É curioso que um episódio de altíssima relevância histórica tenha passado tão despercebido. Foi quase meio século redondo de um tenebroso mistério que enfim teve o seu triste desfecho no último dia 12. Será mais um sinal destes tempos anestesiados que vivemos?
A Justiça argentina informou à embaixada do Brasil em Buenos Aires, enfim, que foi identificado o corpo do icônico pianista Francisco Tenório Cerqueira Júnior, o Tenório Jr, integrante da banda de Vinicius de Moraes e considerado um portento da música instrumental brasileira.
Tenório Jr, que acompanhava Vinicius numa turnê por Argentina e Uruguai, desapareceu em 18 de março de 1976, seis dias antes do golpe militar que instauraria em 24 de março daquele ano a cruel ditadura responsável por 30 mil mortos e desaparecidos.
Não estranhe as datas. O 24 de março foi só a institucionalização do horror. Já desde 1974, com a morte do presidente Juan Domingo Perón e a posse da sua esposa (e vice-presidente) Isabelita, a Argentina vivia sua “guerra suja”. A direita peronista tinha na Triple A um instrumento de perseguição a esquerdistas. Havia guerra intestina peronista.
Tenório Jr fazia parte da banda que tinha, ainda, o baixista Azeitona, o baterista Mutinho e o violonista Toquinho. Na madrugada daquele 18 de março, após um show no teatro Gran Rex (Corrientes, 857), Tenório Jr deixou um bilhete para o “Poetinha” no Hotel Normandie avisando que sairia para comprar cigarros e um lanche. Nunca mais foi visto.
Só agora, quando faltam alguns meses para que se completem os 50 anos do desaparecimento de “Tenorinho”, seu corpo foi identificado pelas impressões digitais. Resta saber como ele morreu, tarefa de que se ocupará a renomada equipe de antropologia forense argentina.
A hipótese mais corrente sobre a morte de Tenorinho foi a de que, cabeludo como costumavam ser artistas e progressistas em geral, ele teve a fisionomia confundida com a de guerrilheiros. Levado a uma delegacia na Lavalle (Microcentro), não soube se expressar em espanhol e, depois de ser torturado, morreu dois dias depois.
Claro que, como de praxe, surgiram outras hipóteses, todas periféricas, sem jamais mudar o essencial. Tenório teria ido comprar maconha e foi pego numa batida policial? Estaria com uma namorada (ele era casado)? Convenhamos que pouco importa diante do fato central.
Hoje Tenorinho teria 84 anos. Além de toda a questão humanitária diante de uma morte tão absurda, ainda resta a imaginação sobre a influência que ele teria, famoso que era pelo improviso e pela afeição ao jazz (ser bom de improviso e afeito ao jazz é quase uma redundância). Seu ritmo era dançante, diferente. Percebam do que é capaz uma ditadura monstruosa e ignorante. Aniquila a vida e também a arte.
Perto da Corrientes, onde horas antes do seu desaparecimento ocorrera o espetáculo em que Tenorinho chamara a atenção pelo virtuosismo, está o Hotel Normandie, na Rodríguez Peña, 320. Também fica perto do Congresso Nacional, o que não deixa de ser uma tristíssima ironia.
Consta na fachada do prédio uma placa com os seguintes dizeres: “Francisco Tenorio Cerqueira Júnior, Tenorinho. Aqui se hospedou em sua última visita a Buenos Aires esse brilhante músico brasileiro de Toquinho e Vinicius, logo vítima da ditadura militar (1976-1983). Homenagem da Legislatura da Cidade de Buenos Aires”.
Enfim, que pelo menos recuperemos sua memória.
Eu, editor!
O querido Luiz Fernando Moraes tirou duas semanas de justíssimo descanso e me deu o encargo de editar a SLER. Se você percebeu alguma foto estranha ou texto sem sentido, aqui está o culpado. Se não sentiu diferença, é porque continuo com algum talento pra editar (atividade que este convicto repórter desempenhou eventualmente em longas andanças pelas redações), porque substituir o Luiz Fernando é sempre um desafio.
Meu amigo é muito lúcido e talentoso. Basta ver o puro jornalismo que se faz aqui na SLER, trazendo os fatos e os interpretando como deve ser, com discernimento, profundidade e qualidade na essência e na forma. Neste mundo influenciado por influencers, encho o peito pra dizer com orgulho que aqui temos uma ilha.
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Shabat shalom!
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Foto: Embaixada do Brasil na Argentina / Reprodução

