Pois é justo onde mais precisa que a empatia às vezes falta. Fui testemunha de que tudo isso foi pior nos anos 80. Na faculdade de medicina, professores prepotentes humilhavam pacientes e alunos. Achavam, por exemplo, a gastroenterologia mais poderosa do que a Corte da Inglaterra, ou a dermatologia, um Governo profundamente vitalício. E a gente vivia aquilo como se fosse normal. Apesar do surgimento das novas tecnologias para uma medicina cada vez mais mecanizada, algo melhorou sob a podridão do Reino, no contrapoder da voz (às vezes) conquistada pelos mais vulneráveis. Mas nem sempre.
Dia desses, voltei ao Centro de Saúde para tentar me vacinar contra a Covid, o que está devidamente indicado para um 60 mais. Tudo estava deserto no setor de vacinação, e eu já preparava a minha segunda meia-volta, em menos de dois meses. Por via das dúvidas, resolvi perguntar e a simpática secretária respondeu que haviam, sim, recebido a vacina, o vazio do recinto era por conta da gélida manhã. Mandou-me seguir as setas cravadas nas paredes até chegar à salinha indicada e foi o que eu fiz atentamente. Ou quase, pois devo ter me desbussolado um tanto até ser corrigido pela responsável do setor.
Corrigido, vírgula. Ela me passou uma carraspana, explicitando o meu delito de não estar sentado na frente da sala certa. Eu me desculpei, sem deixar de tentar distensionar o ambiente com uma breve piada em que me aliava a ela para me descascar também, do tipo “ô seu sem noção, presta atenção no mapa”.
Efeito zero. Entramos na sala e alcancei a minha ficha de vacinações anteriores. Aumentando o tom, ela riu com muita ironia, dizendo com voz ainda mais estridente que aquilo era dispensável. Retomei a tentativa de distensionar, dizendo que os 60 mais são mesmo incorrigíveis no seu apego aos papéis físicos. Efeito zero, outra vez.
Então, ela perguntou qual o braço que eu escolhia para a picada, e eu respondi que o direito, porque a vida havia me feito dolorosamente canhoto, ok? Ao meu ok, ela comentou com voz picante, meio tom acima das duas intervenções anteriores, dizendo que para ela não faria a menor diferença. Ali decidi não distensionar mais e cortei em definitivo as minhas relações diplomáticas com ela. A expressão “menor diferença” ainda ecoava em mim e fiquei tentando pensar em alguma coisa.
Pensei com afinco na grande diferença que faria para os pacientes daquele Posto serem tratados com empatia pelos seus cuidadores. Pensei com alegria na importância da vacina contra a Covid e na oportunidade de poder recebê-la novamente. Depois pensei com tristeza que ainda não foi inventada nenhuma imunização contra a falta de empatia e a importância que isso teria em um lugar como aquele.
Essa crônica não nasceu ali, em meio a uma despedida nada grata entre dois rostos virados um para o outro, perdendo a oportunidade única de se olharem, em um lugar onde um olhar poderia ser tão decisivo. Aquele vazio já não era imune ao silêncio, e texto nenhum romperia a aridez instaurada. Mas, horas mais tarde, fui fazer ginástica, conforme as indicações para um 60 mais, e a minha professora contou meio ao léu que havia tentado em vão ser uma terapeuta e, por haver falhado, estava retomando o posto original. “Explique-se”, pedi a ela, que me contou o encontro que acabava de ter com uma aluna nova. Essa era mãe de um filho muito doente que havia lhe ocupado todos os turnos do dia, durante os últimos quinze anos. Graças a uma leve melhora do filho, a mãe estava podendo se ocupar de si, pela primeira vez, depois de uma década e meia.
“Prossiga”, pedi à professora, que prosseguiu dizendo “aí é que está. A minha nova aluna chorou emocionada e, sem saber o que dizer, eu me limitei a chorar junto com ela.” Quanto a mim, quase a demiti do Posto de professora de ginástica, convocando-a para ser a minha mais nova colega, no setor de terapias. De qualquer forma, percebi ali que a tal da vacina contra a falta de empatia acabava de ser inventada a ponto de o vazio recolher-se, o calor retornar à gélida manhã, e eu poder finalmente escrever essa crônica.
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