Já íamos chegando aos 45 minutos da etapa final de 2025 quando me veio uma situação que, como fãzaço, jamais vou esquecer! Vivi episódios curiosos do tipo, como dar meus livros “Coligay” e “Somos azuis, pretos e brancos” autografados pro Gilberto Gil (possivelmente o cara que mais adoro da MPB, ombreando com os mineiros do Clube da Esquina e com o Raul Seixas, mas também o rock regional e nacional nos anos 1980, caetaneando e chicoando, Fagner e seus canteiros, o Jair bom, Belchior andando de avião, Gal cantando o próprio nome, a Elis dizendo que somos iguais aos nossos pais e de certa forma nem acho tão ruim que sejamos, o Ney, o Bebeto, o Nico etc, porque nunca lidei bem com isso de lista, ah, e tem o tal de roquenrol e a festa de arromba da Rita) ou quando, a pedido do próprio, enviei o “Coligay” autografado pro fantástico escritor chileno Antonio Skármeta (autor de “O carteiro de Neruda”, que foi a base do filme oscarizado “O carteiro e o poeta”), a quem entrevistei uma vez pela Folha e outra por ZH. São casos em que a lógica se inverteu. Euzinho autografei pros meus ídolos. Louco isso! Mas, veja, comentário em rede social que recebe a curtida com coraçãozinho de um dos maiores ícones mundiais do rock dá um arrepio, porque foi surpreendente e por um motivo que me afagou a alma judia carente. Enfim, estamos falando nada mais nada menos que de David Gilmour!!!
O amado, idolatrado, salve salve David Gilmour postou foto brindando com champanhe por uma conquista tardia de “Wish you were here”. Eu fui lá, curti a foto e comentei “lechaim” (“à saúde”, em hebraico). Sei que uma das maiores críticas dele ao ex-companheiro de Pink Floyd Roger Waters (seu atual desafeto) é o antissemitismo desse imbecil, irresponsável. Eu pus meu “lechaim” e dei risada pela gaiatice! Mas… eis que a filha do ídolo David Gilmour, a Romany Gilmour, curtiu meu “lechaim” com um coração! O cara é um dos maiores ídolos da minha vida! Sempre falo que o meu pedestal tem Beatles (sempre à frente, porque não se trata de seres humanos comuns e correntes), Deep Purple, Rush e Pink Floyd, mas sem esquecer do Kiss, do Yes, dos Stones, porque nunca lidei bem com isso de lista…
(melhor nem entrar na música argentina em geral e no rock argentino muito em especial, porque aí a lista não teria final, desde Los Gatos e do Manal)
Qual era o motivo pro David Gilmour brindar? O Pink Floyd alcançou o topo da parada de álbuns do Reino Unido pela segunda vez em 2025, no finzinho do ano, com a edição de 50º aniversário de “Wish you were here”, conquistando o cobiçado primeiro lugar no Natal. “Wish you were here” retorna agora em reedição expandida, que inclui seis demos inéditos e gravações alternativas, oferecendo olhar mais íntimo sobre a criação de um dos discos mais influentes da história do rock, diz a divulgação. Com isso, o álbum estabelece um recorde histórico: é o maior intervalo já registrado entre a primeira e a segunda vez que um disco alcança o nº 1 na parada britânica, exatamente 50 anos depois de sua estreia no topo. David e Romany, eu amaria que “you were here”, mas me bastou a curtida remota.
(ah, depois, se tiver a honrosa oportunidade, explico por que este “amado, idolatrado, salve salve”. A não ser que a cultura musical de vocês seja infinita)
O post de David Gilmour dizia: “Um brinde à maravilhosa notícia de que ‘Wish You Were Here’ é o álbum número 1 do Natal no Reino Unido”. E eu curti com as palavras judaicas de um judeu que sabe que ele sempre esteve entre os nossos amigos! E, tchê, ele curtiu o meu “lechaim”. Sim, ele! Usualmente, as redes sociais desses monstros sagrados são coordenadas pelos filhos. Registro que a Romany também é música muito talentosa, com umas harpas que fazem o cara viajar e uma voz linda! Um lance tri Pink Floyd. Quem me mostrou foi o “mano xará” Leo Berger. Ouça a música com o título “Between two points”, bem sugestivo pra ocasião. Puxa, o fato é que euzinho recebi a atenção dessa família genial.

…
Mas houve situações que azedaram os derradeiros dias de 2025. Tem figuras como certo jornalista oportunista seletivamente tokenizado pela esquerda obtusa e nazista (ativista do mal e oportunista que encontrou um nicho pra se achar o tal, acolhido vibrantemente por setores burros da esquerda numa exceção muito antissemita, porque costumam criticar a tokenização quando ela é praticada com outras minorias, muito em especial pela também horrenda direita racista, homofóbica, misógina e outras porcarias). Enfim, o sujeito sustentou que Israel é culpado pelos ataques antissemitas que temos visto, tipo o de Sydney, numa inversão exasperante, como no contexto da mulher estuprada culpada por usar trajes sensuais. Outro tarado pôs o atentado de Sydney na conta do Mossad (!!!). Não vejo diferença entre caras que dizem isso e antivacinas, terraplanistas, homofóbicos ou racistas de direita.
Aliás, o sedizente jornalista seletivamente toketinzado por setores dogmáticos da esquerda e cujo nome me recuso a citar é caso curioso. Os demonizadores de Israel amam desqualificar os judeus como grupo étnico (como podem?!!! Se judeu não é grupo étnico após mais de 3 mil anos resistindo em sua cultura, história comum, idioma e origem, ninguém o é e “etnia” não existe) pra depreciar a importância de Israel e sua enorme e inquestionável legitimidade. Sim, cometem isso! Mas a contradição (uma entre tantas, sendo a mais louca delas o apoio de ativistas LGBT ao Hamas, que os mataria se tivesse a oportunidade) é impressionante. Se o judaísmo é mera religião (!!!) como eles tentam dizer, o oportunista a que me refiro, que é ateu, não poderia ser judeu e deveria parar de ser a “prova” de como um “judeu” pode ser “antissionista” (versão repaginada do antissemitismo na atualidade). Sacou?
(você já pensou? Se um cristão se diz ateu, deixa de ser cristão; se um judeu se diz ateu, continua sendo judeu, como muitos são: judeus ateus. A lógica é eloquente)
Mas o incrível é que esses setores obtusos da esquerda não enxergam o tiro no próprio pé. Talvez daqui a alguns anos percebam o estrago que fazem hoje pra amanhã e além, o mal que estão plantando pra si próprios e pra todos que acreditam na mesma visão socioeconômica e são levados de roldão pra bem longe. Já vi esse filme, cujo enredo tem muito sectarismo e dogmatismo, mas antes eu não ligava, até achava graça, porque me eram distantes, e as consequências eram mínimas. Não sou o único esquerdista (ou centro esquerdista, prefiro dizer) que deixa de votar pela ideologia porque, na ordem de prioridades, vem, bem na frente, a identidade. Conheço mais de um caso de judeus que votaram na Maria do Rosário pra deputada federal antes do 7/10 e dos abjetos bordões genocidas gritados em coro e normalizados, tipo o excludente “Palestina do rio ao mar” (argh!); mas que, diante do pós-7/10, não votaram nela pra prefeita, quando a escolha na chapa majoritária seria bem mais simples. Será possível que nem exemplificando vão se dar conta?
(outro exemplo? Paulo Pimenta. Impossível! Por pior que seja o adversário! Ninguém pode ser pior que esse cara com sua aversão a Israel e, logo, aos judeus)
Então foi Natal
Sempre que chega o Natal, nos últimos anos, volta uma nova temporada da série de ficção distópica “Jesus era palestino”, protagonizada por sinistros semoventes sedizentes “intelectuais” e até “humanistas”, muito em especial (e infelizmente) dos nossos partidos de esquerda! Enfim, uma loucura completa. Só quê…
…não existia “Palestina” na época nem como região e muito menos como nação (era a Judeia, ardilosamente nomeada “Palestina” pelos romanos quando expulsaram os judeus pra diáspora, entre os anos 70 e 136 Depois de Cristo);
…não existia islamismo na época (o islamismo só surgiu no século 7 DC);
…nem cristianismo existia, porque Jesus nasceu e morreu judeu (foram os seus apóstolos que criaram a nova religião depois da sua morte);
…Jesus era intitulado como INRI, inclusive na cruz (Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus);
…a Santa Ceia era um jantar de Pessach;
…Jesus foi circuncidado e vivia pelos costumes étnico-religiosos judaicos.
Etc. etc. etc.!
O nome disso é APAGAMENTO!
Mas o que mais dói nem é ver essa ignorância completamente afrontosa aos fatos circulando nos perfis irresponsáveis de figuras com espaço e voz. O que dói mais é ver isso normalizado. Poucos rebatem uma aberração tão grave e ignorante, tão ignorante quanto o terraplanismo, a aversão à vacina e a defesa da cloroquina. Mesmíssimo nível! Tão preconceituosa ou mais do que algumas manifestações que escandalizam em relação a minorias cuja defesa rende tapinhas nas costas (eu também faço essas defesas, mas jamais pelos tapinhas nas costas). O mais doloroso é a normalização dessa literal tentativa de apagamento identitário. Um dia talvez a nossa suposta intelectualidade se dê conta do erro que comete neste momento histórico duro em que vivemos. Talvez seja tarde demais.
A frase “ninguém solta a mão de ninguém”, uma máxima antifascista repetida inúmeras vezes no Brasil do Bozo, perdeu sua razão de ser. A minha mão foi solta faz tempo. E, como não sou de direita e muito menos fascista (sou convictamente um social-democrata ou “comuna”, como gostam de dizer os jumentos que pastavam no Parcão), vivo num vácuo político que eu, um eleitor convicto da esquerda, nunca senti na minha vida. Enfim, esse é o mundo relatado pelos meus avós maternos sobreviventes do Holocausto e pelos avós paternos sobreviventes dos pogroms na Bessarábia. Um mundo em que o cara ñ sabe em quem confiar, um mundo em que o sentimento de perseguição se justifica, e os amigos são raros.
Mas fazer o quê? Se é assim há 3 mil anos, precisamos lidar com isso e zelar pela nossa linda identidade, mesmo que abrindo mão de convicções ideológicas.
Ainda vou escrever sobre o motivo que vejo pra ter tanto judeu psicanalista, a começar por quem começou (Freud). Tem a ver com o escrito aí em cima.
Uma breve rima pra não perder a prática e a mátrica*?
Vai:
Psicanalistas e psicanalisados se retroalimentam na atividade.
Que loucura estudar e esclarecer sobre a própria identidade!
Sou muito literal, e a “loucura” entra aqui como uma fatalidade.
…
Mas esse lance da loucura fica talvez pra outra coluna, ainda por vir.
Por ora, shabat shalom e lechaim, 2026, se a burrice ambidestra permitir.
…e se as urgentes luzes, como as dos Gilmour, não forem raridade…
…porque são esses caras que garantirão o futuro da humanidade.
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Ui ui ui!!!
Agora fui!
…
*Mátrica (ou “matriz”), no contexto de engenharia de solos, refere-se à sucção mátrica, que é a energia (diferença de pressão) para remover a água do solo não saturado, crucial para entender a resistência e o comportamento de barragens e taludes, sendo descrita por curvas características do solo. Hmmm. Faz sentido.
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Maduro
As palavras acima foram escritas antes da virada do ano, porque a SLER fez o seu recesso de duas semanas, e este colunista as enviou com antecedência, como de costume. Mas 2026 chegou chegando (como diria o Jorge Ben). Sendo ex-correspondente da Folha de S. Paulo em Buenos Aires e ex-colunista online de América Latina em Zero Hora, o ataque dos EUA à Venezuela com a captura do ogro ilegítimo Nicolás Maduro não me pode passar ao largo. Na linha convicta de ser franco e direto, devo reconhecer minha ambivalência: reprovo o Trump se vestir de John Wayne e sair por aí galopando e dando tiros à moda antiga. É um filme de terror que já vimos naquilo que os estadounidenses teimam em tratar como seu “quintal”: a América Latina. Portanto, reprovo com veemência a ação. Mas não posso negar a alegria que me dá ver aquele ditador antissemita (não tenho estômago pra repetir o discurso “antissionista” de apagamento étnico desse canalha, tão absurdo quanto o cinismo de falar com um suposto passarinho médium que serve de instrumento pro espírito do Hugo Chávez), perigosíssimo em sua arrogância e ar de deboche, sacado do poder. Um sujeito repulsivo, um semovente defendido por lunáticos sedizentes progressistas.
Tenho bons amigos venezuelanos, gente verdadeiramente progressista e humana, que respira aliviada. Milagros Socorro, te adoro! Estive quatro vezes em Caracas, entre 2013 e 2016, para reportagens de fôlego (uma delas teve 16 páginas em Zero Hora, algo inacreditável nestes tempos de textos rápidos). Vi situações absurdas, respirei um ar opressivo. Na economia, na política, nas instituições, um caos. Presos políticos, violência contra adversários. Oito milhões de refugiados (só eu falo frequentemente com três deles em Porto Alegre, na pet, na barbearia e no posto de combustíveis. Ou seja, é fato comprovável ali na esquina, literalmente). Oito milhões de uma população estimada em 30 milhões? Isso equivale a quase um terço! Quase um terço dos venezuelanos expurgados pelo monstro agora destronado! Logo, sou contra a intervenção como foi feita e temo pelo precedente que abre. Mas era necessário tirar o Maduro. Tomara que a situação se encaminhe de forma que seja possível os venezuelanos definirem seu próprio rumo. O ideal é que, logo adiante e com a participação de todos, faça-se uma eleição com as garantias democráticas e que os EUA não retomem o hábito de ignorar um mundo multilateral.
O futuro venezuelano não está nas frases feitas e nas bravatas e clichês, mas sobretudo nas omissões surpreeendentes, nas declarações lacônicas e meramente protocolares, no pouco empenho de supostos aliados de primeira hora do chavismo e até dos que em tese são “maduristas”. Também está na atuação da presidente interina e do seu irmão diante de um companheiro incômodo. Há, claramente, subtextos que precisam virar textos logo adiante pra que possamos entender o que está passando ali no Caribe de águas nem sempre cristalinas. Claramente, Maduro não foi preso por narcotráfico, até porque, por favor, essa espécie de delinquência nunca foi uma tradição na Venezuela, mas sim da vizinha Colômbia. Maduro e suas conexões representam o caminho aberto a outros perigos até piores que o tráfico de drogas, e, sim, há o petróleo e o petrodólar. E há a geopolítica. O que houve na Venezuela tem jeito de um grande acordão de bastidores pra que cada um garanta o seu quadrado, na América, no Leste Europeu e no Extremo Oriente. Há uma tensão que talvez seja muito mais calma nos bastidores de uma política à qual não temos acesso no presente, nunca entendemos no passado e talvez jamais compreendamos.
Todos os textos de Léo Gerchmann AQUI.
Foto da capa: reprodução do Youtube.

