“Um coração generoso é tão vasto como a areia da praia do mar”
Século XIX: problemas sociais gravíssimos pipocam por todos os lados, mudanças diversas são efetuadas em razão da consolidação do capitalismo industrial, conduzindo ao triunfo da burguesia industrial, massificando e promovendo a explosão da classe operária e, ainda, pavimentando o caminho para a emergência de ideologias como capitalismo, nacionalismo e socialismo. Além disso, provocam, especialmente após a Grande Depressão, o Welfare State. O século XIX testemunhou o declínio de diversas monarquias absolutistas e a ascensão de governos constitucionais em vários lugares. Destes, a Itália configura-se marcada pelo movimento de Risorgimento com a culminância de um estado-nação unificado sob uma monarquia constitucional.
Nasce, nessa quadra, em 16 de agosto de 1815, Giovanni Melchiore Bosco. Sua vida, que vai até 31 de janeiro de 1888, ocorre nos albores desse movimento até a unificação política e territorial da Itália. Viveu as agonias políticas, econômicas e sociais de um país fragmentado socialmente com a explosão da miséria e pesadíssima concentração de rendas. Campônio humilde em Becchi, Itália, órfão de pai aos dois anos. Criado na pobreza por sua mãe, Margarida, Joãozinho Bosco, aos nove anos, teve um sonho fundamental para sua vida. Nele, um homem majestoso conclamou-o a educar os meninos carentes com muito carinho e paciência. Depois, uma senhora colocou a mão sobre sua cabeça e disse que, com o tempo, ele entenderia tudo. Convicto de haver recebido, de Deus, a missão de ajudar os jovens, fez-se sacerdote. Para pagar seus estudos, ele trabalhou em vários empregos e aprendeu truques de malabarismo para atrair outros jovens, aos quais depois oferecia catequese e orações. Foi ordenado sacerdote em 5 de junho de 1841. Logo em seguida, começou seu trabalho na cidade de Turim, cuja industrialização acontecia de maneira célere e, igualmente com rapidez gigante, avolumavam-se pobreza e orfandade.
No mesmo ano de sua ordenação, enquanto se preparava para celebrar a Missa na Igreja de São Francisco de Assis, percebeu que o sacristão tentava expulsar uma criança. Interveio e iniciou um diálogo com o garoto cujo nome era Bartolomeu Garelli. Com ele, iniciou uma atividade educacional das mais importantes em sua vida, o “oratório festivo”, com atividades religiosas, recreativas, ensino de ofícios e educação, num ambiente alegre e familiar, sendo itinerante no início. Esse encontro lançou as bases do Sistema Preventivo Salesiano, focado em razão, religião e amor, visando ao protagonismo juvenil e à formação de bons cristãos e honestos cidadãos. É o coração do carisma salesiano. “Os meninos que nesses primeiros tempos frequentavam o nascente oratório eram prevalentemente ‘operários’ e ‘braçais’ que passavam na cidade de Turim somente uma parte do ano: aquela livre das atividades agrícolas”, diz o ‘Boletim Salesiano’, edição italiana, de abril de 2013.
Meu/minha querido/a leitor/a, estamos finalizando janeiro de 2026. No próximo dia 31, o conjunto de religiosos/as e leigos/as que integram a Família Salesiana celebra o seu pai fundador: São João Bosco. Por isso, eu, que bebi na água dessa fonte generosa, peço sua licença para trazer ao seu conhecimento um pouquinho da atividade apostólica desse homem maravilhoso, amigo das juventudes, notadamente das mais pobres, que marcou a vida de tanta gente, inclusive a minha.
Falo com o coração, o coração que, com João Bosco, aprendeu a amar o excluído, a querer cuidar dele, a trabalhar visando à construção de um mundo em que as pessoas tenham sua dignidade respeitada, sua cidadania assegurada e a justiça prevaleça. Contra a lógica do capitalismo excludente, vencendo a desesperança daqueles que conduzem os empobrecidos ao descrédito, Dom Bosco fundou uma instituição educativa, criou um método que atua na prevenção, cujas bases são a razão, o amor e a religião. Sistema Preventivo: Educar para a construção argumentativa da vida, do entendimento das lógicas que se escondem nos ardis, na percepção das dinâmicas da existência humana. Educar para a beleza de uma Religião que redime o pobre, dignificando-o como filho do mesmo Pai, por isso, irmão. Educação no amor, com amor e para o amor. Educação para a autoestima, o respeito a si, a seu corpo, a sua vida, ao reconhecimento de si e do outro com aconchego generoso, à solidariedade e à reciprocidade no mútuo respeito.
Quando as pedagogias apostavam nos castigos e no suposto saber do mestre. Dom Bosco entende que somente o amor feito ação é verdadeiramente educativo. Quando os pobres são amontoados que nem animais e abortados do convívio social, Dom Bosco os acolhe, dando exemplo de caridade perfeita. Cuida deles, defende-os, devolve-lhes possibilidades de existências. Não o faz por achar atraente ou por vaidade; faz, como ele mesmo comentou, por entender ser essa a vontade de Deus para sua vida. Deus lhe mostrou os caminhos tortuosos dos empobrecidos e determinou sua atuação junto a eles: contribuir para tornarem-se cidadãos de verdade; cultivar valores da amorosidade cristã; defender, afinal, o direito à vida digna de todos.
Por volta de 1550, surgiram em Roma os oratórios de São Filipe Néri. Eram encontros informais de oração, leitura de vidas de santos, música e catequese para jovens e pessoas comuns, evoluindo para a Congregação do Oratório, um modelo de vida para padres seculares que viviam em comunidade sem votos, focados na pregação e sacramentos, adaptando-se às necessidades locais com alegria e simplicidade, com um espaço próprio e uma biblioteca com instrumentos musicais. Esse modelo inspirou os primeiros movimentos apostólicos de Dom Bosco com os meninos. Ele os adaptou e disseminou globalmente, inclusive no Brasil. Possivelmente, outra influência na concepção do Oratório, anterior a Filipe Neri, foi de Vitorino Da Feltre, pedagogo, professor leigo, italiano que viveu entre 1378 e 1446, considerado um dos mais importantes educadores do movimento renascentista italiano.
Parece que não pesquisamos suficientemente o fenômeno educacional importante dos Oratórios Festivos, uma verdadeira rede alternativa de educação não escolar direcionada para infâncias, adolescências e juventudes do povo empobrecido. Possivelmente resta-nos muito a aprender no diálogo com as pedagogias libertadoras e seus movimentos em nossas Américas, na promoção de diálogos efetivos com os oratórios salesianos e o uso que neles se faz da pedagogia do sistema preventivo. Mais que isso, cumpre pensar os Oratórios como espaços de construção de cidadania e de cultivo de valores.
Os oratórios são fundamentais e importantes em uma época em que a vida está banalizada, as pessoas já não acreditam mais na potência do bom e do belo, as juventudes estão estigmatizadas e manipuladas por uma rede que agencia e seduz com facilidades ilusórias e prazeres efêmeros. Como não atentar para o clamor dos empobrecidos? O que impede oferecer apoio a tanta gente vulnerabilizada, esquecida, abandonada? Da mesma forma que Dom Bosco, que conseguiu perceber a face de Cristo sofredor nos relegados da terra, os Oratórios, certamente, serão referências seguras de amor, caridade e evangelização.
Partimos da certeza de que o amor é imprescindível. É pouco, todavia, acalentar-se em cantilenas românticas. As juventudes empobrecidas não são abstrações sociológicas; são realidades existentes num mundo estruturalmente injusto. Elas são muitas e diversas, estão em todos os lugares e vivem agruras próprias de cada contexto. Sem elas, indubitavelmente, a sociedade não se renova, não experimenta o novo e a insubordinação. Certa feita, indagado sobre seus medos juvenis, o Papa Francisco respondeu: “Tinha medo de não ser amado”. Vale dizer: amor traduzido em gestos concretos.
O povo jovem vive um contexto de exploração num mundo plural em que se discutem fenômenos sociais diversos sem que se atue na raiz daquilo que parece problemático. Criticar as juventudes sem que lhes ofereçam uma oportunidade objetiva de construção de um projeto de vida é desonesto. Por isso, tanto quanto no século XIX de Dom Bosco, os Oratórios são mediações importantes de acolhimento, educação e evangelização. Para os que somos cristãos, talvez não seja difícil conceber o alcance apostólico e missionário de um trabalho como este. Trata-se de uma casa de formação humana e cristã. Urge bradar: Oratório que PROCLAME, empolgadamente, aos jovens do Século XXI: DOM BOSCO VIVE!!!
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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