Anna Tscherdantzew
Aqui é a Sler e retrospectiva não tem fofoca de gente se separando ou namorando, tragédia de rico com procedimento estético que deu errado, muito menos Roberto Carlos cantando.
Mas a gente também lembra do ano que passou, especialmente das coisas boas que a gente leu, ouviu e aprendeu. E como a felicidade só é real quando compartilhada, segue minha lista dos top best picas das galáxias, que espero, vocês gostem.
Sabe aquelas músicas que fazem o corpo se mexer, sabendo ou não dançar?
Isso aconteceu comigo quando ouvi Las Migas, grupo espanhol de Barcelona, formado em 2004, por mulheres, que foram mudando a formação original ao longo dos anos.
Ganharam o Grammy Latino 2025 de melhor álbum de música flamenca, com o álbum também chamado Flamencas.
Dramático e empolgante como é o estilo musical original, Las Migas modernizaram o gênero mas não perderam a mão, pelo contrário, conseguiram dar um Olé nos tunch-tunch-tunch e tumpa-tumpa.
Cibele Figueira
Grata descoberta musical de 2025 foi a cantora Liniker.
Para entrar no ritmo de fim de ano, o álbum Sim, da Vanessa da Mata.
Helena Ruffato
Desde que me mudei para Portugal, em 2022, vou anualmente ao Festival de Músicas do Mundo (FMM), que acontece todo verão, entre Sines e Porto Covo, na costa Alentejana. Descobri bandas fantásticas ao longo dos anos, e elenco as que mais ouvi durante este ano de 2025:
Baiuca (Galícia, Espanha) conheci no FMM 2022 e ficou no meu top 5 artistas do Spotify deste ano
Um projeto musical que reinventa a tradição galega ao fundir cantigas e sonoridades ancestrais com a música eletrônica contemporânea, criando um som experimental que definitivamente não agrada a todos (mas agrada a mim).
Samba Touré (Mali), conheci no FMM 2024
Músico cuja obra articula o blues do deserto com o folk da África Ocidental, explorando temas de exílio, identidade e resistência por meio de melodias ora suaves, ora intensas, e letras de forte carga política e histórica.
Kokoroko (Inglaterra), banda que eu já conhecia e tive o prazer de ver ao vivo no FMM 2025
Kokoroko é um coletivo londrino que mescla afrobeat, jazz e soul para criar suas composições, que celebram a cultura africana e a diáspora, ao mesmo tempo em que exploram temas de identidade, comunidade e resistência urbana.
Jorge Barcellos
É um problema ouvir discos hoje com o modelo de playlist da internet. Parte de minha coleção de discos perdeu-se com o tempo, ainda que possam ser achados alguns exemplares em sebos de vinil. Terminei aderindo ao YouTube, ainda que nada supere a sensação de um disco nas mãos e uma agulha no aparelho. Alguns dos que eu ouvi em 2025 destacaria:
“Elis & Tom” (Philips, 1974) é um notável disco e tema de um documentário, “presente” da gravadora pelos 10 anos de contrato de Elis com a Philips. Gravado no MGM Studios, Los Angeles, com produção de Aloysio de Oliveira, ficou famoso por faixas como “Águas de Março”, no dueto leve e dialogado de Elis e Tom; “Só Tinha de Ser com Você”, repleto do lirismo de Elis; e “Corcovado”, novamente com os dois em diálogo, verdadeiro hino da bossa clássica. Ouvir o disco e ver o documentário é uma ótima forma de curtir a verdadeira música brasileira e saber como pode ser conflituosa a sua produção.
Música de doramas coreanos. Há inúmeras listas de músicas, como a The Best Ost Korean Drama – 2015 To 2022 (disponível em https://abre.ai/ohJB). São leves, e, se você viu o dorama e gostou, cumprem o papel de trilha para evocar um pouco de suavidade. Aqui não há esforço de fazer a revolução ou derrubar o capitalismo nesse momento, é entretenimento. Destaco “Stay With Me” – CHANYEOL & Punch – Goblin / Guardian: The Lonely and Great God (2016), uma balada dramática que acompanha o romance melancólico do goblin com a noiva destinada; “This Love” – Davichi – Descendants of the Sun (2016), outra balada usada em momentos de separação e reencontro; e “Always” – Yoon Mi-rae (Descendants of the Sun), o tema da médica Kang Mo‑yeon (Song Hye‑kyo) e o capitão Yoo Shi‑jin (Song Joong‑ki), que combina cordas com a voz potente de Yoon Mi-rae.
Temas favoritos: desenhos e seriados clássicos (Discobertas, s/d). Um pack com 3 CDs com 80 músicas originais e inesquecíveis das séries internacionais que animaram minha infância e adolescência nos anos 60, 70 e 80. O CD 1 tem clássicos como as aberturas de seriados como “As aventuras de Rin Tin Tin”, “Popeye”, “Os Três Patetas”, “A Feiticeira” e “Daniel Boone”; O CD 2 tem clássicos como “A Família Addams” (série P&B), “Viagem ao Fundo do Mar”, “Bonanza”, “Jeannie é um gênio”, “Thunderbirds” e “Terra de Gigantes”; o CD 3 tem clássicos como “Vila Sésamo”, “Kojak”, “Mash” e “Bareta”. Meu playlist de esteira favorito.
Lelei Teixeira
Desde sempre, a música me comove, estimula, instiga. Ouvir, cantar e dançar me faz bem, tanto em momentos felizes, como nos infelizes. Selecionar só três canções foi um desafio, mas os tempos tumultuados em que vivemos me estimularam.
Cálice – Chico Buarque e Milton Nascimento. “Pai, afasta de mim este cálice, de vinho tinto de sangue”. Metáfora sobre a ditadura militar no Brasil. tempo de tortura e morte, que a música traduz com vigor. Ouvi muito em 2025, celebrando a nossa democracia.
London, London – Caetano Veloso. Canção feita no difícil período do exílio, quando precisou sair do Brasil para fugir das perseguições da ditadura. A letra fala da solidão e das suas andanças sem rumo pelas ruas. Solitário, mas em segurança.
Andar com Fé – Gilberto Gil. Canção que mostra a força da fé na vida, em qualquer circunstância, boa ou ruim, que traz a sabedoria e a simplicidade do mestre Gil. A fé nos leva e nos dá força nesta travessia nem sempre amena.
Vera Moreira
Raramente ouço música em casa, prefiro o silêncio e meu bairro é privilegiado, só ouço o canto dos sabiás. Também raramente saio à noite, mas aceitei o convite da amiga Luiza Estima para o show de José Miguel Wisnik ao piano, acompanhado das cantoras Celsim e Marina Wisnik, vozes e movimentos perfeitos no palco do Teatro Simões Lopes Neto (Porto Alegre). Adoro o livro O som e o sentido, do Wisnik, mas ainda não o tinha ouvido ao vivo e a cores, foi maravilhoso e lá também autografou o seu mais novo livro Viagem do recado – música e literatura (São Paulo: Companhia das Letras, 2025), que, junto com Sátántangó, de László Krasznahorkai (São Paulo: Companhia das Letras, 2022) e Cesar Lattes: uma vida; visões do infinito, de Marta Góes e Tato Coutinho (Rio de Janeiro: Record, 2024), está na pequena pilha dos livros que não dei conta de ler em 2025.
Gosto de ouvir/assistir, especialmente ao vivo, conversas, saraus, entrevistas e comecei 2025 com Rastros de Verão, na Livraria Macun (POA), ouvindo nosso colega sleriano Celso Gutfreind em uma conversa com Dani Langer e Leila Teixeira: caminhar pelas cidades, pela natureza, caminhar pela vida, caminhar como exercício de observação, foi incrível para mim, inúmeros insights e só lamento não ter anotado tudo.
Em maio, ouvi João Moreira Salles, na Semana Acadêmica Unisinos (POA). Foram dois encontros, sobre a sua direção da revista Piauí e sobre a sua produção cinematográfica, com destaque para os documentários. Sou assinante da Piauí e foi um deleite ouvir tantas histórias interessantes e bastidores dos textos que amo ler. Salles definiu a Piauí como a revista que chega depois que todos os jornalistas já foram embora, o olhar aos fatos é outro, é ver o que ainda não foi visto, é explorar, descobrir a história subjacente à notícia. Este é o jornalismo que me cativa, feito de observação, percepção, rastreamento. O jornalista como um detetive com sua lupa e toda a calma atrás das pegadas dos fatos, decifrando, aprendendo e depois elaborando em narrativa singular, através da música das palavras.
Ouço também muitas aulas online, meetings e lives e recomendo A Capivara Cultural, de São Paulo. Neste ano, fiz todas as aulas do físico Marcelo Gleiser e ouvi pela primeira vez Dirceu Villa, professor do Laboratório de Poemas d’A Capivara, poeta, tradutor e ensaísta. Um homem de inteligência sensível e crítica, atento ao movimento do mundo. Ouvi dele “Não aceite falsificações: o princípio da percepção”, que nos mostrou como navegar pelo real e o virtual entulhado de lixo, de distração, nos conectando com a produção de vários pensadores para privilegiarmos a percepção. Em 2026 vou fazer aulas com Villa, adorei seu raciocínio e conversa. Ainda n’A Capivara ouvi uma tradução de poesias pela voz de migrantes e refugiados, do Coletivo Nilúfar. Uma sonoridade lindíssima nas leituras em seus idiomas nativos – árabe, persa, espanhol, crioulo haitiano e português – algo emocionante e até meu gato ficou junto comigo ouvindo, absorto na melodia.
Confere amanhã o que os nossos colunistas assistiram em 2025!

