
No momento exato em que escrevo este texto, escuto a canção de Jacques Brel, intitulada La Chanson des vieux amants. O ambiente é inundado inicialmente pelos acordes iniciais de um piano, acompanhados por cordas tímidas. É curioso como algumas canções mexem conosco, como se parecessem com o “encostar-se ao entardecer” ou contemplar e respirar a aura das montanhas. Existem lugares que conhecemos pelos mapas, pelas fotografias, pelos livros. E existem aqueles que conhecemos primeiro pela imaginação.
Alguns lugares chegam até nós antes mesmo de sabermos exatamente onde estão. São construídos pouco a pouco por histórias, filmes, pinturas, livros e, sobretudo, por músicas. Obviamente que esses retratos dos lugares não representam, conforme o conceito benjaminiano de Aura, que significa a autenticidade e a originalidade de uma obra dentro do seu espaço e tempo histórico, a essência dos lugares, mas ainda assim nos concedem uma maneira bonita de enxergá-los.
Minha relação com a música francesa nasceu em paralelo com minha fascinação juvenil por Frank Sinatra. Muito cedo iniciei a ouvir as suas canções, a compreender a história por trás daquela voz marcante e dos seus olhos azuis. Charles Aznavour foi o lugar de repouso de um ouvido sedento por uma compreensão da vida, da sutileza das relações confusas demais para ser compreendida rapidamente, uma demora no olhar, no gesto que é construído paulatinamente. Depois se tornou um caminho natural, o mergulho nas vozes e nas vibrações de Édith Piaf e Brel.
Há algo nessas canções que sempre me pareceu ultrapassar a própria música. Elas não apenas contam histórias; criam atmosferas. Há ruas, cafés, despedidas, encontros, noites, amores que começam e terminam; pessoas que permanecem e outras que desaparecem. Há uma cidade inteira sugerida entre uma frase e outra. Há uma saudade efêmera e depois o esquecimento – o tipo de evitação que nos propomos por sentir demais e muito rapidamente. Um temor noturno de névoas e sombras. Um sol nascendo pelo lado esquerdo da face oculta por enormes campanários góticos. É tão engraçado quando a linguagem, mesmo com suas junções lógicas, não logra conceder sentido ao sentido daquilo que se sente.
Brel continua ao fundo, mas não como música de fundo:
[1]Et plus le temps nous fait cortège
Et plus le temps nous fait tourment
Mais n’est-ce pas le pire piège
Que vivre en paix pour des amants
Bien sûr tu pleures un peu moins tôt
Je me déchire un peu plus tard
Nous protégeons moins nos mystères
Piaf talvez seja a expressão mais imediata dessa intensidade de sons e tonalidades que vão sendo conhecidas e reconhecidas amiúde. Sua voz parece não estabelecer muita distância entre aquilo que é vivido e aquilo que é cantado. O amor aparece em sua dimensão mais absoluta, assim como a perda, o abandono, a saudade e a esperança. Não há necessariamente uma tentativa de suavizar aquilo que dói. A emoção permanece ali, inteira.
Aznavour me conduz por outro caminho. Há em suas canções uma atenção especial às relações humanas, às ambiguidades, às pequenas tragédias e aos momentos aparentemente banais que acabam adquirindo importância quando vistos à distância. Seus personagens não parecem existir para representar grandes ideias. São pessoas vivendo, desejando, errando, lembrando e tentando compreender aquilo que aconteceu. Toda vez que escuto Comme ils disent, ressoa dentro de mim por horas o fragmento da canção:
[2]A l’heure où naît un jour nouveau
Je rentre retrouver mon lot de solitude.
J’ôte mes cils et mes cheveux
Comme un pauvre clown malheureux de lassitude.
Je me couche mais ne dors pas
Je pense à mes amours sans joie si dérisoires.
E Brel, embora belga, ocupa um lugar particular nessa minha experiência com a canção francesa. Sua maneira de transformar a linguagem em quase uma narrativa teatral sempre me impressionou. Há algo visceral em suas interpretações, como se cantar fosse também uma forma de encenar a própria vida.
Talvez seja por isso que a música francesa nunca tenha sido, para mim, apenas uma questão de gosto musical.
Ela acabou se tornando uma forma de imaginar uma determinada relação com a vida.
E, nesse imaginário, Montmartre tem ocupado um lugar especial. Porque também foi a casa, as ruas prediletas, o lugar dos risos e lágrimas de tais cantores e artistas.
Não apenas a Montmartre dos cartões-postais ou da Basílica de Sacré-Cœur, mas aquela que se consolidou como símbolo de uma Paris artística e boêmia: os cafés, os pintores, os escritores, os músicos, as pequenas ruas, as conversas demoradas e a ideia de que a arte poderia nascer também da própria experiência cotidiana.
Existe algo fascinante nessa imagem.
A possibilidade de uma cidade não ser apenas um espaço físico, mas também um espaço simbólico (eu particularmente acredito que todas o são). Um lugar que passa a significar algo porque inúmeras pessoas, ao longo do tempo, depositaram nele suas histórias, suas obras, seus desejos e suas memórias.
Talvez seja isso que acontece quando ouvimos determinadas músicas durante anos.
A canção deixa de estar apenas no aparelho de som.
Ela começa a construir lugares dentro de nós.
Uma determinada voz passa a carregar uma rua — uma revoada de pássaros que indica um encontro, um lugar de conforto, nosso porto seguro. Uma melodia passa a lembrar uma época. Uma letra passa a evocar uma forma de viver que talvez nunca tenhamos experimentado diretamente. E, pouco a pouco, aquilo que era apenas música começa a adquirir a consistência de uma memória.
E também (por que não?) uma espécie de memória imaginada.
Ouvir Piaf, Aznavour e Brel, esses grandes intérpretes da música francófona, me concede uma determinada maneira de olhar para a existência da qual eu gosto assaz, da qual constitui elemento muito importante para o meu sistema de valores.
Uma maneira que não parece ter tanta pressa em esconder suas contradições.
O amor pode ser belo e doloroso. A solidão pode coexistir com o desejo de estar acompanhado. Uma despedida pode ser definitiva e, ainda assim, continuar presente durante anos. Uma vida aparentemente comum pode conter histórias dignas de uma canção. Ser humano é um processo interminável — humano como substantivo e também como adjetivo.
Há beleza naquilo que é ambíguo.
Naquilo que termina e, mesmo assim, permanece. Subitamente uma luz, um cheiro, o reconhecimento de texturas familiares… Tudo isso jamais termina verdadeiramente. Como diria Drummond: “As coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”.
Naquilo que não conseguimos explicar completamente.
Nas pessoas que passam por nossas vidas e deixam algo, mesmo quando permanecem apenas por pouco tempo.
E talvez seja justamente por isso que essas músicas continuam encontrando espaço em diferentes gerações.
Porque, apesar de terem surgido em outros contextos e outros tempos, não parecem falar apenas sobre aquela época.
Falam sobre pessoas.
E pessoas continuam amando, perdendo, desejando, lembrando, recomeçando e tentando dar algum sentido ao que viveram.
No fim, talvez seja essa a força de uma grande canção: ela consegue transformar uma experiência particular em algo que outra pessoa, em outro lugar e em outro tempo, reconhece como seu.
É assim que uma música pode construir uma cidade, uma ponte, uma basílica, uma rua, um riacho.
E é assim que, às vezes, podemos conhecer um lugar muito antes de conhecê-lo de fato.
Não pelos olhos.
Mas pelas vozes que nos ensinaram a imaginá-lo.
[1] E quanto mais os dias passam
Mais aumenta o nosso tormento
Mas será que a paz não é a pior armadilha
Para os que se amam?
Claro, você chora um pouco fora de hora
Eu sofro um pouco mais tarde
Não protegemos mais nossos segredos
[2] Na hora em que nasce um novo dia
Eu volto a procurar meu lugar de solidão
Eu tiro meus cílios postiços e meus cabelos
Como um pobre palhaço infeliz e cansado.
Eu me deito, mas não durmo
Eu penso em meus amores sem alegria, tão ridículos
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Ralf Diego Silva de Souza é psicólogo, psicoterapeuta e docente no ensino superior. Participou do Programa de Mestrado em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e possui especialização em Psicologia Hospitalar. Sua produção intelectual e interesses de pesquisa concentram-se no campo da Psicanálise, com ênfase nas contribuições de Melanie Klein e Wilfred Bion, do Marxismo, da Teoria Crítica e da tradição da Escola de Frankfurt.