Um psicanalista está ao pé de uma enorme montanha. Não se sabe que montanha, mas parece bem sagrada. Ele pode estar ali de férias. Há um mar cristalino perto, com muito sol por cima. Isso é importante, pois o psicanalista entra em transe. O transe pode ser devido ao excesso de sol, de trabalho ou de férias. É, então, que aparece um anjo e lhe faz uma revelação. O nome do anjo é Gabriel, mas pode ser Daniel ou Nataniel.
A revelação é feita com a voz murmurada de um anjo. Não se entende muito bem cada palavra. Por outro lado, o sentido do todo é claro. O psicanalista foi identificado como um profeta. Nem coach, nem psicanalista ou adivinho de rua: um verdadeiro profeta. O psicanalista se assusta com a revelação. Diz que se sente incompetente para tão grande tarefa. Não deseja procurar camelos perdidos no deserto ou predizer o futuro como fazem os profetas e videntes. Não quer prometer nada como quem, nos postes de rua, assegura que trará de volta – e de joelhos – algum amor perdido.
O anjo não aceita a recusa do psicanalista e começa a luta. Apesar de anjo, ele tem braços musculosos e quase estrangula o outro que se vê obrigado a aceitar a missão. A partir de agora, procurará e encontrará camelos no deserto, predirá com exatidão o futuro e trará de volta os amores perdidos. Mais do que tudo, recitará aquilo que o anjo disser para ele recitar.
Surgem os primeiros versos da récita, poéticos e exatos. O ex-psicanalista promovido a profeta os pronuncia. São de uma beleza exuberante. Ele sente um enorme prazer ao proferi-los. Depois, encontra um camelo perdido. Depois, enxerga que o dia seguinte trará uma tempestade. Ele agora sabe onde todos devem se abrigar. E, diante de uma mulher desesperada, o profeta estala os dedos, e o amor dela reaparece com os dois joelhos vergados de arrependidos.
Mas a tempestade do dia seguinte parece haver se antecipado em um único quarto. O corpo do profeta amolece, confuso, como costuma acontecer aos corpos antes de despertar de um pesadelo. O psicanalista acorda, escova os dentes, dá bom-dia para quem ainda não saiu de casa, toma rapidamente o seu café e começa a escalar um dia de que nada saberá. Indo para o consultório, sente no corpo aquele peso das almas que reconhecem ignorar o futuro, que não encontram camelos ou amores perdidos e vão precisar balbuciar, anos a fio, sem recitar nada de belo até que, de repente, em um dia incerto, consigam reencontrar um punhado de beleza de verdade.
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