Adolescente é um ser que naturalmente busca seu rumo e precisa se amparar em bases seguras, porque está no portal do baita desafio que é a vida adulta. Diante disso, frequentemente é muito arrogante, porque precisa se afirmar. Nada de novo nisso, mas vou me referir a um tipo muito especial de adolescente: aquele que buscava um rumo quando todo o país saía de uma ditadura e enveredava pelas incertezas da liberdade e das escolhas, ou seja, o indivíduo e o coletivo estavam na mesma busca e na mesma confusão. O adolescente daquela época tinha um potencial muito especial pra ser particularmente arrogante, dogmático, preconceituoso e mala. Exemplo? Eu! Até na música, a gente tinha implicâncias. Música “comercial”? Tá louco! Por melhor que fosse a sonzeira, o lance era gritar “rock an roll all night” e de preferência com cara de zangado. Até aqui, escrevo rindo, porque é realmente engraçado. Se penso nos arrependimentos que tive, estufo o peito e genuinamente asseguro que são poucos, muito poucos. Quando eu era criança, os adultos me perguntavam o que queria ser no futuro. E eu dizia “pai”, pro saboroso riso de todos, que me perguntavam repetidamente e ouviam sempre a mesma resposta. Quando adolescente, me perguntavam, e eu respondia “jornalista”. Tchê, além de arrogante, eu era previsível pra caramba. Hoje tenho dois orgulhos absurdamente maravilhosos: os meus dois filhos e a minha trajetória profissional.
Pai e jornalista, enfim. Até era arrogante, mas sabia das coisas…
Pois eu disse ali em cima que tive alguns poucos arrependimentos. Vou falar de um deles, e o motivo tem a ver com a arrogância de um adolescente que viveu em meio ao grito da liberdade depois de uma infância aos sussurros. Da opressão à vontade de viver e fumar tudo o que aparecesse na frente, restaram algumas cicatrizes. Quando eu era piá, falar em identidade étnica era caretice. Hoje, tenho a convicção de que ignorar essa identidade é a maior de todas as caretices, porque é uma falha, uma ausência de autenticidade, e a autenticidade é a característica mais tri num mundo de diversidades contrapostas à pasteurização. A maturidade me ensinou que eventualmente aquilo que o clichê determina como oposto na verdade é complementar. E digo um aparente paradoxo, certo de que é um paradoxo apenas aparente: as diferenças reforçam a igualdade, porque cada um deve ser respeitado em sua individualidade, e o ser humano é lindamente plural. Hoje, como um judeu de profundas convicções sociais-democratas, lamento ter sido só um “chanich” (“educando”, em hebraico), e não um “madrich” (“orientador”) de movimento juvenil judaico (o Dror, no meu caso), porque na época eu achava esse envolvimento com temas identitários uma tolice de caretas.
Você conhece os filmes do argentino Daniel Burman? O Woody Allen que me perdoe, mas nenhum cineasta judeu dialoga tanto comigo. Sou muito fã! Em especial, tem um filme do Burman que vi no mínimo três vezes: “O abraço partido”. O enredo mostra o protagonista Ariel (Daniel Hendler, sensacional) o tempo todo querendo se desvincular do cotidiano judaico no Once, com suas lojas, relicários e coloridos. O cara é um jovem judeu aborrecido e mordaz, como também éramos, que sonha com o passaporte polonês pra ser um europeu moderninho. Veja o filme e entenda como implicitamente ele amadurece. E isso é universal. Quando adolescente, eu me aborrecia com os tecidos que ajudava meu pai a vender como atacadista indo de fusquinha pela Região Metropolitana (aprendi a dirigir nessas viagens). Hoje, até o cheiro do fardo de um tecido me dá muita saudade e aquela sensação gostosa que teve o Proust tomando seu chá com bolinho.
Mas faço essa digressão e essa retratação como preâmbulo por haver aqui algumas datas convergentes. Estamos entre o Rosh Hashaná (ano novo judaico) e o Yom Kipur (dia do perdão), havendo em meio a eles os 80 anos do Dror, o movimento sionista e socialista que frequentei somente como chanich e lamento não ter sido suficientemente autêntico pra atuar como madrich. Meio que resgatei essa lacuna vendo os meus filhos serem dedicadíssimos madrich e madrichá. De certa forma, ser pai, aquele sonho tão antigo da minha infância que divertia os adultos, me deu essa oportunidade de voltar no tempo e participar da instituição que mais me aproxima do judaísmo, porque são jovens sionistas com uma visão ética solidária, e essa visão está na base do meu judaísmo (na verdade, na base DO JUDAÍSMO), o judaísmo em que Moises pela primeira vez escreveu “não matarás” e em que Hillel disse para não fazer ao outro o que não queres para ti.
Falemos sobre o Dror, então, que faz 80 anos neste 5 de outubro. E adianto que o conteúdo exposto aí embaixo é todo ele tirado de um livro: “Uma estrela no Pampa” (SLER Books), uma espécie de biografia muito ampla da federação israelita em particular e da coletividade judaica em geral. Se o autor do livro não gostar de ter o seu conteúdo usado dessa forma, o problema é dele, porque ele sou eu. Numa sessão de psicoterapia a gente resolve isso, tá, Léo? Ok, Léo. Usa à vontade, então. Se eu mudar de ideia e me revoltar muito, te xingo quando nos encontrarmos no espelho ou até te processo e deposito a indenização na minha própria conta bancária.
Então, lá vai.
Foi histórico o advento do movimento juvenil sionista-socialista Dror, criado por jovens judeus que participaram de encontro em Buenos Aires e tiveram intensa influência dos líderes argentinos. Era 5 de outubro de 1945, meses após o fim da Segunda Guerra Mundial e sob o sentimento de urgência para a independência de Israel. Evento marcante foi a presença em Porto Alegre, em 1946, do professor Isaac Haizman (que, sob patrocínio do Dror, falou sobre a continuidade do povo judeu no seu lar). Desse momento em diante, os participantes iam se multiplicando, atingindo as centenas e chegando a São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. Em maio de 1950, cinco anos após o fim da Segunda Guerra, seminário da Lapa, em São Paulo, tornou-se marcante. Na década de 1960, o Dror passou a existir também em Recife e Salvador. Em 1981, houve a fusão dos já próximos movimentos Dror e Ichud Habonim, como era então conhecido em Porto Alegre. Para quem viveu a juventude judaica até o início dos anos 1980, era usual chamar o movimento de “Ichud”. A metamorfose de nomes ocorreu assim: o grupo foi fundado na capital gaúcha como Dror, mas passou a ser Ichud Habonim. Tinha paralelamente o paulistano chamado Dror, e ambos eram autônomos. De qualquer forma, havia afinidades essenciais entre movimentos de mesma linha ideológica sionista e socialista, com pequenas variações quanto à forma de conceber os kibutzim e até a polêmicas questões de dedicação à “tnuá” (o nome do movimento em hebraico) _ pais imigrantes, de dura trajetória, recusavam-se a permitir aos rebentos deixarem de lado por um período a formação profissional, por se doarem à causa, por mais justa que lhes parecesse. Houve Ichud Hanoar Hachalutzi, Ichud Habonim, Dror Habonim e, finalmente, o Habonim Dror. Confuso? Nem tanto.
Afinal, a essência é sempre a mesma.
O Dror, sob qualquer nominação que tenha adotado, constitui-se de cláusulas pétreas: a importância de participar da criação do Estado judaico, educar as novas gerações, defender a legitimidade de Israel e, nesse lar nacional judaico, estabelecer um sistema de vida em que todos trabalhem de acordo com as suas possibilidades e ganhem de acordo com suas necessidades, com justiça social e liberdade.
Habonim Dror, em hebraico, significa “construtores da liberdade” _ havia dois movimentos de inspiração socialista que posteriormente apoiaram o Partido Trabalhista em Israel, o Dror (“andorinha” ou “liberdade”, fundado na Polônia, em 1915) e o Habonim (“os construtores”, fundado no Reino Unido, em 1929). E o Dror é exatamente isso. São jovens em permanente construção, sob valores judaicos pétreos, de solidariedade e liberdade. A base ideológica do Dror se assenta na expressão Tikun Olam (“conserto do mundo”, em hebraico), diante da convicção de que o mundo “está quebrado” e requer a busca da justiça e do igualitarismo.
Dentro do modelo perseverante, de sionismo trabalhista e socialista, é marcante o modus operandi do Dror: o movimento se mantém pelo próprio esforço, estimulando a sensação de pertencimento. Mais adiante, lendo sobre Aron David Gordon, você entenderá por que essa mentalidade é essencial no cotidiano do movimento.
Um antigo integrante do Dror contou a este autor, emocionado, sobre o dia em que despertou sobre a essência desse movimento sionista e socialista: foi no dia em que ele e os demais chanichim colocaram seu dinheiro numa caixinha, e dessa caixinha tiraram o que era suficiente para todos irem juntos ao Armazém Internacional (atual sorveteria Cronks). Cada uma das crianças comprava aquilo de que mais gostava com o dinheiro de todos.
Breve perfil dos dois idealizadores do Dror: Aron David Gordon, nascido na Rússia em 1856, fez aliá em 1904, aos 48 anos. Atuava em movimentos sionistas-socialistas e erigiu as bases do movimento que pregava a volta dos judeus a Israel e ao trabalho agrário. Acreditava que arar, plantar e colher são atos essenciais. Via no trabalho agrário o símbolo de mexer na terra e criar vínculos de pertencimento. Isso se entranhou no espírito do Dror, que preza o trabalho coletivo e a construção do movimento pelo trabalho dos seus integrantes. É um dos pais dos kibutzim, com suas sociedades coletivas, promovendo a igualdade entre homens e mulheres. Gordon se dividia entre trabalhar no campo e escrever suas impressões, em textos teóricos basilares sobre o socialismo sionista. Já Dov Ber Borochov, nascido na Ucrânia em 1881, foi o fundador da tese do proletariado judaico em Israel. Pela sua teoria, o povo judeu se estruturava numa pirâmide invertida, onde a parte mais larga estava no alto, representando comerciantes, profissionais liberais e gente ligada ao setor financeiro, enquanto o vértice estava embaixo, era o operariado. Borochov via isso como uma anomalia e pregava a inversão da pirâmide, com base operária para a construção de uma nação judaica livre, igualitária e socialista. Sua visão de socialismo é a origem dos movimentos sionistas de esquerda em geral. Seu nome também se vincula ao Hashomer Hatzair.
Seguem depoimentos de ícones históricos do Dror, retirados do livro “Fragmentos de Memórias”, cujo autor é Avraham Milgram, o Tito, coordenador do Yad Vashem, o Museu do Holocausto, em Jerusalém:
Oscar Zimmermann (Chico): “O movimento juvenil foi um fator preponderante na cristalização da personalidade cultural dos seus membros. (…) O Dror, no Brasil, formou-se nos anos pós-guerra. Para ser exato, em 5 de outubro de 1945, em Porto Alegre. Mas logo a direção nacional foi transferida para São Paulo. Devemos nos lembrar de que os eventos dessa gênese exigiriam um pano de fundo daquele ambiente. Da revelação trágica do Holocausto e das grandes esperanças do povo judeu querendo uma pátria, além de outros sonhos e anseios da redenção social, vivíamos um ambiente efervescente de discussões, de despertar de consciências, de busca de identidade.”
Paul Singer: “Eram idos de 1948 quando fui convidado a entrar no que na época era um movimento juvenil sionista-socialista. Foi pouco antes ou pouco depois que a partilha da Palestina foi aprovada pela ONU e se proclamou o Estado de Israel. Havia compreensível euforia entre os judeus de todo o mundo, misturada pela preocupação pelo que poderia resultar da guerra que o novo Estado travava com os vizinhos árabes”. (…) “O Dror era herdeiro de uma tradição política originada no início do século, a do Poalei Zion (partido sionista marxista). Mas ela tinha sido interrompida brutalmente pela guerra e pelo Holocausto. Naquela altura, estávamos politicamente ligados ao Mapai, o partido de Ben-Gurion e que governaria Israel nas primeiras décadas da sua existência. Era necessário reformular os princípios sionistas socialistas para a época contemporânea, e metemos a mão na tarefa com a chutzpá (sem-vergonhice) e a ingenuidade dos jovens. Faltava-nos formação, assim passamos a ler furiosamente”. (…) “Minha passagem pelo Dror foi um momento absolutamente decisivo em minha vida, posso dizer que sou o que sou em grande parte por aqueles quatro anos, dos 16 aos 20 anos, de 1948 a 1952”.
Há depoimentos de outros integrantes de destaque na vida pública brasileira, em especial na esquerda, como Bernardo Kucinski (que define o impasse israelo-palestino como “o espinho atravessado na garganta”), Alberto Dines (“O Dror foi a coisa mais importante que aconteceu na minha vida”) e Abrão Slavutzky (“Era minha segunda família”).
Em seu alentado e emotivo depoimento, Dines fala sobre a fundação do Dror no Rio de Janeiro, sempre lembrando suas origens gaúchas no Brasil: “O Dror de Porto Alegre foi fundado com a ajuda dos companheiros argentinos. Aliás, muitas entidades, iniciativas e ações do judaísmo brasileiro nasceram ou foram inspiradas pelo ishuv argentino. Porto Alegre, embora contasse com uma comunidade muito menor que a do Rio ou de São Paulo, contou sempre com o apoio e a inspiração da fortíssima e antiga comunidade portenha.” E há uma reminiscência curiosa de Dines, o cultuado jornalista que fez história na imprensa brasileira: “Em 1948, apareceram em minha casa dois jovens do Rio Grande do Sul: Efraim Bariach e Maurício Kersz. O pai de Bariach, emérito hebraísta, era professor da escola judaica em Porto Alegre e amigo do meu pai. Efraim e sua mãe vieram no mesmo navio em que vieram minha mãe e meu irmão, também Efraim. Os dois shelichim hospedaram-se em minha casa por um mês: vieram fundar o Dror no Rio. Como o meu pai era membro do Diretório Nacional do Poalei Tzion e eu já frequentava o núcleo inicial do Dror carioca, a escolha da minha casa foi natural”.
Célia
Nesta quinta-feira, faleceu a Célia Ribeiro. Pros mais desavisados, era uma jornalista que se ocupava de temas fúteis. Nada disso. Era uma grande mulher e uma grande jornalista. Meu primeiro contato com ela foi quando tivemos aula de “Etiqueta” (até isso tinha) no concorridíssimo Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado da RBS em 1990. Pra minha surpresa, a primeira aula dela mostrava que a raiz da palavra “etiqueta” é “ética”. E foi um show de bom senso que me rompeu alguns preconceitos em relação à querida professora com quem depois (na redação) tive a honra de conviver.
Aí fomos ter uma aula prática num jantar só pra nós do curso no Plaza São Rafael. Na sobremesa, um sorvete tri bom, perguntei, de sacanagem: “Célia, posso pedir repeteco pro garçom?” “NÃÃÃÃÃÃOOO!!!”
A gente aprendia de tudo com os mestres e se divertia, sempre com muito carinho.
…
Shabat shalom e shaná tová!
Todos os textos de Léo Gerchmann aqui.
Foto: reprodução (emblema do Dror)

