A violência contra as mulheres e todas as formas de preconceito que atravessam nossas relações não são uma estatística distante. É uma ferida aberta que continua crescendo no mundo inteiro. A campanha internacional “#ehproblemameu” lança uma pergunta aos homens: “O que a gente tá fazendo?”
Imagine, por um instante, dez mulheres da sua vida: sua mãe, sua esposa, sua filha, aquela amiga querida, a colega de trabalho que você admira. Agora, encare o absurdo: a cada 8 minutos, uma delas poderia estar sendo estuprada no Brasil. Parece impossível, mas é real. Aqui, 7 em cada 10 mulheres já sofreram violência ou assédio no trabalho. E todas experimentarão algum tipo de abuso ao menos uma vez na vida.
A mensagem da campanha é direta: não é apenas sobre elas. É sobre nós. Sobre o que fazemos, sobre o que calamos, sobre o que fingimos não ver. Fomos educados a acreditar que mulheres são algo a ser conquistado, um prêmio, um território a ser tomado. “Vai lá, pega ela, mostra que é macho!” Quantos de nós já riram de uma piada machista? Essa “naturalidade” é o solo onde a violência cresce. A violência contra a mulher não é problema delas. É problema meu. É problema nosso. E não há como fugir dessa responsabilidade.
Sim, o machismo é estrutural. Sim, é uma herança pesada. Tudo isso explica, mas não justifica. A desconstrução dói. É um processo diário, íntimo e que exige muito esforço. Todas as etiquetas que colocamos depois: gênero, cor, origem, religião, só servem para alimentar separações, dominar narrativas e reforçar desigualdades.
E se a maioria esmagadora das agressões é cometida por homens, então é aos homens que cabe a transformação. Leis são importantes, mas insuficientes quando tantos casos sequer chegam a ser denunciados. A desconstrução acontece no cotidiano: na piada, no olhar, no comentário, no comportamento mascarado de brincadeira. E sim, as mulheres também carregam, às vezes, fragmentos desse machismo aprendido, como na cena que presenciei num estádio, quando uma mulher gritou para a outra: “O que você precisa é de um macho”.
Há pouco tempo, Rodrigo Hilbert viralizou ao contar que se afastou de amigos por não compactuar mais com posições machistas. Ele mudou e percebeu que não era possível continuar no mesmo círculo. Em fevereiro de 2025 escrevi o texto “Cadê os homens?” perguntando por que, nos espaços que frequento: academia, eventos culturais, sala de aula, quase sempre há mais mulheres do que homens. A exceção é o estádio de futebol. Durante anos fui o “chato” nas rodas de conversa com os colegas: não fumava charuto, não bebia, não idolatrava carros, não contava vantagens. Mas a razão para o distanciamento não foi só essa; hoje eu quase não encontro alguns antigos amigos nos locais que eu frequento.
Ainda assim, me flagro sendo machista e preconceituoso. Essa desconstrução é lenta e exige persistência. Na adolescência, eu contava piadas preconceituosas e dizia, como tantos dizem, que era “só brincadeira”. Não era. Nunca foi. Cada piada reforça uma ideia, e ideias moldam comportamentos. Hoje penso duas vezes antes de falar qualquer coisa, mas às vezes algo escapa como se uma gaveta antiga, escondida, se abrisse sem aviso. E fico me perguntando: por que eu disse isso? A resposta quase sempre está na sombra daquilo que absorvi sem perceber.
Semana passada, visitei a exposição “A alma humana, você e o universo de Jung” no MIS-SP, e saí de lá com a sensação de que sua mensagem amarra tudo o que estamos discutindo. Jung dizia que todos carregamos dois princípios simbólicos: o Animus, o masculino na psique da mulher: ação, firmeza, direção; e a Anima, o feminino na psique do homem: sensibilidade, intuição, imaginação. Não se trata de biologia, mas de humanidade. Somos inteiros quando integramos essas dimensões dentro de nós. Quando equilibramos força e delicadeza, razão e sensibilidade.
Por isso, deixo aqui um convite: olhe as pessoas primeiro como seres humanos. Antes do sexo. Antes do gênero. Antes da cor, da religião, da nacionalidade ou de qualquer rótulo criado por nós. É assim que a mudança começa: não no outro, mas em nós. Cada gesto, cada palavra, cada escolha. É problema meu. É problema seu. É problema nosso. E só quando assumirmos isso será possível transformar o mundo em um lugar onde mulheres possam viver sem medo e homens possam finalmente se tornar inteiros.
Referências:
- TerApia - terapiRa #39 – depoimento de Rodrigo Hilbert
- Campanha Necessária – O problema é meu
- Cadê os homens? Texto publicado na SLER
- Global Americans - Feminicide crisis in Latin America (2020)
- Fórum Segurança - Visível e invisível: a vitimização de mulheres no Brasil - 5ª edição
- Fórum Segurança - Feminicídios
- Documentário “A máscara em que você vive”
Todos os textos de Luis Felipe Nascimento estão AQUI.
Foto da Capa: Freepik

