Vivemos em uma sociedade em que a razão, antes compreendida como força emancipatória, é constantemente instrumentalizada para fins de controle e desempenho. Como já advertiam Horkheimer e Adorno (1947), a racionalidade objetiva — aquela que poderia orientar a vida em direção ao bem comum — foi degradada em razão instrumental, cuja finalidade é a dominação técnica, econômica e cultural.
Nesse contexto, as mensagens que consumimos no cotidiano frequentemente aparecem revestidas de uma dimensão humanista, mas, em sua essência, não passam de mecanismos para intensificar o consumo e a produtividade. A publicidade e o marketing são exemplos paradigmáticos dessa contradição. Veiculam seus produtos com linguagem humanizada, exaltando valores de autenticidade, afeto e cuidado, mas subordinados à lógica do consumo. A forma humanista, nesse caso, encobre um conteúdo essencialmente desumanizado e utilitário. Daí a hipocrisia: um discurso ético e sensível que, na prática, serve à reprodução da exploração e da mercantilização da vida.
Se perguntarmos pela materialidade desse princípio, veremos que ele se ancora nas instituições da ordem capitalista: no trabalho, na escola, na ciência, na religião, na política. Todas essas instâncias operam sob a lógica da eficiência, da mensuração e da quantificação da vida. Esse domínio aparece de modo evidente na própria linguagem cotidiana:
• Quando alguém fala em “ter relações” ou “possuir amigos”, traduz laços afetivos em termos de propriedade;
• Ao “consumir arte”, transforma a experiência estética em mercadoria;
• Ao “devolver o dízimo”, converte a fé em transação econômica.
A linguagem, assim, revela-se utilitária e instrumental. O sujeito internaliza a lógica do sistema, reproduzindo-a como se fosse natural. A subjetividade, conformada por essa gramática, age como força contrarrevolucionária, impedindo a abertura para outras formas de ser.
É nesse ponto que Marcuse (1969) enfatiza a necessidade de uma libertação interna anterior à libertação externa. Se a dominação já alcança uma dimensão existencial, não basta transformar apenas as estruturas econômicas ou institucionais: é necessário transformar também o modo de ser. A verdadeira revolução pressupõe uma ruptura com a lógica do desempenho e da quantificação da vida, instaurando uma nova sensibilidade, um outro horizonte de experiência. A Grande Recusa proposta por Marcuse é precisamente essa atitude de recusa subjetiva à lógica instrumental, abrindo espaço para novas formas de imaginar e viver. Só a partir dessa mudança existencial é que se torna possível falar em revolução autêntica, capaz de superar as contradições atuais.
O sujeito contemporâneo vive aprisionado em uma linguagem e em uma prática moldadas pela racionalidade instrumental. Ao mesmo tempo em que fala de humanização, reproduz a lógica do desempenho que desumaniza. Reconhecer essa contradição é o primeiro passo para a crítica. Mas, como lembra Marcuse, apenas uma libertação do próprio ser — uma transformação interna que anteceda a externa — pode inaugurar um horizonte realmente emancipador.
Ralf Diego Silva de Souza é psicólogo e professor universitário. Atualmente, é mestrando em Saúde Coletiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e possui especialização em Psicologia Hospitalar pela ESUDA. Dedica-se ao estudo aprofundado de temáticas concernentes à Psicanálise Kleiniana, Marxismo, Teoria Crítica e Escola de Frankfurt. ralfsouzapsi@gmail.com
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