André Fersil
Paris 8
Direção: Jean Paul Civeyrac | Roteiro Jean Paul Civeyrac
Elenco: Andranic Manet, Gonzague Van Bervesselès, Corentin Fila
Título original Mes Provinciales
Zona de interesse
Diretor: Jonathan Glazer
Prêmios: Oscar de Melhor Filme Internacional, Grand Prix, César de Melhor Filme Estrangeiro
Ainda estou aqui
Direção: Walter Salles | Roteiro Murilo Hauser, Heitor Lorega.
Elenco: Fernanda Torres, Fernanda Montenegro, Selton Mello
Anna Tscherdantzew
Aqui é a Sler e retrospectiva não tem fofoca de gente se separando ou namorando, tragédia de rico com procedimento estético que deu errado, muito menos Roberto Carlos cantando.
Mas a gente também lembra do ano que passou, especialmente das coisas boas que a gente leu, ouviu e aprendeu. E como a felicidade só é real quando compartilhada, segue minha lista dos top best picas das galáxias, que espero, vocês gostem.
Como diz meu marido, pesado igual pastel de charque, a série limitada que indico não é pra estômagos fracos nem almas de Pollyanna.
Adolescência, a série limitada que está levando no Netflix, é um soco no estômago. Se é um balé nas imagens, feitas em plano sequência (sem corte), a história é um rock progressivo.
O tema, de novo, é a violência contra a mulher (bem jovem nesse caso) e toda engrenagem que moveu o personagem principal, o adolescente interpretado pelo excelente Owen Cooper.
Menção honrosa pra loucuragem de Severance, com trilha sonora, visual e história muito interessantes. Daqueles que você fica pensando, será que a vida real não é a ficional ou será que a vida ficcional é a real? Tô só pela terceira temporada.
Carlos André Moreira
Cortina de Fumaça (Apple TV)
Dennis Lehane, um dos grandes romancistas policiais em atividade no mundo, andou namorando com a TV desde que foi chamado por David Simon para escrever alguns roteiros para a monumental série The Wire. Em Cortina de Fumaça, da Apple TV, vemos Lehane em um patamar mais alto, como criador e showrunner de uma narrativa sobre duas personalidades em conflito precisando fazer uma parceria relutante.. Taron Egerton (Kingsman) vive Dave, um investigador de cidade pequena que recebe a contragosto como colaboradora no caso a policial de cidade grande Michelle (Jurnee Smollet, de Lovecraft Country). Ele é alguém cuja personalidade algo cringe esconde uma fúria avassaladora. Ela é um desastre esperando acontecer, e ambos precisarão ajustar sua parceria para encontrar o autor (ou os autores) de uma série de incêndios criminosos.
A Pior Pessoa do Mundo, de Joachim Trier
Este filme já tinha uns bons três anos quando eu finalmente cedi ao hype e fui assistir. E olha, uma das poucas vezes em que um filme altamente recomendado por todo mundo realmente valia o barulho todo feito em cima dele. Estruturado em capítulos que dão saltos significativos no tempo, o longa acompanha a trajetória da confusa Julie (Renate Reinsve, cativante), uma jovem estagnada em termos profissionais e cuja vida amorosa primeiro parece deslanchar até depois ir ladeira abaixo. É bonito, é ágil, é dinâmico, é criativo e é também muito triste e melancólico.
Pecadores, de Ryan Coogler
A essa altura, imagino que todos aí já tenham visto este filme que me pareceu ter sido muito bem aclamado pelo público mas que tem passado em branco no reconhecimento de grandes premiações e até de listas de melhores. Dois irmãos gêmeos (Michael B. Jordan) voltam para sua cidade natal no Sul para tentar abrir um clube com dinheiro possivelmente roubado da máfia de Chicago. No meio da festança, uma ameaça que é ao mesmo tempo simbólica e sobrenatural atrapalha a coisa toda. Não é um filme perfeito, mas é uma das grandes experiências cinematográficas do ano para quem já não aguenta mais filme de ação genérico meio-bomba.
Helena Ruffato
Green Book
Ganhador de três Oscar, é um filme em que acompanhamos o choque e a transformação de preconceitos raciais e culturais por meio da relação entre dois homens muito diferentes, enquanto tensões e afetos se revelam ao longo de uma viagem pelo sul segregacionista dos Estados Unidos da década de 60.
Sofia
Curta-metragem de Filipe Ruffato, premiado em diversos festivais, no qual vemos se desenrolarem medos, mal-entendidos, preconceitos, anseios e desejos. Em um genial plano-sequência, todos esses sentimentos surgem e desaparecem nas entrelinhas do não-dito.
One Child Nation
Documentário que escancara as consequências sociais e psicológicas da política do filho único na China, revelando o absurdo dessa medida, que emerge a partir de relatos pessoais e arquivos históricos.
Jorge Barcellos
Para quem passou mais um ano de aposentado como espectador de doramas adocicados e seriados leves como o seriado argentino Invejosa, indicar alguns filmes e documentários mais “cult”, que considero mais adequados ao público de Sler, torna-se uma tarefa mais difícil. Mas dos que vi, eu recomendaria os seguintes:
“Bono: Stories of Surrender (Apple TV, 2025) é o documentário-concerto que acompanha um show solo do cantor realizado em 2023 no Beacon Theatre, em Nova York, onde ouvimos sua música combinada com memórias e encenação de seu livro “Surrender: 40 Songs, One Story”. Para quem, como eu, gosta das músicas do U2 e de história, há relatos da infância do cantor em Dublin, mas, principalmente, o documentário vale pelo acompanhamento de seu engajamento político humanitário que moldou seu ativismo público e compromisso social.
“Ennio, o Maestro” (Amazon Prime Video, 2021) é um notável documentário dirigido por Giuseppe Tornatore sobre a trajetória do compositor que se tornou central na história da música de cinema. Combinando uma longa entrevista com Morricone e imagens de arquivo e de cinema, ele revolucionou a trilha sonora cinematográfica. São interessantes as imagens de seu trabalho na TV e na música popular italiana antes da fama conquistada com os westerns de Sergio Leone. Sua formação erudita, combinada com as soluções originais para trilhas sonoras que incluem assobios que marcaram obras como “Era uma vez no Oeste”, mostra um processo criativo e ético de trabalho.
“James Cameron’s Story of Science Fiction” (Apple TV, 2018) investiga a história e o papel da ficção científica no cinema e na TV, com Cameron como o apresentador que conversa com cineastas, roteiristas, cientistas e atores. Ainda não supera os clássicos como A verdadeira história da ficção científica, de Adam Roberts (Seoman, 2018), e nem obras que tematizam a relação do cinema com arquitetura, como Future Cities, architecture and the imagination, de Paul Dobraszczyk (Reaktion Books, 2019), mas sua proposta de grandes temas como vida alienígena, viagens no tempo, inteligência artificial, invasões, apocalipse e o uso de trechos de filmes clássicos e atuais são significativos para mostrar como a ficção científica expressa os perigos da tecnologia, fazendo convergir problemas da ética, política e identidade.
Lelei Teixeira
No escurinho do cinema e na TV a emoção também reverberou.
“O Agente Secreto”, filme dirigido por Kleber Mendonça Filho, com Wagner Moura no papel principal, que vai representar o Brasil no Oscar 2026. Na tela, a trajetória de um jovem recrutado pela ditadura militar brasileira como informante e espião e suas angústias.
“Êta Mundo Melhor”, novela de Mário Teixeira, exibida pela TV Globo desde 15 de abril, que deve terminar logo. A vida comovente de Candinho, homem simples e solidário, sempre acompanhado pelo burro Policarpo, em busca do filho que desapareceu.
Sílvia Marcuzzo
Vi na Netflix Filho de Mil Homens, baseado no livro de mesmo nome do Valter Hugo Mãe. Uma história comovente que retrata uma série de questões que ajudaram a talhar a identidade brasileira, temas tabus que remexeram com a minha sensibilidade. Envolve temas contemporâneos, embora se passe numa vilinha de pescadores. O filme rodou na Chapada Diamantina, um lugar que me cativou também. Ou seja, vale conferir por vários motivos.
Outro filme na Netflix que vi, que é de 2007, mas que me tocou bastante, foi Na Natureza Selvagem. Mas aborda vários lados do jeito American Way of Life. Além de se passar nos anos 1990, o contexto do filme propõe outras formas de ver o mundo, de nos conectarmos com lados avessos ao exacerbado capitalismo. O personagem principal denota formas de autossuficiência e superação que deixam qualquer campista amador e profissional impressionados.
Vera Moreira
O cinema nacional continua em alta, é uma alegria. Acho que encontramos nossa voz cinematográfica. Claro que já tivemos excelentes produções no passado, mas agora há uma constância e um estilo de narrativa mais sensível e real, histórias importantes e marcantes pela lente do cotidiano, o nosso jeito de ser e de ver o mundo, lindo demais. Para mim, O último azul é isso, nossa alma escancarada desde os corpos físicos até os simbólicos, numa construção riquíssima com as interpretações magistrais de Denise Weinberg, Rodrigo Santoro e Miriam Socarrás. É o mesmo com O agente secreto, com o gigante Wagner Moura, nossa história em inúmeras camadas.
Quero comentar F1, com Brad Pitt em mais uma atuação excelente, pois me marcou a cena em que ele “voa” ao volante. A expressão no seu rosto é totalmente fiel ao monólogo em que seu personagem Sonny Hayes explica esse estado de “flow”: um momento raro e mágico, em que a mente e o corpo se unem em silêncio, em transcendência, imortalidade. O monólogo é uma homenagem a Ayrton Senna e sua experiência em Mônaco, em 1988, a sensação que poucos no mundo já conheceram e está ligada à velocidade. Fiquei pensando em nossas células, na velocidade impressionante dos elétrons dentro dos átomos, milhões de metros por segundo e cada vez mais alta quanto mais perto do núcleo – as leis da mecânica quântica. Eu tive uma espécie de epifania no filme, a velocidade dentro de nós, tudo sempre em minúsculos movimentos absurdamente acelerados, regidos pelo silêncio, nossa conexão com a luz, a transcendência inerente… Melhor citar logo Niels Bohr: “Devemos ser claros que quando se trata de átomos, a linguagem só pode ser usada como poesia”. É falar de vida e, para tanto, só com poesia mesmo, como disse Ana Marta Cattani, diretora d’A Capivara, em uma das aulas com o físico Marcelo Gleiser, pois a poesia não tem início nem fim, não se explica, apenas e amplamente flui, acontece, é circular. Mesmo quem não é poeta, como eu, quando sente o pulsar verdadeiro da vida, passa a ler poesia com o coração e até arrisca uma poesia, a sua/a minha poesia.
Confere amanhã as leituras de 2025 dos nossos colunistas!

