Não sei por qual razão, eu tenho uma admiração especial por varredores de rua! Deles, eu guardo uma cena inesquecível, ali na Agamenon Magalhães (Recife), num longínquo 7 de Setembro, em que varredores colocaram suas vassouras no ombro (como fuzis!) e bateram marcha enfileirados, marcando o ritmo na caçamba da carrocinha de coleta! Também não sei a razão, mas achei que aquela… “alegoria” representava muito mais a nossa “Nação” do que os desfiles grandiosos de nossos militares, em plena ditadura.
Quando vejo, nas ruas, um rapaz ou uma moça vestido com um macacão amarelo, com a inscrição nas costas “VARRIÇÃO”, eu presto atenção ao que ele(a) está fazendo e não posso deixar de refletir um pouco sobre aquela profissão.
Penso a “varrição” como um ato cultural, a Civilização contra a Natureza (as árvores que “sujam” naturalmente as ruas e avenidas em certas épocas do ano; a Cultura é uma forma de domínio e controle sobre a Natureza, tanto ‘interna’ como ‘externa’) e, em seguida, uma ação contra o próprio Homem, aquele que faz do espaço comum, da esfera pública, um… depósito de lixo, como se o lugar onde simbolicamente exercemos o que chamamos, muito superficialmente, de “cidadania”, fosse também o lugar onde jogamos fora o que não nos serve mais. Estranha – e, no entanto, compreensível, basta olhar para a história de nossas relações sociais! – RELAÇÃO ENTRE LIXO E PÓLIS!: o varredor é, para mim, uma metáfora da cultura, sobretudo quando se volta contra o incivilizado, o que destrói o Mundo Comum.
E como todo trabalho da Cultura, nosso Varredor (grafo com maiúscula, sim senhor!) age em silêncio, quase que “pedagogicamente”, tentando com seus gestos repetitivos, sua vassoura e sua cesta, nos chamar a atenção para os incivilizados que somos, mas que é, muitas vezes, invisível, inaudível, uma presença clamorosamente ausente. Imerso em sua absoluta solidão, repete o mesmo gesto, olhando para baixo, num nietzschiano eterno retorno do mesmo que, mal acaba de ser executado, tem de ser recomeçado porque alguém acabou de sujar o que foi mil vezes limpo… Como se o trabalho da Cultura fosse interminável, incansável, silencioso, invisível, uma finalidade sem fim! Um Sísifo urbano!
A ideia de limpeza urbana, se não estou enganado, começa com a “haussemannização” de Paris, sob o II Império (1851-1871), à época de Napoleão III, quando os grandes boulevards foram abertos, a cidade higienizada (com objetivos claramente políticos) e a “canaille” afastada para a periferia (“bidonvilles”). Ali começa um tipo de modernidade urbana que será descrito, por exemplo, por Charles Baudelaire com sua profunda inquietação sobre a multidão solitária e agregada (“O spleen de Paris”; ver também, nas “Flores do Mal”, “A uma passante”: a modernidade é o eterno no transitório!). Foi no país que inventou a República moderna (não falo de cidades-estado como Genebra, por exemplo), enquanto Nação republicana, que a Educação Nacional tinha a função (diferente da Instrução Pública) de nutrir o sentimento de pertencer a um Mundo Comum regido pela Lei. O que acontece com aquele que joga lixo nas ruas é algo que o antropólogo Roberto Da Matta já havia assinalado em seu memorável “A casa e a rua”: nunca soubemos exatamente a diferença republicana entre esfera pública e privada, e a “rua” não é o “público”: é o espaço de ninguém! Assim posso varrer “minha” calçada e deixar o lixo no cantinho do meio-fio, na rua, que não é de ninguém!
É nesse momento que chega aquele homem/mulher com um macacão amarelo exercendo sua função de AGENTE DA CIVILIDADE PÚBLICA: um alerta “amarelo” para nossa ausência de sensibilidade para a “res publica”. Daí para cima, já dá pra gente entender a corrupção, a depravação política, os orçamentos secretos, as emendas impositivas, a apropriação indébita, os desmandos administrativos, os “toma-lá-dá-cá”, os Centrões…
Todos os textos de Flávio Brayner estão AQUI.
Foto da Capa: Prefeitura de Recife

