Júlio Reny não faz concessões. Nunca fez. Faz arte acima de tudo, breu e neblina explodindo sobre as ruas planejadas até então. Depois, é um instante de claridade e seus ecos eternos de bateria. Rock acima da arte. Sem risinhos. Nem mimimi. Nem apertos de mão. Sem afagos ao Senhor diretor.
Rock, rock garagem palpitante, não o que saiu de si para a fama, a grana, o camarim milionário. Rock raiz, de adolescente inconformado sem topar não a vida como ela é – e, assim, a salva e se salva e nos salva –, mas como os adultos a fizeram: desigual, injusta, comezinha, sem rock, meia boca, todos os dentes na boca para digerir a bosta, em meio à fome do mundo que não a contém. Amor e morte. Amor e morte. Amor e morte, eu e você.
Você não tem muita chance. Você que manda flores. A vida é como um espinho que a arte finca na pança do burguês, o burguês níquel, o burguês de Porto Alegre, esta cidade já pequena para nós, em ruas hoje sem nuança bonita, e que varreste, Júlio Reny, com as tuas mãos esquisitas de rockeiro, feitas para os sons e suas pancadas de uma melodia úmida, quando chove no sul.
Há olhares no salão principal do clube sem rock. Há pompa e, até mesmo, beijo. Mas no seu beijo falta corte. Mas no seu beijo falta corte, como falta Toddy nas ruas de garis famintos acariciados por um cachorro de costas aos olhos do dono. E, fora dali, só resta o rock, esta última metáfora na trincheira de um mundo denotativo, predador. Não, Júlio Reny, tu não te adaptaste, logo a esperança segue em riste em tua sombra, no paletó do cartório, no negócio fechado, no lixo e seus homens vasculhando no lixo. Um símbolo não morre nem para o general de Borges, que segue em riste, como o teu troféu Açorianos, não para agradar nem guardar, cheio do pó da estrada, amor e morte, amor e morte, amor e morte.
O sol da manhã bronzeou os corpos burgueses. Não, não chores, Júlio Reny, um coração partido não é o fim da tarde. E são tantas ilusões a nos redimir. Nossos sentimentos são anjos e demônios nesta solidão de um Sahara ao Sul. Do som ao breu, do breu ao sol, do hospital ao beijo, quando era 73 — e é ainda —, Anita, menina linda, na suave brisa do Pacífico no Atlântico, molhar, molhar, olhar, olhar e depois chorar de mágoa, mas já é a revolução, e um símbolo não pode parar.
A noite veio com uma lua meiga. O resto da alma ainda descansa nos teus olhos feridos. Dispense a lua, baby, e me dê. E me dê amor e morte.
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Foto da Capa: Júlio Reny / Reprodução do Youtube

