
Não foi fácil levantar da cama hoje pela manhã e sair de casa como se nada tivesse acontecido. Muito menos chegar à escola onde trabalho e disfarçar a sensação de ter falhado nos tantos anos dedicados à educação. Passei boa parte da minha vida acreditando que a leitura e a reflexão poderiam ajudar a formar cidadãos conscientes, capazes de questionar o mundo e fazer suas próprias escolhas. Hoje, porém, me pergunto até que ponto temos conseguido cumprir essa tarefa, já que muitas pessoas confiam piamente na desinformação compartilhada nas redes sociais.
Começo a escrever esta crônica um dia depois de cometer a rara exceção de dormir cedo em um domingo, quando a ansiedade costuma me impedir de pegar no sono. Exausta, desliguei a televisão e abandonei o celular antes que os números me trouxessem o resultado que se transformaria em um pesadelo nos próximos anos. Preferi dormir a acompanhar a apuração até o fim. Não foi exatamente uma escolha pela tranquilidade, mas uma tentativa de me proteger de uma angústia que eu já conhecia bem.
A dor que sinto hoje é diferente daquela de 2018, quando a polarização começou a dividir o país de maneira ainda mais explícita entre nós e eles. Naquele momento, eu temia o que poderia acontecer caso a extrema direita chegasse ao poder, mas ainda havia muitas pessoas que viam naquele candidato uma possibilidade de mudança, sem conhecer inteiramente o que sua eleição representaria. A manipulação religiosa e a disseminação de notícias falsas já faziam parte do cenário político, mas muita gente ainda acreditava que as promessas de campanha não se transformariam em ações de governo. Outros simplesmente enxergaram nele uma opção melhor do que as que estavam disponíveis.
Durante os quatro anos de mandato, tivemos a oportunidade de conhecer as consequências dessa escolha. Professores e estudantes foram alvo de ataques, artistas e jornalistas foram desqualificados, e a pandemia expôs de maneira brutal o impacto das declarações e decisões de um governante sobre a vida da população. Enquanto centenas de brasileiros morriam diariamente, o presidente promovia um medicamento sem eficácia comprovada contra a Covid-19, atrasava negociações para a compra de vacinas e debochava do sofrimento de quem enfrentava a doença. Depois, vieram as investigações e os desdobramentos sobre a tentativa de impedir a alternância de poder, que resultaram no seu julgamento e respectiva prisão. Ainda assim, parece que nem tudo isso foi suficiente para convencer uma parcela expressiva dos eleitores de que há razões concretas para rejeitar aquele projeto político.
Eu nasci numa época em que os brasileiros não podiam votar diretamente para presidente e o poder passava de um general a outro. Era pequena demais para compreender o significado de viver sob uma ditadura, mas lembro da comoção que tomou conta do país quando Tancredo Neves morreu, antes mesmo de assumir a Presidência. Ele havia sido eleito indiretamente pelo Colégio Eleitoral e seria o primeiro presidente civil após duas décadas de governos militares. Para muitos brasileiros, representava a esperança de dias melhores, a possibilidade de começar a escrever outra página da nossa história. Com sua morte, coube ao vice, José Sarney, assumir a Presidência e conduzir o país durante a transição democrática, que só se concretizou em 1989, quando os brasileiros voltaram a escolher diretamente seu presidente.
Saber que o filho do homem que zombou dos brasileiros enquanto esteve à frente do país venceu o primeiro turno e agora disputa o segundo me faz perder a fé na humanidade. Depois de tudo o que aconteceu, eu acreditava que o candidato sequer conseguiria alcançar um percentual expressivo de votos, muito menos chegar a uma disputa acirrada pela Presidência, prometendo alterar a Constituição Federal. Não consigo compreender que, depois de tantos acontecimentos, ainda haja tanta gente disposta a apostar na continuidade de um projeto político que deixou marcas profundas no país.
O que mais me entristece é perceber que a dor de uns não basta para despertar a consciência de outros. Que as ameaças à democracia e os ataques às instituições não foram suficientes para impedir que chegássemos novamente a este ponto. Que mulheres, professores, jornalistas e tantas outras pessoas que foram atacadas naquele período possam agora depositar sua confiança em quem representa a continuidade de um projeto que as colocou sob suspeita, desqualificou seu trabalho ou ameaçou seus direitos.
Também me assusta pensar que conquistas que custaram décadas de luta precisam ser defendidas outra vez. O direito ao voto, à saúde, à educação e à liberdade de expressão são direitos que podem ser enfraquecidos por decisões políticas, pelo desmonte de políticas públicas e por mudanças que restringem garantias fundamentais. Para isso, basta que interesses autoritários encontrem apoio suficiente para avançar, muitas vezes sob o discurso da moralidade e da defesa de valores que escondem a preservação de antigos privilégios.
Não foi fácil levantar da cama hoje e, certamente, amanhã a desesperança ainda estará aqui. Mas o tempo há de transformar a dor em força. O luto, que hoje é substantivo, há de se conjugar na primeira pessoa do singular e se tornar verbo. Eu luto. Lutarei. Pelas ideias em que acredito, pelos direitos que conquistamos, pela democracia que não quero ver adoecer outra vez.
PS: terminei de escrever esta crônica uma semana após ter começado. O tema foi tão dolorido que precisou ser digerido aos poucos.