“Não podemos temer se queremos viver”
Frase dita em The world will tremble (O Mundo vai tremer)
Eu ia escrever sobre outro filme, com um texto leve, recheado de humor. Mas no fim de semana vi The world will tremble, um filmaço britânico, cheio de ótimas atuações, fotografia belíssima e, sobretudo, uma mensagem essencial. Em três palavras, o filme pode ser resumido assim: “Tomada de consciência”. É disso que se trata.
Mostra três judeus, em 1942, dando-se conta do que ocorria na Europa e arquitetando a fuga do campo de concentração e extermínio. A história é real e pode perfeitamente ser aplicada ao mundo atual, porque a coisa tá feia.
A propósito desse “a coisa tá feia”, leia a coluna que escrevi excepcionalmente anteontem (minhas colunas normalmente são publicadas apenas às sextas).
O filme é sobre lucidez. E o que vivemos é de um obscurantismo disfarçado, com falsa roupagem progressista. São racistas antissemitas com verniz de “antissionismo”, como se fosse bonito negar ao povo judeu a sua autodeterminação. Porque o sionismo é só isso. É a volta do povo judeu ao seu lar ancestral depois de séculos sendo violentamente perseguido e segregado em todos os cantos do mundo.
Mas sobre qual filme eu ia escrever antes?
Sobre o francês “Os órfãos”, cujo enredo é de dois internos de um orfanato que se reencontram depois de décadas separados, um tendo se tornado policial e outro bandido. Mas o reencontro se dá porque a menina que ambos amavam quando guris sofreu um acidente automobilístico, e os dois se reencontram e se veem obrigados a se unir pra defender a filha da antiga paixão na busca pelos poderosos culpados.
Contar mais que isso é spoiler. Mas o que me chamou a atenção é que se trata de um trepidante filme de ação francês. Filme de ação francês?! Lembrei da piada que certa vez ouvi sobre a icônica telenovela colombiana “Eu sou Betty, a feia”. A graça é que é incoerente ter colombiana feia (a Colômbia e a terra das misses). Assim como é estranho um filme de ação francês -e muito bom.
Agora mantenhamos o fio. E é possível dar sequência ao assunto, porque de contradições inusitadas estamos repletos. Vivemos tempos em que o autor do livro referência sobre racismo estrutural assedia uma mulher sem se dar conta (ou se dando conta, o que é pior) de que alimenta o machismo estrutural. E que um sociólogo autor de livros sobre a influência da escravidão e do racismo nos males brasileiros pratica um racismo antissemita com referências muito diretas aos Protocolos dos sábios de Sião.
Mundo louco!
Mundo tão louco, que supostos progressistas, por antiocidentalismo ou puramente por antissemitismo, defendem os aiatolás, os caras mais obscurantistas que podem existir, perseguidores implacáveis de minorias, homofóbicos ao extremo, machistas sem concessões, antissemitas por formação e convicção. Vivi pra ver um novo chefe da guarda islâmica iraniana, perseguido pela Interpol por ser um dos autores do atentado à AMIA (Associação Mutual Israelita Argentina) em 1994, receber o apoio de supostos progressistas… argentinos! Mais: judeus argentinos!!! Não, né?
E agora eu volto ao filme que dá título a este texto, com um rápido e simples serviço: assim como “Os órfãos”, “O mundo vai tremer” está na Netflix.
Abramos os olhos como abriram os protagonistas do enredo de “O mundo vai tremer”, dirigido em 2025 por Lior Geller e protagonizado por Oliver Jackson Cohen e Jeremy Neumark Jones. Não é um alerta só pros judeus, mas muito em especial pros judeus. Deem-se conta do que está ocorrendo e, sejam de direita, centro ou esquerda, entendam que somos minoria, povo, grupo étnico. E precisamos defendê-lo.
No filme, os personagens Michael Podchlebnik e Szlama Ber Winer tratam de escapar do campo de Chelmno ao perceberem que, lá em 1942, a tragédia do povo judeu sob o nazismo está longe de ser breve como uns acreditavam. Os trabalhos escravos, a crueldade, as mortes industriais, o cano de descarga do caminhão voltado para um buraco na porta traseira e com os judeus no bagageiro onde entrava o veneno do gás carbônico (ali estava o embrião das câmaras de gás). Esse relato foi o primeiro que chegou aos outros países, uma espécie de reportagem, a primeira reportagem sobre o Holocausto. O relato de Szlama, escrito a lápis e enviado pela resistência, foi recebido pela BBC de Londres e transmitido em 26 de junho de 1942. Nesse dia, o mundo soube do que ocorria.
Grande dia para o Jornalismo, que fez o mundo tremer de horror.
…
Há dogmáticos de direita e esquerda. Sofro com ambos! Porque sou um judeu convictamente progressista que se assume tranquilamente como sionista, uma vez que está mais do que claro para mim, desde sempre, o quanto o Estado de Israel é extremamente decisivo pro nosso povo. Por que o duplo sofrimento? Porque nitidamente tem figuras que põem bandeiras ideológicas e dogmas sempre passíveis de debate (mais ou menos Estado? Liberdade econômica ou regulação? Discutamos e valorizemos o que uns têm a aprender com outros, mas isso não pode ficar acima da identidade. Não admito isso!). E tem nos dois polos. O importante é o quanto a recriação essencial, urgente e legítima do Estado de Israel em 1948 foi de uma importância histórica ímpar. É o único e territorialmente pequeno Estado judeu, em meio a mais de 20 Estados árabes, dezenas de Estados islâmicos e uma necessidade comprovadamente inquestionável de existir.
Enfim. Sobre esse despertar de consciência é o filme de que trato aqui. Um enredo essencial, que precisa ser visto por todos, judeus ou não judeus. Que você o veja e que sirva pra se dar conta do momento que vivemos.
Deixo aqui trecho do livro que escrevi por encomenda da Federação Israelita do RS sobre a história da nossa coletividade, suas origens, conquistas, valores e riquezas culturais que tiveram enorme importância pro desenvolvimento do Rio Grande do Sul e do Brasil, porque foi aqui que tudo começou. O livro é “Uma estrela no Pampa” (SLER Books), um espécie de biografia do coletivo.
Reproduzo trecho que creio ter muito a ver com o assunto deste texto:
“No livro ‘O gueto interior’, de Santiago Amigorena (editora Todavia), o autor conta a história do seu avô, Vicente Rosenberg, que emigrou da Polônia para a Argentina em 1928. Quando Rosenberg soube da vida de sua mãe no Gueto de Varsóvia, por meio das dolorosas cartas que ela lhe enviava, começou a se dar conta da sua condição judaica. O livro é uma reflexão identitária. Polonês? Argentino? Sim. Mas, sobretudo, judeu. Rosenberg, que estava em franco processo de assimilação e de abandono do judaísmo, precisou viver tamanho trauma para assumir suas origens. A pergunta que percorre todo o livro é: precisa ocorrer algo assim para os judeus se investirem da própria identidade? Não seria muito mais adequado fazer isso pela belíssima intensidade das suas origens?”
Fica essa pergunta e um pedido: demo-nos conta.
Shabat shalom!
Todos os textos de Léo Gerchmann estão AQUI.
Foto da Capa: Digulgação

