Original publicado em 10/10/2025
Vou confessar algo muito íntimo neste espaço, o que requer valentia: de uns anos pra cá, ando triste. Triste mesmo. Não diria que deprimido porque a depressão é algo muito mais profundo. Mas o sentimento de vazio tem se apresentado cada vez mais constante no cotidiano. A vida nos põe a muitas provas. Há variados conflitos e impasses profissionais, há desafios e incertezas na criação dos filhos, há mortes de pessoas que são referências importantes (chega um momento, depois dos 50 anos, em que naturalmente isso ocorre com uma frequência avassaladora e provoca muita solidão). Há pais, tios e avós que envelhecem e se atrapalham dramaticamente. Há decepções dolorosas na vida e inclusive na política. Há até mesmo os percalços do time (quem entende o vínculo de afeto e pertencimento que este troço fascinante que é o futebol provoca sabe que estou falando sério, apesar de que, racionalmente, é um absurdo).
Mas outro dia eu detectei o grande e perene fator desse vazio cada vez mais frequente. É a atrocidade do apagamento identitário e da invisibilidade.
Numa aula, num curso universitário de humanas, um aluno fala sobre os judeus. Mais especificamente, sobre a diáspora judaica. O guri, com raciocínios delirantes e muito mal informado, destila uma série de despautérios. Que Israel não é a origem dos judeus askenazim, oriundos da Europa, que os atuais judeus na verdade são uma ficção. Que Israel é uma invenção, é artificial, foi criado “pelo império” e blá, blá, blá.
Enfim, não existiria uma diáspora judaica, pelo raciocínio do jovem semovente.
Só faltou alguém ironizar perguntando se, diante do exposto, Adolf Hitler tratou de exterminar o povo errado.
Mas continuemos.
Antes de desmontar esse absurdo, vou acrescentar um dado ainda mais asfixiante: o aluno falou barbaridades, o professor ouviu sem ponderar e os colegas calaram. Nem mesmo os poucos judeus se manifestaram, e sei que foi por um muito justificado medo de se expor (percebam o significado disso). A coleção de palavras fake daquele menino passou como algo totalmente normalizado.
Então vou fazer duas perguntas.
A primeira: onde está a empatia dessas pessoas? Antes que você se ache muito mordaz (é típico!) e me pergunte onde está a minha diante do que ocorre em Gaza depois do horror devastador em 7/10/2023, terei que dizer que está intacta. Eu repudio e sofro com o que ocorre lá, mesmo sabendo que a reação israelense pela própria integridade e a integridade do seu povo era incontornável, que o resgate dos reféns se impunha. Rezo dia e noite pela paz sob segurança e reconhecimento mútuo de dois Estados.
E volto à minha pergunta. Será que aquele moleque pensa na exasperação do apagamento que ele sustenta? Porque é isso o que sinto. Fico exasperado, mal, abatido. Corrói por dentro, provoca sofrimento intenso, uma sensação de distopia potencializada pelo trauma transgeracional de quem ouviu as histórias dos avós perseguidos, desamparados, que não podiam confiar em ninguém, nem em vizinhos, colegas ou supostos amigos, que tinham de silenciar como os meninos hoje numa sala de aula, esconder a identidade, que precisaram fugir do pesadelo, reinventar a vida longe com uma nova família (nós) em razão da morte dos seus entes mais queridos, executados deliberadamente, industrialmente, num crudelíssimo extermínio planejado metodicamente sob nomes como “solução final”, “Holocausto”, “pogroms”, “inquisição”. É a negação de uma identidade.
Mas falei em duas perguntas, e aqui vai a outra. É justamente sobre o apagamento e a negação de uma identidade, mas sob enfoque agora diferente. Indago se você, moleque irresponsável que se acha muito intelectualizado e humanista, chegou a imaginar esse desrespeito avassalador ocorrendo com outra minoria. O gritedo seria enorme, e com razão. Talvez rolasse BO, e com razão. Mas com judeu tá valendo. Até é moda! É chique! É mainstream. Pega bem. Rende tapinhas nas costas e cabeças fazendo gestos afirmativos.
Esses discursos, muitos deles idênticos a raciocínios da Europa nos anos 1930, só que repaginados, provocam uma sensação de desamparo e isolamento cuja compreensão requer um mínimo de empatia. Só que é até irônico. Algumas das pessoas que os fazem se julgam as mais empáticas, as humanistas, as sofisticadas, as intelectuais. São tudo isso, sim, mas só quando a defesa de uma minoria traz os abstratos dividendos da aceitação.
Até alguns judeus embarcam nessa onda e aderem a um auto-ódio que me destroça por dentro.
Então, vamos lá. Vou recorrer a um texto mais didático e até a poeminhas breves copiados de mim mesmo em incursões ousadas pela métrica e pela rima. Este texto já tinha sido escrito antes de terça-feira, 7/10, e se tornou ainda mais urgente quando eu soube de criminosos que festejaram o massacre genocida e monstruoso desse dia em 2023.
Provavelmente você que continua me lendo (alguns já devem ter desistido desse “sionista comedor de palestininhos”) sentirá um alívio por entrar em nova etapa do texto, porque o que escrevi aí em cima é pesado, parece até um desabafo. E o que digo diante desse sentimento? Que é real. É desabafo, é pesado, mas infelizmente é urgente e necessário.
Vamos lá, então. Serei até redundante com textos já escritos aqui anos atrás (me dei conta de que em setembro fiz três anos de colunas semanais na Sler. Viva!):
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A diversidade e o respeito às diferenças devem estar sempre no nosso radar. As palavras ferem e constroem narrativas, que podem ser explícitas ou sorrateiras. Palavras são armas, e seu uso, bom ou mau, depende sempre de quem as empunhe. Do meu lugar de fala judaico, costumo bater forte no combate ao antissemitismo, que pode surgir nas suas diversas modalidades, ambidestro e travestido ao sabor das circunstâncias.
O antissemitismo da direita aparece quando o sujeito faz o manjado apito para cachorro destinado ao uivo da plateia neonazista; o antissemitismo da esquerda aparece na demonização de Israel e na distorção do sionismo – e tem sido mais intenso.
Dois fatos me chamaram a atenção tempos atrás (ainda antes da guerra, veja bem!) e me levaram a escrever sobre isso aqui mesmo na SLER: o presidente de Israel, Isaac Herzog, abriu uma campanha para repor no imaginário das pessoas o verdadeiro significado da palavra “sionismo”, que é um movimento de autodeterminação judaica no seu único e legítimo lar ancestral; a emissora de TV pública alemã Deutsche Welle estabeleceu explicitamente no seu código de conduta que deve ser observado apoio ao povo judeu e o direito de existência do Estado de Israel (o funcionário que romper esse compromisso pode ser demitido). Aplausos efusivos a Herzog e à Deutsche Welle!
A Alemanha sabe a que se refere. Quando morei na Argentina, na condição de correspondente do jornal Folha de S. Paulo em Buenos Aires, me pautei muito pelo tema dos direitos humanos. Criei bons vínculos com familiares de vítimas da ditadura que pôs o país no obscurantismo entre 1976 e 1983, e também ouvi dezenas de depoimentos de sobreviventes do Holocausto. De uns ouvi que os fascistas de hoje são aprendizes do nazismo de antanho, de outros ouvi algo revelador: que o renascimento de Israel, em 1948, foi a melhor notícia de suas vidas, porque agora tinham para onde correr e quem os defendesse. Sim. Isso é Israel.
Ainda poderemos conversar sobre judeus como o brasileiro Vlado Herzog e o argentino Daniel Rus, cuja mãe, Sara, sobrevivente da Shoá, passou por dois infernos e ainda milita como Madre de la Plaza de Mayo (Sara e Bernardo eram namorados na Europa e foram ambos para campos de concentração, prometendo sobreviver e se encontrar na Argentina, o que ocorreu sob circunstâncias épicas. Na Argentina, tiveram o filho Daniel, brilhante físico nuclear que em 1977 foi assassinado pelos repressores do regime militar instalado no ano anterior).
Mas mantenhamos o foco.
Haja maldade e leviandade para afrontar essas pessoas, sendo negacionista e antissemita (inclua aí o antissionista, versão moderna do ódio ao judeu diante da “inadmissível” independência de Israel). Nós, descendentes, temos a obrigação de manter vivos os traços étnicos judaicos (cultura, origem comum e valores, o que inclui a religião, nem que seja pela eloquência ética dos seus ritos), assumir quem somos e defender muito a legitimidade essencial e sagradíssima de Israel, o nosso lar ancestral e única referência territorial. Durante 1,9 mil anos de diáspora, nossos antepassados mantiveram heroicamente tudo isso, mesmo diante das maiores provações e crueldades – a Shoá é a gota d’água entre tantas perseguições, o ápice dos pogroms. Lembrá-los é dever moral, algo que se impõe.
Houve uma situação em que debati com um antissemita revestido da roupagem socialmente aceita (e até bonita, segundo alguns estúpidos) de “antissionista”. Ao ver que os fatos o soterravam, meu interlocutor sacou de argumento que me fez ver o grau infinito de possibilidades que o antissemitismo oferece para versar sobre o mesmo conteúdo sob diferentes formas. Disse que os judeus askenazim não são semitas, porque o iídiche é idioma germânico. Acatemos que o iídiche seja “língua germânica” com palavras do hebraico e forma de escrever idem (mas, ainda assim, de raiz “germânica”, ok).
Essa classificação técnica (como o cara falar português, morando no Brasil, mas com palavras, caracteres e até sentido da língua de origem, da direita pra esquerda). Concedamos até a possibilidade (no mínimo controversa, porque os judeus realmente fugiram da Judeia dominada pelos romanos) de que alguma parcela dos judeus askenazim tenha sido convertida ao judaísmo no século VIII (8!). Repito: século OITO! (tem religião que recém engatinhava nessa época e continente que nem tinha sido “descoberto”).
Todos esses caras, de qualquer forma, liam e rezavam em hebraico e se voltavam pra Jerusalém nas orações. Mas, ok, acatemos os argumentos absurdos dos atuais antissemitas, travestidos de antissionistas, que tentam nos revirar pelo avesso (como se todos os povos, países e “raças” não fossem, lá no fundo da origem humana, convenções) e nos tirar o caráter semita para atingir a meta, que é nos deslegitimar e deslegitimar Israel. O que buscam é, depois das tentativas de eliminação física (que foram em vão justamente porque a etnia judaica é fortíssima), fazer o apagamento da própria identidade.
É uma questão semântica determinante, que contamina e influencia o menino na sala de aula da universidade citado no início deste texto. Essas questões sempre são tidas como graves e relevantes por naturalizar o preconceito. Seja qual for a minoria.
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Tá! Acatemos o delírio semântico despertado pelo atávico e irredutível ódio ao judeu, ponhamos a bola ao centro e demos a esses caras o mando de campo e o pontapé inicial. Eu pergunto: e daí?! Por que todo esse contorcionismo negativista e sorrateiro nos apagaria como povo e como etnia profundamente enraizada nos primórdios da civilização – e cruelmente perseguida na diáspora? Ora, percebam a perversidade disso!
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O antissemitismo sempre busca alguma brecha para se perpetuar. É de uma perversidade sorrateira! Judeu é “raça”, depois deixa de ser raça – se o contexto cruel exigir. E por aí vai. Chegam a se esquecer de que “raça” é só convenção do próprio racista (e acaba existindo sociologicamente, mas nunca biologicamente). Nunca existiram “raças” entre humanos! O judeu entra 100% na definição literal do que é etnia (procure no dicionário!).
Usam até a lorota antiga do “tenho amigos judeus”. Além de o iídiche ser dialeto usado na diáspora com vários vocábulos e todos os caracteres em hebraico (natural numa adaptação), tanto askenazim quanto sefardim usam desde sempre o hebraico como idioma em seus rituais. Milhares de anos, eu digo! Todas as liturgias são em hebraico, a Torá é em hebraico. E o iídiche é uma adaptação à diáspora, com palavras em alemão e hebraico (a diferença, às vezes, está só numa vogal, tipo mazal tov ou mazel tov, kasher ou kusher). A maldade, a perversidade e a ignorância dessas pessoas são ilimitadas!
Insights sobre o mesmo tema
Diante da impossibilidade de aniquilar o judeu, tentam apagar sua identidade.
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No meu lugar de fala, seguindo a lógica da Djamila Ribeiro (a verdadeira intelectualidade brasileira resiste bravamente!), vos digo: rejeitar o direito judaico ao seu lar é, sim, antissemitismo (não estou falando de quem eventualmente critica o governo israelense, o que é legitimo e, às vezes, até conta com meu endosso). E, quando alguém me contesta, resta-me dizer: além de quererem tirar meu lugar, querem tirar meu lugar de fala?!
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O gênio Amos Oz contava a história do seu pai, que emigrou de Vilna pra Israel no início do século passado (Amos Oz nasceu em Israel), fugindo do antissemitismo antes da independência israelense. Pois o pai dele, ao fugir do horror antissemita, costumava ver as paredes pichadas com a frase “Judeus, VÃO pra Palestina!”. Décadas depois, já com a existência de Israel, o pai de Oz foi visitar Vilna. Chegando lá, viu paredes com os dizerem “Judeus, SAIAM da Palestina”. É, pessoal… o troço é complicado.
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Aí, eis que resolvem que Jerusalém será neutra, “internacionalizada”. A cidade, fundada por rei David e que uniu as tribos judaicas há 3 mil anos, torna-se acéfala. As consequências são óbvias e eloquentes:
Os muçulmanos continuarão orando e peregrinando pra Meca ou Medina.
O Papa continuará comandando o catolicismo desde o Vaticano, na Itália.
Os judeus continuarão orando voltados a Jerusalém, como há milênios.
Conclusão? Façam o que quiserem, digam o que digam, distorçam à vontade. Jerusalém sempre foi, é e será essencialmente judaica. É fato, é algo consolidado desde sempre e completamente irrevogável.
Obs: entendo como muito viável Jerusalém Oriental ser a capital do futuro Estado Palestino, com Jerusalém Ocidental sendo a de Israel.
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A coisa é realmente absurda. Num evento antissemita (“antissionista”) promovido por alunos na UnB, uma professora (!!!) disse, referindo-se a Israel: “Nenhuma experiência colonial chegou a esse nível de violência”. Essa frase foi dita em Brasília, capital do Brasil, país para onde negros eram trazidos após serem arrancados de suas casas na África e escravizados, tendo como castigo frequente o açoite. País onde multidões de indígenas foram aculturadas e dizimadas por cruéis invasores portugueses que nada tinham a ver com esta terra. Israel, que se defende de grupos terroristas que manifestamente o querem aniquilar e que é o Estado judaico por ser a antiga Judeia, foi definido como pior que a escravidão no Brasil. Percebem?! E não são antissemitas?!
(é curioso isto de “colonização” e “império”. É de uma fragilidade desconcertante. Onde está a metrópole pra onde vai a exploração da “colônia”? E onde já se viu chamar de colonizador um povo originário? E, se a metrópole são os EUA e Israel é “satélite”, como se explica que o primeiro país a reconhecer Israel, em 1948, foi a União Soviética, que, aliás, forneceu armamentos pra Israel se defender nos primeiros ataques árabes?!)
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Se me chamarem para conversar com alguém que crítica o governo de Israel por ocupar terras palestinas ou não dialogar pela paz, tô dentro.
Se me chamarem para conversar com alguém que rejeita o direito de Israel existir e se defender, aviso que não falo com antissemitas. Tô fora!
Perceberam o tamanho da diferença?
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Como as pessoas andam confundindo os conceitos de raça, etnia e religião! Se formos usar critérios bem objetivos, biologicamente raça nem existiria. Existe sociologicamente, mas por causa da segregação. É o racista que faz a “raça” existir, o racista é uma aberração que provoca coisas antinaturais. Então a raça existe sociologicamente e pode derivar da tez (no caso do negro) ou da etnia (no caso do judeu, que tem origem, cultura, tradições, idioma e – mas não necessariamente – religiosidade comuns). Somos todos humanos (raça humana), mas a estupidez nos separa em supostas “raças”. Como a estupidez é uma realidade (muito concreta e disseminada), a raça também acaba sendo real, acaba sendo critério classificador de uma pessoa, uma convenção. Quando se falava em raça ariana, como uma raça superior, os nazistas impunham critérios raciais. O judeu era “raça”. Infelizmente, esses critérios existem por causa das pessoas más – mas existem. Sobre religião, o católico, o evangélico, o budista, o ateu, o espírita podem ser uma coisa hoje e outra amanhã. O judeu não deixa de ser judeu nem se for ateu. Eu, por exemplo, sou judeu que muito frequentou casas de umbanda com os pais judeus.
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Se for para me isolar numa ilha, eu me isolo. Mas nunca, jamais, em nenhum contexto, me relaciono com racistas, e o antissemitismo é o racismo sobre o qual tenho meu lugar de fala.
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Direitosos insensíveis ou levianos da esquerda.
Egoístas ou falsos humanistas.
Não estendam a mão pra me cumprimentar.
Vai ficar chato!
A mão vai ficar pendente no ar!
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O poema do Gueto
Ao falar do Gueto de Varsóvia
Direi uma coisa
Que deveria ser óbvia
A palavra radicalismo
Tem se desgastado
Pelo falso moralismo
Ser radical é bonito
É ir à raiz e defender
O que precisa ser dito
Diferente é o extremismo
Aí sim é feio
Até parece fascismo
Ser radical é impedir que se enrole
O antônimo a isso não é ser moderado
É, ai que asco, ser muito bunda-mole!
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Poema triste do aparente paradoxo
Muito pior que a maldade e a burrice
É a adoção inteligente da tolice
É juntar esses dois enormes defeitos
Numa busca perversa de efeitos
Sorrateiras mentiras repetidas
As tornam “verdades” irrefletidas
Sim, a burrice pode ser inteligente
E provocar enormes danos na gente
Numa inocência apenas aparente
De consequência pungente
De falsos paralelos e rasas premissas
Criam-se crueldades fortes e maciças
Da “maldita gente má” de Shtisel
É um passo pro azedo indigerível
E toda essa mistura intangível
Torna a nossa vida sofrível
Perceba que a pensada ignorância
Adquire profunda importância
Porque o uso da perversidade
Nos sonega a limpidez da verdade
Perdão se me torno enfadonho
Nesta reflexão que proponho
Entenda que é só mais um passo
Neste meu absurdo cansaço
…
Shabat shalom!
…
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Foto da Capa: Freepik

