
“Cuidado com os detalhes inevitáveis.
Cuidado com a ansiedade.
Abrace a desordem”
(do filme “Amigo”)
Aos sábados, me permito fazer nada. Explico: nada de compromissos, de tarefas laborais, de hora marcada. Só fazer o que me dá prazer, alegria e relaxamento. Ler, escrever, ver filmes, conversar com pessoas próximas e queridas, tomar sol e uma taça de vinho; às vezes, mexer no jardim, fazer uma caminhada. Um dia todo para mim.
Num sábado desses, daqueles nublados e chuvosos, assisti ao filme “Amigo”, dirigido por Scott McGehee e David Siegil, baseado no livro homônimo de Sigrid Nunez. Esse drama comovente sobre luto, amor, amizade e cura é estrelado por Naomi Watts e Bill Murray e está disponível no streaming. Naomi é Iris, uma escritora perturbada com o suicídio de seu mentor e amigo íntimo Walter (Bill Murray), que também é escritor e deixa de herança para a amiga o dogue alemão chamado Apollo.
Amado por amigos, colegas, familiares e leitores, Walter abdica da vida. A película retrata com sensibilidade o processo de luto de Iris e do melancólico Apollo, que é o mesmo de tantas pessoas que perderam amores e amigos para o suicídio. A dor de Iris não é verbalizada em grandes discursos. É materializada na presença do cão gigantesco no apartamento pequeno, cristalizando o luto: um peso enorme, desajeitado e inevitável que ocupa todos os cômodos da casa, forçando a protagonista a se mover ao redor da ausência.
Assim, o longa-metragem de 2024 remete à sensibilização providencial, atual e delicada no Setembro Amarelo: o suicídio. Para começar, o assunto não deveria ganhar vitrine somente neste mês, mas durante todo o ano. Os números são alarmantes, com milhares de casos anuais no Brasil e no mundo. Ao mostrar a protagonista deitada ao lado de um cão em luto, o filme expõe o que nenhuma estatística consegue medir: o eco devastador que a partida voluntária deixa no corpo de quem fica.
O suicídio é um problema de saúde pública. As políticas públicas precisam ser sérias e comprometidas, além do Setembro Amarelo, para acolher a pessoa com ideias suicidas, depressão, ansiedade ou em situações estressoras como separação, falência, perda de emprego; vítimas de eventos adversos na infância e adolescência, como o abuso. Todos que estiverem atravessando essas situações complexas e multifacetadas, com a ideia de que viver não tem sentido, precisam de ajuda profissional, autocuidado e apoio. O suicídio não pode ser contagioso.
No filme, há uma cumplicidade silenciosa, que a narrativa constrói sem recorrer ao sentimentalismo: a dor do cão e a da mulher não se comunicam por teorias, mas pelo encostar de corpos no chão da sala. Ambos compartilham a mesma desorientação de quem foi deixado para trás sem um adeus.
Lembro da canção do Cidade Negra: “No coração de quem faz a guerra/ Nascerá uma flor amarela como um girassol”. Nos conflitos internos é preciso buscar o sol, a luz, a chuva, resiliência e recomeços. Se permitir descansar, estar com pessoas queridas, o gato, o cachorro. Reservar, pelo menos, um dia para si. E mais: precisamos, todos, ser girassol para aqueles que estão com a noite dentro de si.
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Miriane Maria Willers é mestra em Direito, advogada pública do município de Santo Ângelo/RS e professora universitária. Escritora em permanente (des)construção.