Tempos novos trazem consigo novas palavras: é o que nos diz qualquer manual de sociolinguística. Daí, pensando nas notícias (inclusive de jornais israelenses) acerca dos horrores praticados pelo governo de Benjamin Netanyahu sobre a população da Faixa de Gaza e as famílias dos sequestrados, e, refletindo acerca do histórico de violência do Hamas, até mesmo contra seus opositores políticos na própria Gaza (o Fatah), não consigo deixar de tentar atribuir uma palavra que se apresente como o significante correspondente aos sentidos desses pavores.
Por conta dos hábitos de ofício, as acepções de alguns verbetes atraem minha atenção. De igual modo, o exercício de atribuir uma palavra a um determinado fenômeno também me cativa. Ainda crédulo no que se lê nos compêndios de linguística, acredito que a emergência de um significante e seus possíveis significados diz muito do mundo que o engendra. Pois, esta é uma expressão da realidade sócio-histórica que o inventa.
Assim, ao acionar um qualitativo qualquer ao formular um juízo sobre o genocídio impetrado contra os palestinos e a insensibilidade sobre a parentela dos reféns do extremismo, sempre fica a sensação de incorreção ou inadaptação.
Poderia categoricamente dizer que tais ações são desumanas. São. Todavia, dado a abrangência do termo, a formulação fica vaga, não determina a especificidade de sua realidade: o vocábulo desumano cabe tanto para valorar barbáries cometidas por governos quanto para a exploração do trabalhador pela escala 6X1.
Em relação às condutas da atual administração israelense, há quem ainda a acuse de imperialista. Contudo, não é a velha prática colonizadora que está se dando ali: não há uma metrópole pretendendo estender à outra sociedade sua nacionalidade, e, muito menos, há uma cruzada catequética: não se quer converter muçulmanos à religião praticada pelo israelita Jesus.
Seria levado a classificar a referida administração e a política do Hamas como maquiavélicas. Porém, acho que fica aquém da efetividade dos crimes cometidos por Bibi (com mandado de prisão pelo Tribunal Penal Internacional) e pela nefasta tática dos terroristas. A questão é que tais atrocidades dão sinais de que não são meios para um propósito maior, mas que são fins em si mesmos. Ao se esmerar em bajular o poderoso clã de sua cittá, Maquiavel (que dá corpo ao citado adjetivo) aconselhava que o mandatário ponderasse os efeitos e consequências das vias acionadas em função da finalidade maior da ação, que seria preservar a mais ampla legitimidade de seu comando. Todavia, a sequência de conterrâneos protestos ao líder do Likud parece não atestar que a busca da aceitação ampla seja seu objetivo. E o mesmo pode ser dito da estratégia do Hamas, posto que não nos parece ter visado a construção da anuência ampla junto à sua própria gente quando, ao atacar Israel, jogou essa mesma população sob os riscos (calculados?…) da resposta israelense.
A monstruosidade do que se está fazendo com as pessoas de um lado e outro do muro de ferro poderia nos arriscar a qualificar essas ações como nazifascistas. Entretanto, apesar de algumas inclemências similares (confinamento de uma população em gueto, suspensão de distribuição de alimentos e o próprio genocídio), estamos tratando de um fenômeno com suas peculiaridades. Em linhas gerais, como já apontado por expoentes da Escola de Frankfurt, o totalitarismo daquela época era caracterizado pela racionalidade instrumental, a lógica da eficiente exploração do trabalho, típica do capitalismo industrial: o trabalho nos torna livres, era o que se lia na entrada do mais conhecido lugar de Holocausto. Nesta terceira década do século, porém, quando a geração de lucros se dá via ativos financeiros, o potencial da mão de obra da população de Gaza não é alvo de interesse, não se anuncia a transferência de nenhuma manufatura para lá: a exploração do trabalho não é cínico álibi e nem objetivo do plano. Por sua vez, para o Hamas, o povo de Israel é também um passivo a ser eliminado, não pretende convertê-lo ao seu modelo de sociedade e não tem projeto de exploração laboral a aplicar.
Diferente do que se vê nas práticas de invasão típicas do século passado (vide o que a Rússia faz na Ucrânia), em outubro de 2023, o terrorismo não tinha a mínima pretensão de agregar a região atacada. Igualmente, para o plano de Bibi (que parece ser aquele anunciado por Trump), a vida social que ocupa o território de Gaza não é considerada como um recurso: expulsa-se a população e especula-se o aproveitamento da área. Logo, a pretensão (repito) não é colonizar, é instalar um Hub de serviços: uma área delimitada onde se concentrem centros de empreendimentos imobiliários, turísticos e de lazer, articulados em profícua logística.
Esta contemporaneidade demanda expressões próprias, novos termos para o que lhe é peculiar. Por conseguinte, para qualificar o que ocorre em relação ao conflito em Gaza, precisamos de um significante que dê conta dos significados que conceitos como desumano, imperialista, maquiavélico e nazifascista não conseguem dar.
Então, a dificuldade que tinha em organizar em palavras o discernimento sobre o conflito foi resolvida com a emergência desse novo adjetivo, o sinal apropriado para a coisa: netanyarrico.
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Foto da Capa: Protestos em Israel / Reprodução do Youtube

