Algumas pessoas me perguntam por que adotei a figura do centauro nos meus perfis do Facebook e do Instagram. Como diria o Mário Fofoca nas suas hilárias reflexões (que saudade de atores que marcaram as nossas vidas, como o Luiz Gustavo!), “pergunto eu e respondo eu mesmo”: porque o centauro no jardim é um símbolo poderoso do cara que não se enquadra no mundo cotidiano. No caso específico (e também é o meu caso) do livro de Moacyr Scliar, é o judeu, mas o tema é universal, e eu me enquadro nele sob diversas modalidades.
Comecemos pela condição judaica, mas vamos à ideologia e chegaremos até o futebol:
1) Judeu. O judeu é, ao lado dos negros, seguramente a minoria, em termos de povo, mais perseguida da História Humana. Nada se iguala à escravização que arrancava as pessoas da sua vida na África ou à Shoá, quando 6 milhões de judeus (⅓ dos judeus no mundo e ⅔ da Europa) foram exterminados simplesmente por serem quem eram, grupo que precisava ser eliminado numa solução final e que também foi desgarrado à força da sua terra, a antiga Judeia, a Terra de Israel. No caso do judeu, que necessariamente é sionista (sou radical nisso, porque o simples gesto de, desde 3 mil anos, rezar voltado para Jerusalém é uma ação sionista, ainda que não no sentido político), o cara é um estranho. Amos Oz conta do pai dele, que fugiu dos pogroms da Lituânia para Eretz Israel no início do século passado (antes da refundação de Israel, em 1948) e voltou já idoso para uma visita. Quando saiu da sua Vilna natal, via paredes pichadas com os dizeres “judeus, vão pra Palestina” (Palestina é o nome dado pelos expulsores romanos à antiga Judeia); quando visitou nostálgico a sua cidade, creio que nos anos 1980, viu as mesmas paredes com a pichação “judeus, saiam da Palestina”. Ou seja, “não existam”. Mais ou menos isso é ser um centauro. É o cara perseguido, discriminado e incompreendido, sem lugar (quando escrevo sobre isso, preciso ressalvar que sou contra a violência e defendo o Estado Palestino ao lado de Israel).
2) “Progressista”. Uso o termo progressista entre aspas porque me dizer de esquerda ou centro-esquerda pode induzir o leitor a concluir que estou falando de partido político. E é justamente esse o problema. Os partidos políticos que trazem uma visão ideológica coincidente com a minha, de regulação das individualidades para conter a ganância e que haja Justiça e uma verdadeira liberdade, inclusive no sentido do empreendedorismo, não podem me representar. Motivo: estão contaminados pela presença de pessoas que expressamente são antissemitas ao negar o direito que deveria ser inquestionável dos judeus ao seu lar na terra de onde foram expulsos para uma diáspora crudelíssima, onde reiteradamente se tornaram vítimas de perseguições e violências. A naturalização do antissemitismo em setores hegemônicos das esquerdas desgraçadamente dá margem a frases como “Hitler não completou seu trabalho”. Não temos aqui divergência ideológica ou algo aceitável no jogo político. É antissemitismo, e eu não respiro o mesmo ar que essas pessoas. São minhas inimigas irreconciliáveis, algo profundo, incontornável.
3) Futebol. Temos aqui uma situação curiosa. Escrevi oito livros sobre o meu Grêmio, mas, paradoxalmente (e para surpresa de quem não me conhece), não sou afeito ao ambiente do futebol com suas rivalidades destrutivas que emburrecem até as pessoas supostamente inteligentes. Já sofri com rejeições e narizes torcidos porque ousei contar, embasado em fatos irrefutáveis, a pluralidade e a inclusão do meu time de futebol (“Coligay”, “Somos azuis, pretos e brancos” e “A Fonte” são uma trilogia). Alguns mais fanatizados fazem malabarismos para negar as verdades plenamente certificáveis que trago no meu trabalho e acabam até me ofendendo. Apregoam que houve maior abertura do rival, ignorando que eu não nego o momento em que isso ocorreu, mas explico o hiato em que se deu e seus motivos. Usam uma ação proativa do presidente Vanzelotti em 1952, com reações dos reacionários de sempre, pra supostamente comprovar que houvera alguma norma expressa, quando o que ocorria era o rompimento explícito de um costume que houve em todos os clubes. Os caras negam a irrefutabilidade de documentos e fotos pra sustentar um imaginário frágil e tolo. Mas ninguém estranha que jamais apresentaram a suposta cláusula, até porque ela nunca existiu. Enfim, praticar o mais puro jornalismo, ao reportar fatos certificáveis, me fez colidir com figuras das quais quero distância, porque são de índole, profissionalismo e temperamento totalmente diferentes dos meus. Ainda bem!
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Logo, sou um centauro de diversos jardins, alguns deles interconectados.
Muitas vezes incompreendido e castigado por ignorâncias dolosas ou culposas.
Mas não se preocupe: a maturidade tem me ajudado a lidar melhor com isso.
E, de mais a mais, sempre fui admirador das pessoas autênticas, que defendem suas convicções com a pureza dos inocentes (jamais “ingênuos”) e não dançam ao sabor da melodia alheia. O orgulho e o embasamento do cara que faz o certo me protegem.
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Da ironia
Nesse assunto todo, aparecem as redes antissociais, o tambor que amplifica a ignorância.
A grosseria e a estupidez são empoderadas pela repetição.
E a burrice mostra toda a sua dimensão.
Antigamente, um colunista de jornal podia ser irônico.
Você já percebeu que a ironia sumiu da mídia em crise?
Por quê? É simples (olha o Mário Fofoca de novo): às vezes uma ironia tinha objetivos certeiros, e alguns não a entendiam. Aí, um amigo esperto que tinha lido o mesmo texto (que eventualmente dizia algo completamente oposto ao ponto onde queria chegar) explicava: “O cara teve determinada intenção.” E o mais lento respondia: “Ahhhhhh, táááááá…”
Fim de conversa. Risos. E o comentário: “Bah, que inteligente!”
Meu saudoso amigo Paulo Sant’Ana era craque nisso. Fazia elogios venenosos, capciosos.
Hoje, em especial no futebol, o leitor que não o entendesse iria rapidinho para as redes sociais xingá-lo. Nem daria tempo de o amigo mais lúcido explicar o sentido da mensagem.
E aí, escrito o xingamento nas redes, resta mantê-lo.
E os seguidores repicam.
E o esclarecimento é inútil.
Eu próprio evito exagerar nas ironias, em especial nas redes antissociais, porque sei que muitos não vão entender, vão me xingar e ser seguidos pela horda de ignorantes.
De compartilhamentos em compartilhamentos, a intenção se desvirtua.
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Resumo: vivemos tempos de ignorância.
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Ainda assim ou até por isso, desejo-lhe, como em todas as sextas, shabat shalom.
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PS: vi um filme que é baseado num livro e o detestei. Não posso dizer o nome porque o problema está no seu final. No livro, o protagonista não morre; no filme, sim. A questão não é ter um final feliz, haver apelo pelo desfecho triste e sensacionalista e outras possíveis ponderações. A questão é que o desfecho com a sobrevivência de um dos protagonistas é essencial. Rola um lance meio Victor Frankl (o sentido da vida…). O protagonista, com câncer, no dilema entre se tratar ou deixar a natureza levá-lo à morte, decide, no livro que deu origem ao filme, enfim se tratar e viver. E esse desfecho não é mero detalhe. Também durante o filme, há o apelo de um pai desesperado dizendo que o filho é o “amor da sua vida”, uma mãe inconsolável, uma namorada amorosa e projetos de vida. No livro, o cara decide viver porque vale a pena, e essa é toda a linda mensagem que fica esvaziada por um filme bonito que termina de forma comprometedora. Que pena! Só dou uma dica: é lançamento recente da Netflix. Quem souber o título, me diga ao pé do ouvido.
Todos os textos de Léo Gerchmann estão AQUI.
Foto da Capa: Gerada por IA.

