O assunto, na minha casa, era tabu
Minha mãe nem podia ouvir
Fosse sobre rato ou sobre urubu
Já o meu pai eu tinha dominado
Ele achou que seria difícil
Mas se tornou meu aliado
Meu mano ficou desconfiado
Entendia minha vontade
Mas exigia ser consultado
Ele passaria um ano fora
Aceitaria discutir o assunto
Mas não poderia ser agora
Minha primeira tentativa
Foi apresentada em slide
Convenham que fui criativa
Eu queria muito ter um rato
Fiz meu power point
Mas ninguém cogitou o fato
Meu mano foi resoluto
Falou algo que eu não esperava:
Que o rato seria seu substituto!
Aquilo me deixou desapontada
Senti que a luta seria dura
Mas eu não ficaria parada
Observei o silêncio do meu pai
Armei a estratégia
E pensei: “Agora vai!”
Chamei meu pai num canto
Mostrei minha tristeza
E até nem segurei o pranto
Meu pai não pode me ver triste
Ouviu minhas ponderações
E pediu que eu não desistisse
Com o mano, seria tranquilo
Parceiro de toda a vida
Ele iria refletir sobre aquilo
Eu ficaria sozinha e ao léu
Com a viagem dele
Pruma temporada em Israel
(…a alternativa seria o Léo…)
Minha mãe era o problema
Mas meu pai se comprometeu
A abordar com ela esse tema
Semanas se passaram
E eu sempre perguntava:
“Vocês já se falaram?!”
Meu pai ia postergando
E eu, já inquieta,
O acusei de estar enrolando
Mas ele queria falar na hora adequada
Quando a minha mãe
Estivesse bem apaziguada
O momento não era propício
Tempos tristes de pandemia…
E nosso país virado num hospício!
Minha mãe precisava estar faceira
Pra escutar com atenção
E não dizer que era besteira
Meu pai encontrou a ocasião
Num dia morno de outono
Enquanto sorviam o chimarrão
Era dia de céu azul e calor
O ar estava ameno
O vento parecia a nosso favor
Meu pai caprichou na lábia e deu o bote
Aproveitando a paz da meia-estação
Mas minha mãe o cortou como um serrote
O pobre ouviu até sermão
E nem conseguia balbuciar
Diante daquele rotundo não
Mas enfim pôde conversar
E identificou o foco
Do impenetrável mal-estar
Por incrível que pareça
O problema era anatômico…
No outro lado da cabeça
Eu rio tanto que não me acabo
Mas o curioso problema
Estava concentrado no rabo
Minha mãe tremia só de falar
Naquele fio comprido, fino e nu
Que ficava atrás a balançar
Ora, se esse fosse o problema…
A luz se acendia na penumbra
E resolveríamos o tal dilema
Podia vir sem rabo o nosso rato
Bastava pensar um pouco
E escolher algum tipo de correlato
Surgiu a ideia dum roedor genérico
Ufa! O sol brilhou no horizonte
Até porque, sim, o planeta é esférico
Parecia planejamento de gângster
Eu e meu pai matutando em silêncio
Até decidirmos adotar o hamster
E surgia uma nova esperança
Meus olhos já brilhavam
Alimentados pela perseverança
Eis que chegou aquele domingo
Na calmaria
Dum dia que estava lindo
Saímos a passear pela cidade
Quando eu comentei
Sem qualquer maldade
“Mãe, o hamster não tem rabo”
Meu pai piscou pelo retrovisor
E senti que ela o olhou de lado
“Vamos converser em casa”, disse ela
Entendi o sinal positivo
E eis que a cidade ficou mais bela
Já na semana seguinte
Planejei uma estratégia
Contendo algum requinte
Eu diria que alguém me havia dado
E o mostraria em casa
Como um fato consumado
Recomenda a boa etiqueta
Que pra presente
A gente não faz careta
Cheguei em casa com a novidade
Senti o pai e a mãe afinados
Ah, aquilo era muita bondade!
Vendo o moço malhadinho
Minha mãe se enterneceu
E o encheu de carinho
O pai e a mãe acharam lindo
O hamsterzinho que, enfim,
Estava sendo muito bem-vindo
Num curto debate sugeri
Que o mocinho
Tivesse o nome de Levy
O pai adorou o nome judaico
E até exclamou uma bênção
Recitando-a em hebraico
Minha mãe me surpreendeu
Porque acolheu o bichinho
E pela atenção que lhe deu
A rotina então se estabeleceu
Com a família ampliada
Pelo animalzinho que era meu
O nosso cãozinho amado
Que tem o nome beatle Paul
Nem deu bola pro agregado
A reação foi um breve latido
E depois o abano do rabo
Mostrando tudo consentido
Os dias se seguiram
E nosso Levy nos mostrou
Como hamsters se viram
Uma coisa interessante
É que armazenam comida
Mesmo que seja bastante
A despensa fica na bochecha
Onde eles guardam tudo,
Até mesmo uma ameixa
Levy dava lá uma roidinha
Aprovava o antepasto
E o punha na bochechinha
Comia e ficava farto
Para depois
Dormir no meu quarto
Minha mãe se acostumou à função
E eu passei a receber dela
Uma enorme de uma mão
Só que começamos a perceber:
Não era só de comida
Que Levy fazia o rosto encher
Passamos a investigar
O que ele estaria ali
Insistindo em guardar
E foi no meio da madrugada
Que percebi surpresa
A chave ali bem guardada
Já estávamos no dia seguinte
Quando notei que saiu à noite
E voltou só às quatro e vinte!
Meu pai resolveu segui-lo
E, pasmo, o viu
Fazendo tudo aquilo!
O suspense continuou
E as outras noites
Ele novamente varou
Eis que desvendamos por inteiro
Que Levy armazenava no rosto
Refrigerantes, balas e até dinheiro
Sua vida era desregrada
E nem posso contar aqui
O que ele fazia na madrugada
Um perfeito gângster!
Exatamente isso que era
O nosso querido hamster!
Ficamos observando…
Os dias se passavam
E, opa, o Paul ia mudando
Descobrimos o problema
Que, enfim, tinha a ver
Exatamente com esse tema
Levy estava com um papinho
De levar o Paul
Com ele pro mau caminho
Meu pai então interveio
Para evitar que tudo aquilo
Ficasse ainda mais feio
Chamou o Paul num canto
E ouviu do cãozinho
Todo o seu desencanto
“Ele parecia gente fina”
Disse o Paulzinho
“Mas insiste nessa sina”
O comportado Paul resistia
Mas Levy tinha muita lábia
E, pela conversa, ele insistia
Foi apenas uma noitada
Mas Paul percebeu logo
Que aquilo era uma roubada
As conversas entre os dois
Passaram aos sussurros
Por três, quarto meses e depois
Foi quando enfim Levy desistiu
Dos bares de má fama
Vividos na Avenida Assis Brasil
E Paul parecia bem faceiro
Abanando o rabo curto
E pulando muito o dia inteiro
Além de tirá-lo do atoleiro
O cãozinho fez do hamster
Um inseparável companheiro
Percebíamos algo diferente
Não só o Levy tinha mudado
Naquela amizade permanente
Até que um dia deparamos
Com a dupla entusiasmada
Ouvindo rock’n roll tipo manos
O Paul mostrou ao amigo uns discos
E o Levy viu que era possível
Se divertir sem maiores riscos
Essa história é de música, magia e cor
De amigos diferentes e improváveis
Que celebram a diversidade e o amor.
Shabat shalom
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Ilustração da Capa: Paula Kuhn Gerchmann

