Cresci numa cidade que gosto de chamar pelo nome clássico: Taquara do Mundo Novo. Fica na parte baixa da encosta da serra, tradicional caminho para quem sobe de Porto Alegre a São Francisco de Paula.
Os Campos de Cima da Serra guardam proximidade com os céus, largos horizontes, histórias, sagas, travessias. Sempre respeitei um misto de solidão e amplitude que o pessoal daquelas bandas — São Chico, Cambará, Tainhas, Jaquirana, Bom Jesus, Cazuza Ferreira, Ausentes — parece trazer no olhar e n’alma.
De lá vinham, no inverno, os pinhões. Sapecados na chapa do fogão a lenha e que o meu pai descascava com o canivete, enquanto contava causos dos tempos de caixeiro-viajante. Admirava a destreza: um corte longitudinal e o pinhão inteiro, perfeito. Eu gostava de combiná-los com o mel branco, inigualável, também daquelas paragens. Pelos mesmos caminhos desciam as boiadas que vinham “pegar o trem” na Estação ao lado de nossa casa. O som do tropel nos paralelepípedos regulares da Tristão Monteiro ainda ecoa em minhas madrugadas.
É daquelas mesmas altas planuras que vem Lelei Teixeira. Ela é a autora de “E fomos ser gauche na vida” (Pubblicato Editora), obra que se revela uma preciosidade. A primeira edição é de 2020. A segunda, de 2022, é dividida em duas partes.
Na primeira parte, uma verdadeira epopeia de duas irmãs. Lelei assumiu o compromisso de escrever o livro que havia idealizado com a irmã Marlene, após a sua morte em 2015. É uma história envolvente. Relatos de uma infância em que não faltou família. De juventudes combativas e plenas. De aventuras, algumas rocambolescas, peripécias, viagens, experiências afetivas. Manifestações, passeatas e até folias carnavalescas. Situações que não eram apenas paralelas a acontecimentos históricos, culturais, sociais e políticos, mas frutos de engajamentos e convicções. Vivências e saborosas — e acres — referências de um tempo e de personagens que ainda marcam gerações. Não faltam abraços, mas também vilanias e literais apedrejamentos.
As irmãs tornaram-se profissionais reconhecidas por suas competências. Marlene, professora de linguística, acadêmica dedicada. Lelei, jornalista, assessora de comunicação com passagens nos principais veículos públicos e privados de Porto Alegre.
Todo esse relato é marcado pela pulsão de vida e nos arrebata. Sentimo-nos partícipes de cada alegria e tristeza, vitória e frustração. E há também um propósito. Marlene e Lelei aprenderam, por força de circunstâncias, a ver o mundo por uma ótica que as fez solidárias a todos os “gauches na vida”.
Aqui chego à segunda parte do livro. É uma compilação de artigos, impressões, inquietações, análises lúcidas e estranhamentos do nefasto período da pandemia. Mais trágico e patético pela incompetência, irresponsabilidade e absurda falta de empatia de autoridades constituídas. De uma maneira ou de outra, esse tempo, além do medo, fez com que todos nos sentíssemos excluídos.
Da soma dessas duas partes de um livro imprescindível, com rara sensibilidade, Lelei opera o fenômeno da “inclusão inversa”. O nanismo da autora e de sua irmã incita-nos a rever preconceitos antigos, transgeracionais, afeitos a estereótipos tão pobres quanto perversos. — Ah, eu não havia falado do nanismo das manas? Não é o que mais importa, embora determinante. O que resulta é o que elas nos ensinam.
A foto que serve de ilustração para a capa do livro é da artista visual Mariane Rotter (Meu ponto de vista: Check-in, Unser Haus, série Banheiros, 2017). Nela se vê uma pia e um espelho onde se percebe o reflexo da parte superior da cabeça de alguém que não consegue se enxergar. O resultado é revelador. Mesmo olhando atentamente, não podemos reconhecer quem é. Mas o que somos também não se reflete nesse espelho.
E assim como naquela história de Eduardo Galeano, que a certa altura a autora rememora — do menino que o pai levou para conhecer o mar —, defronte à imensidão, nos damos conta de que nem é preciso pedir: Lelei nos ajuda a olhar.
Todos os textos de Fernando Neubarth estão AQUI.
Foto da Capa: Mariane Rotter / Reprodução da capa do livro “E fomos ser gauche na vida”

