O editor e amigo Luiz Fernando Moraes sabe que eu fico com várias pautas se digladiando dentro de mim pra ser a escolhida da semana, como espermatozoides correndo atônitos rumo ao óvulo. Às vezes consigo emplacar gêmeos, unindo os assuntos no mesmo útero.
Faz semanas que quero escrever sobre o Pedro e o Marcelo. Então aqui vai, juntos!
Diz o Pedro, nas suas sábias dicas, que um texto deve ser como o polvo, os braços saindo do mesmo eixo. Haha! Te ganhei, Pedro! Este texto tem duas cabeças e vários braços.
O que o Pedro e o Marcelo têm em comum?
Um saboreia medialunas nos cafés portenhos, e o outro distribui cacetinhos Brasil afora.
Ambos são gremistas, o que é um detalhe irrelevante pra abordagem que trago aqui.
Ambos são caras simples, que fazem do pão um modo de vida. Pão pão, queijo queijo.
Sim, ambos são caras simples, mas sofisticados, o que os torna especiais. Ambos me fazem bem.
Vamos começar pelo Pedro?
Eu leio os textos do querido Pedro aqui na SLER e reli a maioria deles me deliciando com o livro que ele lançou recentemente. Qual a minha sensação? Como todos os que me conhecem (e até alguns que não me conhecem) sabem, eu amo a Argentina. Tive uma temporada de sete meses lá como correspondente do jornal Folha de S. Paulo, e o que precisa fazer um correspondente? Imergir no país, estudar o país, entender a alma do país. Eu fiz tudo isso com uma característica minha que é a da obsessão. Talvez quem tenha passado um período fora, tipo naqueles intercâmbios de jovens, me entenda. Buenos Aires foi isso na minha vida, um marco eterno. Eu morava na esquina da Santa Fé com a Araoz, no coração de Palermo. Usava a linha D do metrô quando tinha pressa. Quando não tinha, pegava meu radiozinho de pilha ouvido a Mitre e seguia à esquerda em direção a Belgrano, pela Santa Fé e depois pela Cabildo, entrando na Juramento e me adentrando naquele bairro tão chique, com praças e prédios charmosos; ou seguia à direita pela Santa Fé, muitas vezes passando a 9 de Julio, dobrando à direita, tomando a Avenida de Mayo, me enfiando na Defensa ou na Balcarce e indo parar só lá em San Telmo. Outras vezes ia da Araoz ou da Scalabrini Ortiz até o Once ou a Villa Crespo, usufruindo do familiar ambiente judaico. E, claro, lia os jornais cedinho ali perto do meu apê, no Jardim Botânico, que do outro lado tem a Las Heras do Pedro, da Tainá e dos seus felinos.
Que delícia! Que saudade!
Mas onde está o Pedro nesses roteiros em que eu frequentemente parava num café e tomava meu licuado com um sanduich de miga ou comia salada de frutas com doce de leite ou devorava uma empanada de queijo e cebola? Pois é, naquele momento ele não estava.
Parece que fiz um amigo tardio em Buenos Aires lendo o saboroso texto do doce Pedro, tão lindamente humano. Sim, a literatura cria essas pontes. E eu queria ter tido um Pedro lá (aliás, anos depois, em Porto Alegre, eu tive o filho Pedro, irmão da Paula, meus amores).
Porque o correspondente trabalha adoidado e mergulha no país (política, história, economia, política, futebol, cultura), mas é muito só. O meu grande amigo em Buenos Aires era (e continua sendo, sempre) o Ariel Palacios, com quem compartilhava e continuo compartilhando a profissão e muitas coincidências na forma de ver o mundo.Pelo livro, eu e o Pedro dividimos imaginativamente uma medialuna crocante por fora e tenra por dentro numa daquelas confeitarias de rua que eu amava ir na Araoz domingo de manhã. Nessa imaginação de autor e leitor, falamos sobre música (eu iria numa pegada roqueira, mas curtindo o gosto dele, porque, enfim, o jazz é lindo), conversamos sobre a vida, nos encantamos com cada esquina de uma cidade que pra mim sempre foi um gigantesco Bom Fim (e podem crer que isso é um baita elogio com sabor proustiano). Nos divertindo charlando sobre a eterna Mirtha Legrand e a forma direta com que aborda os entrevistados fazendo suas perguntas desconcertantes que talvez só uma pessoa na fase da vida em que ela está é capaz de ousar; nos divertirmos com a insistência claramente inútil dos argentinos em fazer do Franco Colapinto um Ayrton Senna; demos risada sobre o dia em que o Racing contratou o zagueirão ex-xeneize Marcos Rojo e fez o sujeito trocar a forma como é chamado, de Rojo pra Marcos, porque Rojo é o apodo do rival Independiente em Avellaneda (como gremistas, provavelmente diríamos que a “Academia” está coberta de razão); nos assombramos com um governo que corta o dinheiro destinado às pessoas com deficiências, mas ironicamente é justo ali que surge um escândalo de propinas na compra de medicamentos e próteses, algo monstruoso ao quadrado. Brindamos ao ver que os caras levaram uma tunda punitiva nas eleições da província. Nos perguntávamos “onde está o Loan”. Fomos ver o Francella pouco nos importando com ser rotulados de fachos ou kukas. Eu o choquei quando, fã de Spinetta, Charly, Fito, Cerati, Calamaro, Estelares e A77aque, confessei que sinto vontade de ver um show do Erreway (que guri bobo eu sou!).
Tudo isso seria pauta de matéria. Mas eu preferia que fosse conversa num café.
…
E o Marcelo Marques?!
O Marcelo também é massa!
Mas é massa de pão francês (se eu escrevesse “cacetinho” aqui, ficaria estranho).
Assim como a conversa com o Pedro lendo o livro dele me fez bem, o Marcelo reavivou em mim sentimentos antigos. Como eu e a bola nunca tivemos uma relação fluida (fluidez é outro tema do Pedro), inquieto que sou, fiz aquilo que o Roger Machado definiu como “golaço pelo clube” quando escrevi alguns livros sobre diversidade, me enchendo de orgulho. Isso, porém, sou “euzinho”, com a minha renda de jornalista. Se eu fiz um golaço, o Marcelo fez centenas de gols, conquistou títulos relevantes, entrou pra História, virou herói. O cara comprou a gestão da Arena, aquele diamante incrustado na entrada da cidade. Ou seja, o clube, por seu intermédio, toma conta da própria casa.
Essa conquista é de uma imensidão descomunal.
Sou fã da Arena, sem desmerecer o sentimento de nostalgia que também tenho pelo Olímpico, assim como o meu pai tinha pelo Fortim da Baixada. Mas, tchê, aquela “Bombonera de Luxo”, na entrada da cidade, cercada por comunidades carentes, é um avanço na popularização do clube. Desde sempre, achei fantástica. E, para tê-la, era inescapável um contrato como o que foi feito, uma espécie de leasing, algo penoso, em que, por 20 anos, o clube teria que subordinar muitas decisões aos humores frios e calculistas da gestora. Outros estádios são assim, mesmo aqueles que foram apenas reformados, como é o caso do Beira-Rio. No nosso caso, a partir de agora, o clube vai explorar aquele palácio azul. Querem saber o meu sonho? Abrir uma livraria na Arena com o nome Salim Nigri, o torcedor-símbolo judeu e cego que entrou pelo clube como bibliotecário porque também ele era um guri apaixonado ruim de bola querendo fazer seus golzinhos. Salim estendeu a faixa “com o Grêmio onde estiver o Grêmio” em 1946, e o Lupicinio usou a frase no hino sete anos depois.
Muitos se perguntam o que haveria por trás do gesto tomado pelo Marcelo.
Eu pergunto aos céticos e cínicos, pessimistas e azedos: você sabe a diferença de preço e valor?
São palavras muito diferentes. O preço pago pelo Marcelo é irrisório diante do valor que o gesto dele teve. E ele, um empreendedor que começou numa kombi e hoje abastece o país inteiro com seus pãezinhos, sabe das coisas. Investiu no que vale.
…
Marcelo e Pedro, cacetinho e medialuna.
Ambos são muito massa.
Como a vida pode ser linda na sua apaixonante simplicidade!
Aos dois, meu muito obrigado!
…
PS: como ensina o professor Pedro Gonzaga, recomenda-se a elaboração do texto como um polvo. A notícia também pode ser assim. Exemplo: da mesma notícia, saem três informações importantíssimas. A Tokio vai ser mãe, o Chino Darin vai ser pai e o Ricardo Darin vai ser avô!
…
Shabat shalom!
Todos os textos de Léo Gerchmann aqui.
Foto da capa: María Fernanda Pérez/Pexels

