A resposta mais simples: um trabalho acadêmico de pesquisa, inédito, seguindo as exigências de apresentação, respeitando uma metodologia, partindo de uma hipótese e chegando a uma conclusão. E se fizer tudo certinho, você vira Doutor!
Na verdade, uma tese é uma determinada relação com a realidade. Sabemos que esta relação é fundamentalmente linguística (denotativa, conotativa, performativa, ilocutória, etc.) e nós esperamos que, através da palavra inscrita na tese, algo se revele da realidade, que o que está escondido apareça. A realidade é como um lugar de “encobrimento”, de “descobertas” e “desvelamentos”: há algo embutido nela, mas que, através do método adequado, se revelará. Toda tese obedece a uma espécie de invisível “Doutrina Científica da Revelação”. Na área da Educação, essa Doutrina parte de uma revolta contra a realidade: ela não é o que deveria ser. Ou seja, de um embate agonístico entre “o que é” e “o que deveria ser”. Em geral, as teses de educação expressam esta revolta! Mas a realidade não é uma entidade completamente obscura: ela deixa uns pedaços do rabo de fora, os “indícios”, com os quais nós elaboramos nossas “hipóteses”. A Hipótese é um prenúncio da Anunciação, da revelação de uma Verdade.
Mas esta Verdade, este segredo escondido no real, só se revelará se nos comportarmos direitinho: este comportamento chama-se “Metodologia”. Quando Adorno chegou aos Estados Unidos (1934), admirou-se com o fato de que lá, o Método não tinha o sentido de crítica ou de suspeição (da tradição cartesiana): tinha virado “Metodologia”, uma forma de fazer a realidade falar segundo a pressão de nosso interrogatório: os americanos estavam apenas realizando aquilo que Bacon havia pedido quatrocentos anos antes: “Devemos torturar a Natureza até que ela revele todos os seus segredos!”.
Quais as compensações advindas deste bom comportamento? Em primeiro lugar, após a revolta contra o detestável social e a descoberta do invisível aos olhos do homem comum, você, Doutorando, está habilitado a participar do establishment universitário na qualidade de Grão-Doutor!
Minha conclusão é a seguinte: nós gostaríamos que nossas teses explicassem a vida, ou uma parte dela, e é muito difícil descobrir que nosso academicismo é nossa contínua e vã tentativa de impedir a emergência de coisas que possam nos surpreender: as realidades não previstas. É por isso que nós vemos tantos professores “libertadores” agirem como Monocratas: e se a “libertação” fugir do alcance e do poder da teoria ou da pedagogia que a define e a limita?
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Foto da Capa: Gerada por IA.

