Há anos não como carne, mas amo escondidinho. Vegetariano, é claro. Sempre penso que deixar de comer carne é trocar a referência. A rigor, não vejo muito sentido em maquiar pratos como se a substituição da carne fosse imprescindível. A tentativa é sempre trocar o estilo. No entanto, por partilha ou por pressão social, às vezes sucumbimos ao churrasco sem carne, ao hambúrguer de falsa carne, entre outras comidas “sem” cuja inevitável referência é a carne.
No caso do escondidinho, toca em algo da palavra, creio eu. Da mesma forma, na infância, apesar de comer de tudo, não suportava a oferta de rabanete. Não quero! Não sabia nem a cor que tinha, mas a palavra me soava muito feia e eu não aceitava provar. Enfim, analistas analisem, mas aviso que não pagarei pela sessão. Por outro lado, escondidinho é surpresa, então, sinto um lúdico da palavra ressoando direto nesse prazer culinário. A boca que fala é a mesma que suga, lambe, succiona e, por fim, deglute.
Apesar da gula e de outros prazeres fronteiriços, esse é um escondidinho bem inocente. Inclusive, em época de tanta imposição de intimidade alheia, poderíamos valorizar o fato de que se mantenham certos recônditos escondidinhos. Um pouco de cada um no seu quadrado, sabe? Um pouco de não saber coisas que não perguntamos. Só que não fazemos assim, porém, ao contrário, temos múltiplos quadrados em nossas redes sociais. São vídeos, são fotos, são reels não tão reais: estamos demasiadamente enquadrados.
Como psicanalista, é óbvio que lido com escondidinhos alheios por efeito da profissão. Os nomes técnicos são privacidade e sigilo. Afinal, certos resguardos e segredos são importantes para organizar a vida. No entanto, existem outros escondidinhos bem mais perniciosos. Alguns nos chegam como escândalos na mesma internet. Carnes podres com capa.
Enquanto isso, a subjetividade, essa danada, parece até que ela se mostra. Na verdade, ela também se esconde atrás de postagens de Instagram, excesso de performances ou uma relação abrumadora. Perdi as contas das vezes em que lidei clinicamente com términos de relacionamento em que as pessoas ficavam muito perdidas, completamente à deriva, porque sua subjetividade estava subsumida na de um outre, cujo papel era exatamente este: existir por dois.
Coisas que escondemos de nós mesmos. No fim, é mais complexo do que parece esse tal escondidinho.
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