
Em alguns de meus textos anteriores (A sociedade da exibição; Exibição como tecnologia de subjetivação e controle; e Exibição, obscenidade e negação da solidariedade), ponderei sobre como a exibição, sob a égide do capital, poderia atuar como mais um mecanismo de fragmentação das classes sociais, contribuindo para o aprofundamento de suas contradições internas e para a reprodução de uma consciência contrarrevolucionária.
O texto em questão apresentava, em sua tônica principal, uma perspectiva predominantemente negativa acerca do universo digital. Gostaria, portanto, de introduzir algumas ressalvas e ampliar a reflexão anteriormente proposta, atualizando seus pressupostos à luz de novas possibilidades de compreensão e intervenção nesse espaço. Em um primeiro momento, é necessário delimitar aquilo que compreendo como exibição nos moldes do capital: uma forma de exposição de si ou de suas ideias orientada pela lógica da mercadoria, pela propaganda característica da indústria cultural e pela transformação dos sujeitos em consumidores passivos de imagens, discursos e representações. Trata-se de uma dinâmica que tende a denotar e enfraquecer uma capacidade crítica dos indivíduos, subordinando suas experiências à lógica do consumo e da valorização mercantil.
Nesse sentido, a exibição acrítica (utilizo agora esse termo para definir uma exibição dentro dos moldes do capital) permanece vinculada àquilo que havia problematizado anteriormente: um espaço de reprodução da ideologia dominante, de enfraquecimento da consciência de classe e de submissão da classe trabalhadora às exigências do mercado. É nesse contexto que podemos estabelecer um diálogo com o conceito de unidimensionalidade, desenvolvido por Herbert Marcuse, segundo o qual a sociedade industrial avançada tende a integrar os indivíduos à ordem estabelecida, limitando sua capacidade de imaginar e construir formas radicalmente distintas de existência. Entretanto, seria insuficiente encerrar essa discussão apenas na dimensão negativa da exibição. Se, por um lado, o ambiente digital pode operar como instrumento de reprodução da dominação, por outro, ele também pode ser apropriado criticamente, convertendo-se em um campo de disputa ideológica, organização coletiva e possível emancipação. É justamente nessa contradição que desejo introduzir uma nova perspectiva: a possibilidade de uma exibição não contrarrevolucionária, mas emancipatória.
Em outras palavras, trata-se de utilizar uma ferramenta constituída e atravessada pelos interesses do capital para atingir suas próprias estruturas de dominação, expondo suas contradições e criando condições para a emergência de uma consciência crítica. Essa possibilidade tornou-se particularmente evidente no contexto das mobilizações políticas que atravessaram o segundo turno das eleições brasileiras. A intensa circulação de conteúdos, a mobilização de indivíduos e coletivos e a disputa em torno das narrativas políticas demonstraram que as mídias digitais não precisam operar exclusivamente como instrumentos de conservação da ordem. Quando apropriadas coletivamente e criticamente, elas podem favorecer a articulação de diferentes segmentos da sociedade, ampliar o alcance de pautas progressistas e contribuir para a construção de resistências à ascensão da extrema direita. Isso não significa ignorar os limites dessas ferramentas ou atribuir-lhes, por si mesmas, um caráter revolucionário, mas reconhecer que seus usos e efeitos são atravessados por disputas políticas e sociais.
Nesse sentido, o filósofo, cientista social e professor da Unicamp, Marcos Nobre, em participação em um programa do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), apresentou uma reflexão que considero assaz pertinente: a necessidade de pensar a constituição de um ‘partido digital’, entendido não necessariamente como uma organização partidária formal, mas como uma esfera de articulação política capaz de difundir ideias, conectar sujeitos e ampliar a presença das forças de esquerda no ambiente virtual. Essa perspectiva nos permite compreender a importância estratégica de disputar um espaço no qual a direita e a extrema direita construíram, ao longo dos últimos anos, importantes mecanismos de influência e mobilização.
É preciso reconhecer que a esquerda brasileira enfrentou dificuldades para ocupar esse território com a mesma intensidade e capacidade de articulação. Contudo, a mobilização em torno de figuras como André Janones, somada à participação de milhões de pessoas de diferentes segmentos sociais – estudantes, idosos, jovens, mulheres e população queer, entre outros grupos –, demonstrou a possibilidade de construir redes de circulação de ideias, afetos e posicionamentos políticos capazes de enfrentar a hegemonia conservadora. Nesse processo, abriu-se espaço para tensionar a lógica dos algoritmos e disputar a circulação de conteúdos em plataformas cuja estrutura econômica permanece subordinada aos interesses do capitalismo. Não se trata, necessariamente, de romper integralmente com essa lógica, mas de reconhecer que ela não determina, de maneira absoluta, todos os usos possíveis do ambiente digital.
É a essa modalidade de apropriação que proponho chamar de exibição crítico-emancipatória. Gostaria de ressaltar que não se trata da abordagem crítico-emancipatória, também inspirada nas concepções frankfurtianas e fruto da construção teórica de Eleonor Kunz, nos anos 1990. O termo que proponho não se destina a uma aplicação no campo pedagógico escolar, mas sim no campo virtual, com caráter revolucionário e crítico. Nesse sentido, o conceito designa a utilização consciente e politicamente orientada das ferramentas digitais para produzir contrapontos à ideologia dominante, ampliar a consciência crítica e favorecer processos de organização e transformação social. O adjetivo crítico remete à tradição da Teoria Crítica, segundo a qual o pensamento crítico não deve se limitar à descrição da realidade existente, mas interrogar as estruturas sociais que a constituem e as relações de dominação que a sustentam. Já a dimensão emancipatória diz respeito à possibilidade de transformar os meios de comunicação em instrumentos de contestação, formação política e construção de alternativas à ordem vigente. Essa apropriação, entretanto, não deve ser confundida com uma simples inversão de sinais: substituir conteúdos conservadores por conteúdos progressistas não garante, por si só, uma prática emancipatória.
É necessário questionar também as formas de exposição, a mercantilização da atenção, a transformação da política em espetáculo e os mecanismos que reduzem a participação coletiva ao consumo imediato de imagens e discursos. Uma prática verdadeiramente crítica precisa ultrapassar a visibilidade como finalidade em si mesma, convertendo a circulação de conteúdos em possibilidade de reflexão, diálogo, organização e ação coletiva. No atual momento histórico, portanto, já não me parece suficiente pensar a revolução apenas em suas dimensões externas, relacionadas à transformação das estruturas econômicas e sociais, ou internas, vinculadas à transformação dos sentidos, dos desejos e da sensibilidade, conforme as reflexões de Marcuse. É necessário reconhecer também a dimensão digital como um campo incontornável da disputa política contemporânea. Uma parcela significativa do capitalismo tardio expressa, reproduz e atualiza suas formas de dominação por meio das plataformas digitais; consequentemente, é também nesse espaço que precisamos construir instrumentos de resistência e emancipação. Isso não significa depositar nas tecnologias a esperança de uma transformação que depende da ação coletiva e das condições históricas concretas. Significa compreender que não podemos abandonar ao capital o monopólio da produção de sentidos, da circulação de ideias e da formação da consciência social.
Se o ambiente digital é um dos terrenos nos quais a dominação também se reproduz, ele também pode se tornar um espaço de enfrentamento, desde que sua apropriação esteja orientada por uma perspectiva crítica e por um compromisso efetivo com a transformação da sociedade. A questão, portanto, não é simplesmente exibir ou deixar de exibir, estar ou não estar no digital, mas compreender a serviço de quais interesses exibimos, quais consciências ajudamos a formar e quais possibilidades de transformação somos capazes de construir. A exibição, quando submetida à lógica da mercadoria, pode contribuir para a alienação e para o enfraquecimento das lutas coletivas. Quando criticamente apropriada, porém, pode favorecer a circulação de ideias contra-hegemônicas, fortalecer vínculos políticos e ampliar as possibilidades de organização da classe trabalhadora. A emancipação não está inscrita na ferramenta, mas nas relações sociais, nas práticas e nos projetos políticos que orientam sua utilização. Por isso, disputar o ambiente digital não é uma concessão ao capital, tampouco uma garantia de revolução: é reconhecer uma contradição do nosso tempo histórico e intervir nela. Se o capital utiliza as imagens para naturalizar a dominação, cabe a nós disputar sua produção e circulação para desnaturalizá-la, revelar suas contradições e contribuir para a construção de uma consciência capaz de transformar o mundo. Afinal, não basta ocupar os espaços de visibilidade: é preciso transformar aquilo que neles se torna visível em consciência crítica, organização coletiva e práxis revolucionária.
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Ralf Diego Silva de Souza é psicólogo, psicoterapeuta e docente no ensino superior. Participou do Programa de Mestrado em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e possui especialização em Psicologia Hospitalar. Sua produção intelectual e interesses de pesquisa concentram-se no campo da Psicanálise, com ênfase nas contribuições de Melanie Klein e Wilfred Bion, do Marxismo, da Teoria Crítica e da tradição da Escola de Frankfurt.