Há duas décadas, em uma entrevista concedida a um programa de televisão, o ator Morgan Freeman pronunciou uma frase que, ano após ano, volta a ganhar fôlego nas redes sociais. Na ocasião, o artista norte-americano posicionou-se contra a criação de um mês dedicado à Consciência Negra e declarou: “O dia em que deixarmos de nos preocupar com consciência branca, negra ou amarela e passarmos a nos preocupar com a consciência humana, o racismo deixará de existir”. Desde então, no Brasil, conservadores e simpatizantes da extrema direita passaram a compartilhar esse trecho como argumento para deslegitimar o sistema de cotas e outras políticas de reparação, utilizando essa fala como um escudo para suavizar ou justificar manifestações de racismo. Freeman já reconheceu ter revisto sua posição e não sustentar mais aquelas palavras. Mesmo assim, o vídeo continua a se espalhar, frequentemente impulsionado por interpretações enviesadas, muitas das quais deturpam a declaração original do ator.
A “consciência humana” defendida por esses grupos costuma vir acompanhada de slogans como “todos temos as mesmas 24 horas” ou “trabalhe enquanto eles dormem”, como se todos partissem do mesmo ponto ou tivessem acesso às mesmas oportunidades. Quem reproduz essas ideias não leva em conta a luta do povo negro para resgatar a dignidade depois de séculos de escravidão. Não conhece a sua dificuldade de conquistar espaço em uma sociedade que os oprime. Instituído pela Lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011, o Dia da Consciência Negra passou a ser celebrado em 20 de novembro, data que marca a morte de Zumbi dos Palmares. Sua oficialização reforçou o propósito de transformar esse dia em um convite à reflexão sobre a trajetória, a resistência e o legado da população negra na formação do Brasil. A partir daí, ampliou-se na sociedade o movimento de recuperar personagens essenciais da nossa história e de reconhecer a força de manifestações culturais que, por séculos, sobrevivem à margem.
O Brasil que se ergueu até aqui tem alicerces fincados no esforço de pessoas negras e suas mãos calejadas, seus corpos que ainda aguardam reconhecimento pelo trabalho forçado, os seios que nutriram os filhos dos senhores enquanto os seus eram arrancados do afeto. Homens e mulheres que, mesmo privados de liberdade, deixaram evidências na cultura, na língua, na culinária, na música e na espiritualidade. São essas marcas, forjadas na dor e na resistência, que moldam a nossa identidade e sustentam o país que hoje somos.
Para minha surpresa, neste ano fui convidada a escrever a quarta capa de um livro que resgata a história de uma dessas grandes personalidades. Revisitei então, com outros olhos, um episódio que conhecia, vagamente, desde os tempos de escola (mais um reflexo do apagamento constante do protagonismo negro em nossa cultura). O romance biográfico João Cândido: sonho e castigo, de Mário Pepo Santarém, reconstitui a vida do Almirante Negro, líder da rebelião militar que abalou o Rio de Janeiro no início do século XX. Naquele período, oficiais brancos da Marinha ainda impunham aos marinheiros negros punições cruéis e humilhantes, numa prática que, na essência, ignorava a recente Abolição da Escravatura.
A Revolta da Chibata emergiu como resposta direta a esses métodos, denunciando a violência institucionalizada e reivindicando dignidade para aqueles que, mesmo após a liberdade proclamada, continuavam sendo tratados como se nada tivesse mudado. Mário Pepo narra essa trajetória com precisão e sensibilidade, destacando não apenas os fatos históricos, mas também as tensões que marcaram a vida de João Cândido. Ao revisitar essa história, torna-se impossível ignorar o quanto ainda precisamos conhecer os eventos que moldaram o Brasil. João Cândido, assim como tantos outros homens e mulheres negros, pagou um preço alto por exigir aquilo que deveria ser inegociável.
Neste 20 de novembro, lembrar essas trajetórias não é apenas um exercício de memória; é um compromisso com o presente. É afirmar que a luta contra o racismo não se encerra em discursos vazios sobre “consciência humana”, mas se fortalece no reconhecimento das dores e da resistência daqueles que ainda não receberam o reconhecimento merecido.
Para concluir, deixo aqui o texto que escrevi para a quarta capa da segunda edição de João Cândido: sonho e castigo como um convite para que você se aproxime desta obra esclarecedora e necessária.
Quantas vezes uma história precisa ser contada até que finalmente seja ouvida? Há quem defenda que o passado deve permanecer onde está: enterrado, quieto, esquecido. Como se o presente fosse uma terra sem raízes, e o futuro, algo que se constrói ignorando os alicerces. Mas a verdade é que, quando uma nação silencia suas memórias, as dores mal curadas voltam a doer. E voltam, quase sempre, disfarçadas de novidade. Isso acontece quando manifestantes clamam pelo retorno da ditadura militar. A sombra da repressão lhes oferece abrigo porque, para eles, os porões, a censura, os desaparecimentos não passam de lendas mal contadas. A história não cansa de avisar: aquilo que não se reconhece repete-se. E repetir o erro é a forma mais trágica de não ter aprendido nada.
João Cândido: sonho e castigo, de Mário Pepo Santarém, é uma dessas obras que nos tiram da inércia. Ao narrar a trajetória do Almirante Negro, líder da Revolta da Chibata, o livro nos obriga a olhar de frente para a brutalidade de um país que se diz livre, mas que ainda açoita. A luta de João Cândido contra os castigos físicos na Marinha — uma herança direta da escravidão — expõe o racismo estrutural que atravessa os séculos e se atualiza de formas tão perversas quanto silenciosas. A perseguição que ele sofreu, o cárcere, o esquecimento, não são apenas páginas viradas: são feridas abertas que se estendem até os dias de hoje, quando jovens negros continuam sendo mortos, humilhados e calados nas bordas da sociedade. Contar a história de João Cândido, então, é mais do que um resgate: é um gesto de justiça. Um chamado à memória, para que ela nos ajude a não aceitar o inaceitável — nem ontem, nem hoje.
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Foto da Capa: João Cândido (1963) / Arquivo Nacional

