
Sempre que chega o período eleitoral, escuto pessoas com mais de sessenta ou setenta anos celebrarem a chegada de uma suposta alforria: “Graças a Deus, agora estou livre da obrigação de votar”. Escuto essa frase com um aperto no peito. Entendo o cansaço, entendo o desencanto com a política, mas não consigo deixar de pensar no perigo que mora nessa celebração.
Votar não é só cumprir tabela com o Tribunal Eleitoral. O voto é a linguagem da nossa presença no mundo. É a oportunidade de dizer para qual direção queremos que a vida siga — mesmo quando a maioria escolhe um caminho diferente do nosso. Renunciar a isso não é apenas se livrar de uma fila em um domingo ensolarado; é uma forma silenciosa de desistir de sonhar. Desistir por si, pelos filhos, pelos netos e pela construção da cidade e do país em que se pisa todos os dias.
Existe uma contradição doída nisso. Essa geração de eleitores 70+ viveu um dos períodos mais sombrios da nossa história recente e enfrentou anos de privação democrática até podermos votar plenamente de novo, a partir de 1989. Como é possível que pessoas que viram a democracia ser conquistada a duras penas agora aceitem abrir mão dela com tanta naturalidade?
Quando o mais velho se retira da urna, ele pratica o auto-idadismo. Ele valida a ideia perversa de que sua voz já não importa mais, de que sua experiência não serve para mais nada e de que o futuro pertence apenas aos outros. Ele se invisibiliza do processo decisório justo no momento em que a sua bagagem histórica deveria ser a bússola de toda a sociedade.
Mas a verdade é que o idadismo é um mal democrático praticado por gente de todas as idades. E ele se revela nos detalhes mais sutis e mais cruéis.
No primeiro turno dessa eleição, ouvi repetidas vezes o mesmo murmúrio indignado: “As filas estão demoradas por causa dos velhos, que não sabem mexer na urna eletrônica”.
Essa fala não é apenas desrespeitosa; é uma violência mascarada de impaciência.
Primeiro, porque é mentira: a imensa maioria das pessoas idosas hoje usa celular, acessa banco e navega no mundo digital com autonomia, mesmo não sendo nativas desse tempo. Segundo, porque, mesmo quando há lentidão, ela é humana. A velhice traz consigo o tremor nas mãos, a vista que embaça, o passo que desacelera. Ninguém escapa do tempo. Se tivermos a sorte de envelhecer, seremos nós, amanhã, os alvos do olhar atravessado de quem vem atrás.
Esses muxoxos na fila, as piadas maldisfarçadas e as caretas de impaciência são o reflexo de uma sociedade que tolera a pessoa idosa apenas enquanto ela fica guardada dentro de casa. Quando ela ocupa a rua, a praça e a seção eleitoral, ela incomoda porque lembra a todos da sua existência ativa.
É exatamente por isso que os 70+ não podem recuar. Eles precisam, sim, tomar conta das filas, ocupar as seções e fazer valer a sua voz nas urnas.
Votar na velhice é um ato de autodefesa e de amor cívico. É garantir a sustentabilidade das aposentadorias, a defesa de um SUS forte, a permanência da Farmácia Popular e a manutenção do SUAS. É exigir políticas públicas de cuidado e dignidade. Mas é, acima de tudo, deixar um legado: mostrar aos filhos e netos que envelhecer não significa perder o direito de decidir os rumos do país.
A velhice não é o fim da cidadania. É a sua fase mais consciente.