que dá dinheiro, prestígio e vaga na Libertadores do ano seguinte.
Vocês já repararam que o vice-campeão da Libertadores, que chegou à final e se tornou um dos dois principais times do continente, termina o ano em baixa, muitas vezes numa crise provocada pela frustração, enquanto o campeão da tal de Sula termina o ano dando volta olímpica? Não adianta. Não vejo sentido nisso.
Sei que na Europa há torneio equivalente, mas também acho ruim.
Não é porque tem nas Oropas que vou gostar.
Às vezes, é bom esperar o momento certo para opinar publicamente. Digo com a autoridade que os fatos me conferem: torci pro meu time na Sula? Claro! E queria que avançasse, porque apoio o Grêmio até em par ou ímpar e pebolim, ainda mais quando a premiação e as decorrências da eventual conquista são relevantes e geram consequências altamente positivas. Mas a Sula é uma excrescência! É torneio de perdedores, em especial no que toca ao critério (sic) de escolha dos participantes brasileiros, que inclui até aqueles que estiveram às margens do rebaixamento, porque vai abarcar do sétimo colocado na tabela pra baixo. Simboliza toda a falta de lógica do futebol no Brasil, na América do Sul e no mundo. E só ajuda a que eu sinta um atroz encanto por esse jogo tão apaixonante e sem sentido.
Nem vou falar que a gente se esgoela torcendo o ano inteiro, mesmo que as grandes conquistas sejam exceções. Em mais de um século, os clubes grandes têm, em média, algo como 10 títulos de relevância, que são doces como o mel. Nos outros mais de 90 anos, a cobrança é alta e a frustração é acre como o fel. Enfim, é o vício…
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Shabat shalom!
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Foto da Capa: Gremio.Net

