
O Brasil é um país de maioria negra. Somos 55,5% da população, segundo o Censo 2022 do IBGE, e representamos mais da metade dos donos de pequenos negócios. Dados do Sebrae apontam aproximadamente 15,8 milhões de empreendedores negros em 2025. Somos milhões criando soluções, movimentando a economia e gerando oportunidades. Mas uma pergunta permanece: se somos maioria da população e dos pequenos empreendedores, por que ainda não participamos da riqueza brasileira na mesma proporção?
É com essa inquietação e com entusiasmo que iniciamos, neste semestre, a gestão 2026–2028 da Odabá. Reconhecemos o legado de quem construiu essa trajetória e assumimos o compromisso de transformar representatividade em competitividade, em crescimento empresarial, em empregos de qualidade e em construção de patrimônio. Entendemos que não basta empreender: é necessário construir condições reais para prosperar.
A força econômica da população negra é expressiva. Estamos presentes da gastronomia à tecnologia, da economia criativa à indústria. Desenvolvemos soluções inovadoras e atendemos necessidades historicamente negligenciadas. Com exemplos, podemos citar a Super Nina, criada pela empreendedora negra Simony César, que utiliza tecnologia para combater o assédio sexual no transporte público; ou a AfroSaúde, plataforma fundada pelos empreendedores negros Arthur Igor Lima e Igor Leo Rocha, que conecta pacientes a profissionais negros na área da saúde, promovendo maior representatividade e inclusão no atendimento. Porém, o afroempreendedorismo não pode ser reduzido a nichos: queremos competir em todas as cadeias de valor e participar das decisões econômicas do país.
Empreender, entretanto, nem sempre resulta de uma escolha planejada. Para muitos brasileiros negros, é uma alternativa diante das barreiras do emprego formal. No quarto trimestre de 2025, segundo o IBGE, a desocupação atingiu aproximadamente 4% das pessoas brancas, 6,1% das pretas e 5,9% das pardas. Em 2024, trabalhadores brancos recebiam, em média, 65,9% mais que pretos ou pardos. Esses números mostram por que não podemos romantizar o empreendedorismo por necessidade.
Ter um CNPJ também não significa alcançar autonomia financeira. Em 2025, empreendedores negros receberam, em média, R$ 2.601,00 mensais; entre mulheres negras, o valor foi de R$ 2.090,00, enquanto homens brancos empreendedores alcançaram R$ 5.144,00. A desigualdade persiste no acesso ao crédito, ao capital, às redes comerciais e aos mercados mais rentáveis.
A qualificação avançou entre 2012 e 2025. A proporção de empreendedores negros com ensino superior incompleto ou mais passou de 5,9% para 17,2%, segundo o Sebrae. No entanto, conhecimento, isoladamente, não garante faturamento e lucro. Precisamos ir além dos cursos e das mentorias, conectando formação a contratos, investimentos, redes de negócios e políticas de compras corporativas inclusivas. A superação não pode continuar sendo nosso principal indicador de sucesso. A prosperidade também precisa fazer parte dessa nova narrativa.
Nesse caminho, o associativismo é uma força estratégica. Nossa história demonstra que colaboração, pertencimento e organização coletiva ampliam oportunidades. Queremos fortalecer a Odabá como espaço de conexão econômica, desenvolvimento empresarial e articulação entre empreendedores, empresas, universidades, investidores e poder público. Uma associação que valorize a ancestralidade, mas também impulsione inovação, produtividade, sustentabilidade financeira, cultura, consolidação e expansão dos negócios.
Nossa gestão assumiu o compromisso de escutar, de conectar e de consolidar negócios. Nosso trabalho está direcionado para acessar novos mercados, integrar cadeias de fornecedores, gerar empregos dignos e acumular patrimônio. Afinal, falar de afroempreendedorismo é falar de desenvolvimento econômico, competitividade e justiça na distribuição das oportunidades e da riqueza.
O desafio, agora, é criar condições para um legado de prosperidade, honrando quem abriu caminhos, fortalecendo quem caminha conosco e construindo oportunidades para quem virá depois. Afroempreendedorismo não é apenas abrir negócios: é abrir caminhos para que a riqueza também seja negra, coletiva e duradoura.
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Mariana Ferreira dos Santos, presidente da Odabá, mulher negra, advogada, conselheira independente, membro do IBGC - Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, diretora do IIAC - Instituto Ibero-Americano de Compliance, consultora compliance.
Leila Regina Silva, diretora de comunicação e relacionamento da Odabá, mulher negra, mãe do Richard e do Lucca, filha da Iracema. Graduada em Gestão Comercial, com MBA em Gestão Estratégica de Pessoas e Negócios, é fundadora e diretora da Help Digital, empresa dedicada a fortalecer a presença online de marcas usando ferramentas digitais. Integra a Odabá - Associação de Afroempreendedorismo. @helpdigitalmkt
Rafael Sampaio, diretor financeiro e de governança da Odabá é assessor de Investimentos na XP Investimentos e especialista em Investimentos (CEA®). Certificações: ANCORD | PCA. Pós-Graduação em Finanças & Banking, tem mais de 16 anos entre mercado financeiro e gestão de projetos. Atua com planejamento patrimonial com propósito e estratégia, transformando decisões em liberdade financeira. @realsampaio