1. O ponto é o seguinte: você não vai se comover com este texto. Pelo contrário, talvez até se incomode porque ele, não que seja necessário, vem em defesa da arte, ou quase, de se fazer listas. Listas do que você puder imaginar: de compras, de reuniões, de maravilhas, de erros, de transas, de afetos, de desafetos e até do que não se pode listar de maneira ordenada, uma lista, no caso, bastante peculiar. E este texto vem em defesa porque eu, ré confessa, tenho verdadeira obsessão por escrevê-las. Meu segundo romance, Bonequinha de Lixo, está escrito, ainda que eu não tenha colocado números em frente às frases, como se fossem anotações em um bloco de notas. É bem verdade que, pelo menos, 1/3 dele escrevi no meu celular. E eu assim fiz por paixão. Minha lista mais antiga é a de paixões. Uma lista sempre aberta porque, se tem uma coisa interessante sobre listas, é que é possível alterá-las e aumentá-las, como fazemos com nossas sinapses.
2. O ponto é o seguinte: você vai se comover com este texto porque, além de defender, não que seja necessário, e elenque tipos de listas, ele vai trazer algumas ideias, não exatamente novas, mas interessantes para aqueles que, quando colocam itens em uma lista, a veem como um copo já meio cheio e não meio vazio que pode ser bebido até o último gole e novamente preenchido até a pessoa cair embriagada. Para tanto, trago algumas referências. Referências estão intimamente ligadas ao ato de listar. Bibliografias, prateleiras, estantes, personagens, narradores, autoras e autores, todo o universo incontrolável dos livros está. Umberto Eco, por exemplo, estudou a fundo esse tema. Se você nunca leu nada dele, aproveite a dica, anote o nome e vá atrás de seus livros. Na minha lista de leituras umbertianas, eu coloco O Nome da Rosa como a leitura obrigatória, depois o Baudolino e, em terceiro lugar, acho que o A Vertigem das Listas, livro que está aqui, ilustrado, lindo e inteligente, ao meu lado enquanto escrevo e que explora como elas aparecem na história da literatura desde o grego Homero, ou seja, como elas foram elaboradas, entre poemas e narrativas, nos últimos três mil anos, e como nos impactaram emocionalmente. Segundo Eco, não colocar algo em uma lista pode ser tão excitante quanto colocar.
3. O ponto é o seguinte: você não vai se comover nem não se comover com este texto. Você vai é se incomodar, como eu falei logo na primeira frase do primeiro parágrafo ou item, porque, veja, estou a listar pensamentos e informações. E vai se incomodar porque, como escreveu o jornalista Roger Lerina em sua coluna em ZH, você pode fazer parte do grupo que “não lida bem com a ideia de hierarquizar as coisas, destacando algumas e deixando outras de fora”, ainda mais quando se trata de arte e de cultura. Lerina sente angústia, mesmo reconhecendo que “as predileções subjetivas são impermanentes e não necessariamente excludentes”. De acordo com ele, lista é uma espécie de ranking arbitrário, coisa que não discordo, e inevitavelmente injusto, coisa que discordo um pouco e que, dependendo de qual conteúdo, é provável que ele também levante interrogações. O fato é que, mais ou menos dentro de como funciona uma lista, a coluna de Lerina está condicionada a um número de linhas que ele pouco, se é que pode, deve ultrapassar. E quem escreve sabe o quanto é desafiador ter limites de qualquer natureza, diga-se nem tão de passagem, para desenvolver diferentes pontos de vista em um texto.
4. O ponto é o seguinte: você não vai se comover, nem não se comover, ou tampouco se incomodar com este texto. Você vai é pensar se você gosta ou não de listas e se elas são ou não importantes e vai porque elas podem tomar uma dimensão shakespeareana, como a de ‘ser ou não ser’ ou a de um ‘a quem salvar’, como se viu, de verdade, o alemão Oskar Schindler em meio ao obsceno e assassino regime nazista. E aí, temos todos de concordar, de A a Z, que uma lista, como escreveu o Lerina, pode ser injusta se não contemplar ou alcançar a todos. Na de Schindler, foram colocadas cerca de 1200 pessoas. Muitas ficaram de fora ou renunciaram a ela, como foi o caso da jovem Hertha Spier. Sua história está retratada no impactante livro A Sobrevivente A21646. Escrito a partir de seus depoimentos pelo romancista Tailor Diniz, a obra relata os anos em que ela viveu o horror dos campos de concentração e o momento em que ela, por não poder colocar, na lista, também o nome de sua única irmã ainda viva, prefere permanecer ao seu lado. Uma decisão admirável, de uma nobreza de espírito rara. Com exceção de Hertha, toda a família Spier foi assassinada pelos nazistas.
5. O ponto é o seguinte: não sei você, mas eu, que li o A Sobrevivente A21646, sinto um peso perigoso no peito. Então, para mudar a vibração ou me blindar psiquicamente e finalizar este texto com menos sofrimento, neste item 5, trago uma ficção, ainda sem título, que escrevi. Dê você um nome se gostar:
Fiz uma pequena lista de saudades para você ou sobre você. Na verdade, uma lista contendo outras possíveis listas. Organizada e desorganizada conforme o que minha mente dá conta. Minha mente, assim como o meu corpo, de vez em quando treme por não saber para onde afinal estou indo. Eu me digo a toda hora que estou indo ao seu encontro. Repito por acreditar e por não acreditar. Venho perdendo peso e fé. Todas as semanas, pedacinhos de crença se soltam. Minha esperança é que alguém recolha os caquinhos antes do ar consumi-los e um dia me devolva, como na música Vitrines, em que alguém cata a poesia entornada no chão. Segue a lista do que me falta: Meus livros. Seus livros. Meus discos. Seus discos. Todas as nossas fotografias. Nossos cafés da manhã e da tarde. Os almoços, os jantares e as fomes súbitas. Arrumar nossa cama sozinha. Desarrumá-la com você. Ir ao cinema dormir no seu ombro. Dormir em casa, sobre, sob e grudada no seu corpo. Rir. Rir com você, de você, de mim, de nós. Rir também dos estranhos e para os estranhos. E de ver e ouvir gente rindo sem máscaras de qualquer tipo.
6. O ponto é o seguinte: o ponto final. Até a semana que vem!
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