O corredor envidraçado conecta as alas do hospital. Lá fora, as copas das árvores abraçam incertezas; um misto de conforto e paz invade a alma.
O Hospital Alemão foi fundado em 1927. Tornou-se Moinhos de Vento em 1942. Mais do que a referência geográfica, há simbologia: transformação, capacidade de aproveitar o sopro das circunstâncias, dos desafios. Movimento, energia, avanços de conhecimento e técnica. Inventividade que transforma adversidades em valiosos propulsores. Assim, giram lâminas, bombeia-se água, movem-se pedras, moem-se os grãos, é gerado alimento e vida.
Pelos desfiladeiros, cruzam peregrinos. Andantes em sua jornada de idas e vindas, carregam o fardo da preocupação, o compromisso com o cuidado. Seus semblantes, ora confiantes e altivos, ora apreensivos e cabisbaixos, jamais são indiferentes.
Entre a multidão de profissionais, pacientes e familiares que percorrem os diversos trajetos da instituição, assomam – contornos nítidos – dois tipos contumazes: um é longilíneo e magro, olhos perdidos na vastidão, cavaleiro de triste figura; o outro, um baixinho atarracado – sobrepeso não seria uma ofensa -, segue-o de perto, atento a cada passo, a cada detalhe do chão sob seus pés.
Dom Quixote e Sancho Pança, arquétipos da liça entre o ideal e o pragmatismo, o sonho e a realidade, a insanidade e a razão. Quixote, o cavaleiro em busca de valores nobres, combatendo injustiças, muitas vezes em delírios e quimeras. Sancho, o fiel escudeiro, esteio do senso comum, da realidade terrena. Mais que uma contenda, a ligação entre eles revela equilíbrio, triunfo da harmonia possível.
Miguel de Cervantes, moldado por batalhas, prisões e reveses, foi um gênio que, ao tentar ridicularizar o heroísmo fantasioso, desvelou a complexidade da alma humana em sua obra-prima. Em um brado solene, Quixote aponta: “Vê, Sancho, aqueles gigantes desaforados!” O escudeiro, com a sensatez ancorada na realidade, apenas enxerga moinhos de vento, suas pás girando. A cena, mais que um engano, é a advertência de Cervantes sobre as lutas vãs, contra fantasmas, o combate insensato.
Do ponto de vista existencial, a morte não é um fim, mas um estágio. A peleia nobre é contra o sofrimento, a dor, a doença; é alongar os dias com qualidade, para que se cumpra, chegado o tempo, o que for natural com dignidade. “O meu repouso é a batalha”, sentencia Quixote.
Quase ao fim do corredor que transpõe o bosque, a visão desassossega. Uma criança, encostada ao vidro da passarela e ligada a um equipamento de soro. Ela tem a companhia de uma jovem senhora. Mãos dadas, adivinham-se sombras no silêncio de ambas. De repente, férreas e luminosas, palavras, qual pequenas asas coloridas, brotam da boca da menina: “Olha os passarinhos voando, mamãe! Deve ter ninhos e filhotes nas árvores!”
Parece ser a resposta, o que faz seguir, o que dá forças. “O amor não mira cumprimentos nem guarda termos de razão”, diz Dom Quixote, “e quando toma posse de uma alma, o primeiro que faz é tirar o medo e a vergonha.” Torna possível se sentir apaziguado e prosseguir, no domínio dos ventos, entre o sonhador determinado e seu sensato escudeiro.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

