Recentemente, em uma matéria publicada pela Revista Oeste, intitulada “Como as redes sociais estão criando gerações de imbecis e inúteis”, deparei-me com o seguinte fragmento:
“Há o caráter da imbecilização por likes: os indivíduos se entregam a uma estética de arco-íris, a um mundo insano em que todos sabem que tudo não passa de um faz de conta virtual, mas que, mesmo em meio a crises profundas, ostentam uma perfeição ou uma firmeza de virtudes heroicas mentirosas para seus seguidores, em busca de adulações.”
Embora discorde do uso do termo inúteis – por considerá-lo fortemente atrelado à lógica do desempenho e, portanto, comprometido com a racionalidade do capital -, concordo com a noção de imbecilização. Não no sentido de um déficit intelectual (por mais que pesquisas recentes denotem que a geração atual é menos inteligente que a anterior, ou seja, possui um menor percentual de Q.I), mas como um empobrecimento do pensamento crítico, uma dificuldade crescente de sustentar a complexidade, a ambivalência e o conflito próprios da experiência humana. As redes sociais parecem produzir, em larga escala, sujeitos acríticos: pessoas de todas as idades que passam a tomar por verdade aquilo que exibem, mesmo sabendo que, em grande medida, tais imagens não correspondem à realidade.
Há, nesse processo, um pacto silencioso que sustenta o funcionamento do espaço digital: eu não denuncio a tua ficção, tu não denuncias a minha. Cada um sustenta a encenação do outro, e assim seguimos – eu publico a minha mentira, você publica a sua, e ambos fingimos acreditar nesse grande faz de conta compartilhado. Não se trata de ingenuidade, mas de uma forma de cinismo cotidiano: todos sabem que a cena é artificial, mas continuam a reproduzi-la, pois romper com ela implicaria enfrentar a angústia de não corresponder, de não aparecer, de não ser reconhecido.
É como se as redes sociais tivessem virtualizado o desejo exacerbado por uma vida idealizada. Pensada em termos kleinianos, a idealização constitui uma defesa arcaica contra a ansiedade: ela emerge quando a realidade se torna excessivamente frustrante, dolorosa ou ameaçadora. Idealiza-se para evitar o contato com a falta, com a ambivalência e com a destrutividade inerentes às relações humanas. Trata-se de um funcionamento infantil do pensamento que, embora possa se atenuar ao longo da vida, jamais desaparece por completo; ele reaparece sempre que o sujeito se vê confrontado com o limite do real.
Nesse sentido, as redes sociais podem ser compreendidas como a idealização elevada à condição de ambiente. Elas não apenas permitem, mas incentivam a construção de imagens purificadas de si e do mundo, organizadas de modo a excluir o negativo, o falho, o contraditório. Ao mesmo tempo, oferecem descargas dopaminérgicas que funcionam como alívios momentâneos do mal-estar. Não se trata apenas de um estímulo neuroquímico, mas de um dispositivo psíquico que promete apaziguamento sem elaboração – um alívio fugaz que não resolve a angústia, apenas a suspende temporariamente.
Esse funcionamento produz efeitos subjetivos importantes. Ao evitar sistematicamente o contato com a falta, o sujeito perde a possibilidade de simbolização. Não há tempo para o luto, para a frustração, para o silêncio necessário à elaboração psíquica. Cada desconforto é rapidamente recoberto por uma nova imagem, cada falha por uma nova performance. A repetição substitui o pensamento, e a visibilidade ocupa o lugar da experiência. Até os momentos de silêncio e contemplação precisam ser publicados – viram pura performance.
Do ponto de vista lacaniano, pode-se dizer que as redes instituem um Outro que demanda incessantemente: mostrar, responder, aparecer, manter-se ativo. Um Outro que não conhece a falta e, por isso mesmo, não autoriza o desejo, apenas o gozo. O sujeito não deseja; ele é convocado a gozar – a produzir continuamente sinais de presença, felicidade e coerência. A angústia, paradoxalmente, não advém da ausência desse Outro, mas de sua presença constante e invasiva.
O resultado não é a alienação total – pois todos sabem, em algum nível, que se trata de um faz de conta -, mas algo talvez mais grave: um empobrecimento simbólico progressivo. A vida continua acontecendo, com suas perdas, contradições e impasses, mas cada vez menos sendo pensada. Vive-se sob a forma da exibição, e não da elaboração; da imagem, e não da palavra; da reação, e não da experiência.
Nesse cenário, a chamada imbecilização não deve ser compreendida como falha individual ou declínio moral, mas como efeito de uma forma histórica de organização do laço social. Uma forma que transforma defesas psíquicas em norma, idealizações em ambiente e a recusa do real em estilo de vida. O risco não é apenas o de nos tornarmos mais superficiais, mas o de perdermos, pouco a pouco, a capacidade de sustentar o que nos constitui como sujeitos: a falta, o conflito e o trabalho do pensamento.
Ralf Diego Silva de Souza é psicólogo e professor universitário. Atualmente, é mestrando em Saúde Coletiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e possui especialização em Psicologia Hospitalar pela ESUDA. Dedica-se ao estudo aprofundado de temáticas concernentes à Psicanálise Kleiniana, Marxismo, Teoria Crítica e Escola de Frankfurt. ralfsouzapsi@gmail.com
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