
Você está vendo a coluna vertebral que ilustra essa crônica?
Uma vez, lá se vão mais de 30 anos, publiquei-a em um dos veículos (não tenho certeza se foi na revista “A Hebraica” ou no jornal “O Macabeu”) em que trabalhei no início da trajetória profissional. Abaixo, escrevi uma legenda: “Meu sonho sempre foi ter a minha própria coluna publicada em um jornal ou revista!”
Felizmente, cheguei depois a escrever mensalmente em alguns veículos as colunas “Humor de Graça” e “Só Rindo”. Também publiquei diariamente no Facebook a divertida coluna (ao menos para mim, já que me divertia bastante enquanto a criava) “Umazinha Só! Mas todos os dias”.
Mas foi só aqui na “Sler”, esse importante portal de respeito pelo debate de ideias e pelo texto, seja do tamanho que for (nestes tempos em que editores de jornais e revistas têm às vezes o disparate de dizer “escreva pouco porque os leitores não gostam de ler”) que finalmente pude, no ano passado, aos 62 anos, ter a minha sonhada coluna semanal.
Como confessei na minha coluna de estreia, “Precisamos dos outros”, escrever crônicas é, além de um prazer, uma necessidade. No texto, citei o poema “Mundo Grande”, do maior poeta do Brasil, Carlos Drummond de Andrade. Já na primeira estrofe, ele define a urgência que o artista tem em dividir seu mundo com os leitores:
“Não, meu coração não é maior que o mundo. É muito menor. Nele não cabem nem as minhas dores. Por isso gosto tanto de me contar. Por isso me dispo.
Por isso me grito.
Por isso frequento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias.
Preciso de todos.”
Meu sonho como cronista, além de, claro, ser lido e reconhecido, sempre foi que alguém dissesse nas mensagens dos leitores, nas redes sociais ou mesmo em encontros casuais na rua: “Mas isso que você escreveu eu também vivi!” Ou: “Nossa, aconteceu algo tão parecido comigo!”.
Além de falar sobre o que pensa e vive, o artista tem na crônica uma forma de resgatar do cotidiano aquilo que todos poderiam e podem ver.
Como é bom encontrar ou ao menos procurar a beleza que existe no dia a dia!
Escrever crônicas para a “Sler” me ajuda a observar ainda mais as pessoas e as situações. Sempre foi natural em mim, mas com a coluna se tornou ainda mais fundamental procurar nos cafés, filas e cenas de rua situações que são comuns, mas que nem por isso deixam de ser únicas e muitas vezes belas.
Ontem, entrei em um supermercado e vi uma cena que já havia me encantado outras vezes. Um pai, com a mulher ao lado, empurrava um carrinho, onde estava o filho – tinha lá seus quatro anos! – sentado em meio às compras.
A criança olhava maravilhada para os produtos. O homem parecia um tanto preocupado, imerso em seus pensamentos, como se conversasse com os próprios botões. Talvez estivesse pensando:
– Poxa, que pena que não tenho um carro novo. Como eu preciso comprar um carro do ano….
Claro que são só ilações. Confesso que ele podia estar pensando em tantas outras coisas. Talvez nem estivesse de fato preocupado. Mas o fato é que, para mim, ele parecia não saber que já tinha tudo. Que não percebia que a beleza do mundo e da vida se condensava naquele segundo, naquele metro quadrado, naquele instante mágico que vi à minha frente.
Um casal de velhinhos andando de mãos dadas pela rua!
Uma jovem com um livro nas mãos, sentada em uma cadeira à beira do mar e que só abandona a leitura de tempos em tempos para observar o pôr do sol!
Um casal de homens que passeia de mãos dadas, despreocupado, pelo shopping!
Esta semana, minha sobrinha Joyce e seu marido, Alysson, comiam uma pizza brotinho, de chocolate, que a pizzaria havia enviado de cortesia, junto ao pedido principal. Nosso sobrinho-neto, Benício, brincava no chão. Ao final, Joyce colocou-o no colo, junto à mesa.
Ele, do alto de seus dois anos de idade, olhou para o prato, apontou o dedo e exclamou:
– Cocô!
Todo mundo riu!
O cotidiano pode ser poético!
Tudo pode ser poesia!
Tudo ou quase tudo pode virar uma crônica!
Tenho agora, querida leitora, querido leitor, que interromper, meio sem estilo e sem jeito, o ritmo do texto para contar, com tristeza, que estou com graves problemas na coluna.
Não, não estou falando sobre a coluna vertebral que citei no começo do texto. É aqui mesmo: neste espaço da Sler.
A readaptação à vida no Brasil após alguns anos no exterior, a necessidade de priorizar os clientes da minha assessoria de imprensa e, também, de buscar novos clientes e trabalhos, a mudança de cidade e algumas questões relativas à saúde, têm ocupado quase toda a minha agenda. Isso faz com que eu não consiga tempo e concentração para fazer as crônicas com dias de antecedência e entregá-las no prazo combinado. Por isso, decidi interromper a colaboração com a Sler.
Agradeço a você que leu meus textos durante todos esses meses. Foi uma honra dividir espaço com tantos colegas brilhantes. A esses garanto que continuarei com meu hábito de, mesmo com a correria e obrigações diárias, começar todos os dias com um chimarrão e a leitura dos novos textos publicados no portal.
Nunca esquecerei desta experiência! Agradeço demais ao grande e notável amigo Léo Gerchmann, que me indicou, e ao competente e paciente editor Luiz Fernando S. Moraes, que sacrificou horas e horas de seus sagrados domingos para incluir as minhas crônicas que sairiam às segundas-feiras.
Quem tiver curiosidade poderá encontrar algumas crônicas minhas, inéditas, mas feitas sem o compromisso semanal, publicadas de tempos em tempos no Instagram e em outras redes sociais.
Oxalá eu tenha contribuído de alguma forma para que você veja a vida com mais leveza, sem que isso implique, claro, em falta de percepção e atitude diante das mazelas sociais e preconceitos odiosos que existem em nosso país e no mundo.
Repito.
Podemos tentar ver e contar a vida e o cotidiano com uma dose de beleza e bom humor.
“Tudo” pode ser uma boa história!
“Tudo” pode ser poesia!
Até mesmo uma flor feia.
Assim como na primeira, cito nesta última crônica o meu poeta predileto, Carlos Drummond de Andrade, com o trecho final de seu poema “A Flor e a Náusea”:
“Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor.
Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”
Todos os textos de Airton Gontow estão AQUI.
Foto da Capa: Acervo do Autor.

